Não há vagas

Não há vagas para quem não aproveita as oportunidades! – Dizia o cartaz borrado de uma ideologia, aos meus olhos, um tanto quanto meritocrata. Tudo bem, você pode ter uma opinião diferente. Eu respeito. Só peço que faça o mesmo. Se quiser, pode continuar lendo, afinal, já tem tanto tempo que não nos falamos. Se não quiser, tudo bem, também.

Se você continuou, só tenho três explicações: ou estava mesmo com saudades de “me ler” ou quer ver até onde eu vou na minha conversa mole ou, na melhor das hipóteses, concorda comigo. De forma bem simplista, algumas coisas, por mais que eu me esforce e me empenhe toda uma vida, jamais serei capaz de fazer, logo, não posso concordar com meritocracia. E nem é por autocomiseração.

Eu tive excelentes oportunidades na vida. Nasci e cresci numa família humilde que ascendeu um pouco socialmente para seus próprios padrões e ACREDITE SE PUDER: com a ajuda de outras pessoas! Não foi por puro mérito! Teve uma boa dose de esforço, mas sem aquele primeiro grande empurrão de um grande amigo, ah…

Também não posso me queixar ou chorar pitangas: quase sempre tive tudo que pedia de presente nos aniversários e natais; não me lembro de um presente que não tenha recebido (Me dói o coração imaginar o quanto custaram não só de preço, mas horas de trabalho). Sempre estudei em escola particular e hoje faço parte de um grupo seleto que tem a chance de fazer uma pós-graduação. Também não estou me vangloriando.

Nesse país, a coisa anda tão feia que ter certos “privilégios” chega a ser constrangedor. E é mesmo. Se esse privilégio não me fizer uma pessoa melhor, que se preocupa em fazer o bem a quem precisa, que se envolve com causas nobres ou no mínimo, se preocupa em ajudar um vizinho, uma vez ou outra na vida, aquilo que para muitos países por aí são direitos e absolutamente normais, pra gente que consegue penando com uma certa dificuldade depois que aprende o valor do dinheiro, passa a ser motivo de vergonha ou no mínimo, insegurança.

E infelizmente, não estou falando de carro novo, celular moderno, plano de saúde ou viagens ao exterior uma vez por ano. Sabemos que vivemos tempos bicudos quando começamos a ter uma invejinha de quem tem emprego, um carro popular, boa saúde e não precisa comprar remédios e consegue sobreviver sem fazer dívidas com o nome intacto nos Serviços de Proteção ao Crédito. Passa a ser de bom tom avisar: não faço parte desse grupo que mereça sua inveja, viu? Não atendo a todos esses requisitos! Não precisa me invejar; eu também vivo no Brasil!

As folhas caem.

Ao ver a menininha chorando, perguntou: “O que você tem, lindinha?” Ela, que olhava folhas caídas ao chão, respondeu com seu ar de pureza e inocência: “Estou com pena da árvore!” Quis saber o porquê e ela disse: “Suas folhas estão caindo! Deve doer…!”

Saiu daquele encontro pensando sobre a doçura da menina e a verdade daquele encontro inesperado. De fato, pra árvore será que dói? Mesmo que seja doloroso, em sua sabedoria, a árvore entende que, naquela estação, deixar cair as folhas secas é importante em seu processo de renovação. Ela sabe que o outono chega todo ano e com ele, o tempo de deixar ir o que secou para renascer no ciclo da vida. Em sua serenidade, a árvore sabe, pela experiência e o passar dos anos em que viu suas folhas secarem e se despedirem, que esse é o começo. Ainda haverá de passar por um rigoroso inverno sem folhagem para, só então, florescer e sentir a vida revigorada, começar a brotar novamente com cores e beleza.

Talvez, em seu primeiro outono, ela tenha tomado um susto e se desesperado. É assim quando se é jovem. Só o tempo e a passagem de muitos outonos nos dá maturidade para compreender que as folhas cairão no outono; o inverno chegará, depois floresce e começa tudo de novo.

Só o tempo ensina que é necessário deixar cair as folhas secas pra renovar o ciclo. Só o tempo nos ensina a lidar com os outonos. Só o tempo nos dá paciência para suportar os outonos.  Mas a gente aprende: deixar as folhas secas caírem pode até doer, mas é parte do inevitável processo da vida. Que as árvores nos ensinem a lição: Serenidade para viver a essência de cada estação.  

Love Letters

Café das cinquepoca

O amor era mais amor quando amantes escreviam cartas. Procurava-se inspiração em canções de amor com sentido profundo, ia-se ao âmago dos sentimentos atrás daquilo que poderia motivar o namorado em sua escrita, em parecer um pouco com o poeta e a inspiração vinha do olhar ou do sorriso da amada.

Fernando Pessoa escreveu: “Todas as cartas de amor são ridículas. Não seriam cartas de amor se não fossem ridículas. As cartas de amor, se há amor, tem de ser ridículas. Também escrevi  no meu tempo, cartas de amor, como as outras, ridículas. Quem dera o tempo, em que eu escrevia, sem dar por isso, cartas de amor ridículas. Afinal, só as criaturas que nunca escreveram cartas de amor é que são ridículas!”. É exatamente essa dimensão do ridículo que falta aos amantes de hoje: escrever, reescrever, rasgar, passar a limpo, se preocupar com o que a pessoa amada sentirá…

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Saí da Universidade e descobri “Psicologias”

Após anos me enrolando, ou na verdade, me desenrolando, passando por três cursos e 4 faculdades diferente, me formei aos 25 anos (perto dos 26).
A vontade de fazer Psicologia, assim como nos outros cursos, sempre foi a de me enfronhar no viés acadêmico, ou seja, nessa atuação como Professor de graduação e pesquisador.
O que fazer com esse curso aí que terminei?
O que é atendimento psicológico? O que alugar um consultório?
Enfrentei algumas questões e situações que, na verdade, ainda me encontro incluso e em processo.
Coisas que nunca pensei e que hoje fazem todo e completo sentido.
Como ser um profissional dessa área em uma cidade com 400 mil habitantes com duas faculdade com o curso de Psicologia, formando cerca de 30 a 40 profissionais por ano?
Difícil!
Mas a meta do ir para o mestrado pra em qualquer hora eu conseguir formular minhas “tiurias”, compartilhar conhecimento que tenha conseguido absorver, e colher conhecimento no contato com os alunos, essa bonita meta está aí de pé.
Nesse processo estranho, nesse remover as cobertas puxando em um dia frio, tirar o band aid de vez sem pensar nos cabelinhos grudados… esse momento “sem cadeira” para poder se acomodar, rápido, novo, súbito, eletrizante… tudo tem sido um pouco dolorido. Mas confesso que essa “dor” tem me feito desfragmentar ideias, absorver perspectivas novas e não ficar em uma zona tão de conforto.
O que descobri ao sair da faculdade?
Algo chamado paradigma ético político da Psicologia.
Traduz pra mim – e eu diria para eu mesmo que fiz a pergunta – Claro!
Que raios de proposta seria essa, o que significa ser Psicólogo a partir dessa perspectiva?

Vamos pensar na contraposição de paradigmas para explicar melhor.

Paradigma técnico-científico X Paradigma ético-político

A ideia técnica e científica englobo o aspecto trazido pelo empirismo e positivismo, pelas tentativas de coletas de resultados sob uma neutralidade do pesquisador. Os fatos falam. Seria algo como o que você formula de teoria deve ser submetido a uma comprovação em campo, ou seja, testada na “vida real”.
Esse princípio está ligado diretamente a forma de pesquisa científica, realizada em um viés extraordinário dentro das ciências exatas, ciências naturais. O que isso significa? Que há uma teoria que encontra suporte nos fatos encontrados do trabalho daquele que pesquisa em campo.
A Física se consolida como uma disciplina que suporta esse tipo de encaminhamento de métodos e de metodologia. Algo que acontece em todos os locais da Terra (talvez do universo ou do que é possível mensurar deste), que segue uma lógica tão forte e com argumentos tão fortes, se consolida como uma teoria universal, que consegue ser elemento legislatório. São as leis, aquelas que são aplicadas em qualquer contexto e são obtidas as mesmas respostas. As condições sendo as mesmas, serão os mesmos números e dados coletados.
Por exemplo, em qualquer lugar do mundo se você se jogar de um prédio você irá se espatifar feito um tomate ao encontrar o chão. Isso não muda, apenas varia de acordo com a altitude, com o vento, com a umidade. Ou seja, há apenas aspectos marginais que influem nos resultados.
Por que falar da Física?
As disciplinas clássicas surgem todas de uma: a Filosofia.
A Filosofia trabalhava com a busca de respostas (leigo na área, apenas para podermos compreender as origens) dos fenômenos e aspectos dos homens, do mundo, do cosmos, da origem de tudo e assim vai.
Em seu princípio a Filosofia dava conta de números, de escritos, de mapas e de qualquer forma usada para explicar tais fenômenos.
Em certo momento a Filosofia traz duas modalidades: o quadrivium (geometria, aritmética, astronomia e música) e o trivium (gramática, retórica e dialética). Nesse ponto já é possível notar uma certa divisão em dois blocos de interesse.
Ok! Fui muito longe já! – entendo –
Daí em diante o que aconteceu foi uma ruptura que guiou dois tipos de ciência: as humanas e as exatas.
Mas mesmo que a Psicologia estivesse dentro de um viés da humana, muitas tentativas de explicação total do funcionamento da psiqué humana foi buscado a partir do viés da ciência empírica e de comprovamento empírico.
Isso se deve ao fato da Psicologia ter sempre buscado “imitar” e seguir os passos da Física.
Por que isso? Influenciados pelos valores dos ideias de Descartes, Comte e outros, a Psicologia precisava de um modelo em que as teorias viravam leis, o que satisfaria o zeitgest (ideias aceitas em certo momento e contexto) de fazer com que os elementos de estudo do comportamento humano e do funcionamento psicológico fossem explicados através de fatos, de coisas que fossem possíveis de estabelecer como maneiras de explicar que desse conta de todas as situações e de todas as pessoas. Ou seja, uma ideia de um “se jogar do prédio e se esborrachar” na Psicologia = algo que aconteceria em qualquer lugar, que fosse uma teoria completa, algo universal, dando conta de responder o motivo de se comportar e pensar de certa forma.
Tivemos a Psicanálise, o Behaviorismo, o Cognitivismo, os laboratórios estruturalistas e tantas outras que tentaram mostrar a Psicologia como ciência, com teorias e leis gerais.
Não rolou, né? Dão suporte para certos contextos, certas atividades em consultório, alguns experimentos, instrumentos como testes. Mas o que é interessante colocar: em contextos específicos.
Alguns elementos do funcionamento biológico são comprobatórios de forma empírica científica, mas como alguém irá se comportar sob tal estímulo,,, isso não.
Porque isso pode ser algo complicado?
Buscar leis que falem por universalidades. Isso significa generalizar, englobar todos em uma mesma coisa.
Isso prejudica ao estigmatizar, buscar formas de reafirmar patologias, problemas, distúrbios de conduta, distúrbios psicológicos, e tantas outras coisas que podem soar como resultado de certos elementos (seja históricos, orgânicos, genéticos).
Falar que a homossexualidade é algo relacionado a um problema na fase do complexo de édipo ou na gestação, significa dizer que ser homossexual não é algo que estaria dentro da normalidade, e pior, indicar que isso seria proveniente de algum problema. Por que não pensar que um problema no complexo de édipo é o que ocorre com heterossexuais?
Excludentes e estigmatizadores.

Não colocando como que tudo o que se buscou, trouxe e traz de conhecimento a partir de um viés científico seja insignificante. Pelo contrário, foi fundamental. O importante é observar até que ponto as grandes tecnologias criadas para trazer melhorias e maior compreendimento sobre o mundo, podem trazer mais ignorância, ódio e excluir.

Paradigma ético-político (até estético também)
Essa forma de pensar estaria ligada a uma maneira de ver as ciências humanas como ciências humanas, e não passíveis de serem fechadas dentro do método científico apenas. Essa ideia do ético e político busca uma forma de se investigar dentro daquilo que pode ser buscado naquele contexto que se busca, e por quem busca. Ou seja, aquele que pesquisa não é neutro, ele percebe aquilo e sua presença já influi nas relações dentro da pesquisa. NO viés de atuação, pensar em não utilizar o método científico se pauta na ideia de não cairmos em generalidades de teorias e nos esquecermos das singularidades daquele que estamos lidando, falando e tendo contato. É não sentir que já se sabe o que é ou como é ter certa psicopatologia, certo sofrimento psíquico. É compreender as potencialidades de todos, a capacidade do ato criativo, de pararmos de pensar que o louco, que o rapaz com down e tanto mais não podem fazer o que fazemos, fazer melhor do que fazemos, ou que não tem nada a acrescentar em seu discurso e suas percepções. Não é da voz, eles já possuem essa voz, é apenas dar escuta. Nessa dimensão ética e política, o trabalho de atuação e de pesquisa é político, já que se engendra em ou manter as generalizações ou de não deixar que excluam por estas. É compreender o papel do atuar como profissional e o quanto isso traz impactos na vida de outrem.

A partir de minha saída da faculdade, ou pelo menos desde o último ano estudando na instituição, minha concepção sobre o que é Psicologia mudou de forma significativa. Não ignorando o que é pensar em psicologia como ciência e o que traz de importante, mas ter sempre em mente a importância do que significa ética e política dentro do que é ser psicólogo, em nosso dia a dia, não trazendo mais segregações e exclusões, mas trabalhando de forma a trazer autonomia, fortalecer os laços relacionais a partir da escuta, sem se colocar em um suposto lugar de sabedor do que o outro tem por já ter lido que quem fala sozinho e maluco e sobre da forma A e B, que toma remédio da forma C e que as coisas são sempre as mesmas. Não! Não são!

Existe amor em SP!

Em dias como hoje, 25 de janeiro, eu fico a pensar, como um espaço territorial, consegue ser tão amado e tão odiado? Caos, trânsito, enchente, multidão para qualquer lugar que você olha, sujeira, prédios e mais prédios, concreto, asfalto (esburacado), pessoas frias e apressadas. Como amar esse lugar? Como encontrar, como diz a canção, “Amor em SP”? Tem dia que ando, e me perco, pelas suas mais de 10 mil ruas e avenidas, e meu maior desejo é ter uma bomba superpoderosa e botar tudo abaixo, começar a construir a cidade novamente, mais planejada, com menos pessoas, sem prédios, com mais árvores, sem construções nas margens dos nossos rios.
Entretanto, se eu pudesse fazer isso, certamente São Paulo deixaria de ser São Paulo. Talvez a beleza dessa cidade esteja justamente nessa mistura de gente dos quatro cantos do planeta que vem residir aqui. Nessa selva de pedra, nessas milhares de ruas e avenidas, que se tornam ruas com lojas de artigos específicos, afinal quem não vai até a Teodoro Sampaio para comprar um instrumento musical? Uma quinquilharia na 25 de março? Uma peça de roupa na José Paulino? Ou o tão sonhado vestido de noiva na São Caetano? Sem contar que você pode visitar qualquer lugar do mundo, e provavelmente vai chegar a conclusão que a melhor gastronomia está aqui. De uma esquina a outra você pode saborear as mais diferentes culturas culinárias, pagar pouco ou gastar uma fortuna para saciar seu apetite. Centro, ZN, ZO, ZL, ZS, cada um dos cantos dessa cidade tem uma particularidade, que torna qualquer passeio por aqui uma aventura, no mais amplo significado que a palavra aventura pode ter. Claro que eu e você podemos fazer muito mais para tornar essa cidade um lugar cada dia melhor, todavia, ela é bela.
Nasci em São Paulo, sou paulistana do bairro de Santo Amaro, vim ao mundo às margens do pé do bandeirante Borba Gato, e talvez por isso eu me encanto em andar tanto por esses 100 KM de município (aprendi direitinho com esse bandeirante. rs). Torço para o mais paulistano de todos os times de futebol, o São Paulo Futebol Clube. Trabalhei oito anos como professora municipal aqui. Fiz minha graduação nessa cidade, conheço as dezenas das igrejas metodistas dos mais diversos bairros e vilas daqui, namoro o cara mais bonito da ZN, muitas das minhas melhores histórias foram vividas nas terras paulistanas, contudo, nunca tive a oportunidade de morar em São Paulo, sempre estive na margem, na região conhecida como Grande São Paulo, (a saber nas cidades de Itapecerica da Serra e de São Bernardo do Campo). E é provavelmente por isso que as luzes, o caos desse lugar conseguem ainda me fascinar.
Assim, às cinquepoca desse 25 de janeiro de 2016, quando São Paulo completa 462 anos, apesar de tudo, ainda posso dizer que eu amo SP.