O umbigo das coisas

Semana passada meu texto aqui rendeu o que falar. Pessoas me procurando, preocupadas com os sentimentos que expus no texto ( você pode ler, se ainda não o fez e dar o seu parecer também a respeito), amigos preocupados com meu desabafo sobre solidão, até mensagens e telefonemas preocupados, eu recebi. Na verdade, me senti querido e agradeço de coração pelo carinho e a atenção, mas não foi minha intenção preocupar ninguém. A questão era meramente de aprofundamento poético: dizer e colocar no papel, sentimentos, coisas de verdade, que todo mundo sente. Ou quase todo mundo.

O problema parece estar no dizer. Expor tais sentimentos parece errado ou mesmo algum tipo de pecado. No mínimo é politicamente, incorreto. A geração dos anos 2000 e dessa primeira década seguinte têm aprendidocom a internet e todas as coisas instantâneas e solúveis e rápidas, muito sobre não se aprofundar em nada. Por outro lado, se sofre de tantas crises, depressões e síndromes cada vez mais estranhas nessas novas gerações, que haja enciclopédia psiquiátrica pra catalogar.

O que está em jogo, então, são os motivos. Bem que eu queria escrever meus poemas e textos sempre sobre amores bem sucedidos, casas brancas, com flores na janela e uma rede de malha pra gente ficar deitado, juntinho, sonhando…Mas desde quando a vida é assim e nos dá tanta regalia? Qual poeta fez sucesso por ser feliz no amor?

Nem acuso as crianças de hoje disso, porque de fato, eles nem entendem muito bem o que dizemos, vai. A superficialidade da moçada consiste exatamente nesse sofrimento tecnológico. O nosso sofrimento incompreendido, por outro lado, é meramente existencial e tem um quê, sei lá de quê, de tentar viver um tempo que não viveu. A minha geração queria ter passado pela repressão da ditadura pra compor como Chicos, Caetanos e outros. A minha geração, entretanto, teve Renato Russo, Cazuza e outros que “morreram de overdose”, com seus “melancolismos de fratura exposta”.

Foi com eles que aprendemos a cantar e a escrever. Mas hoje, com tanta rapidez de conexão e download, ninguém quer saber de ver os outros expondo sentimentos em palavras por aí. Quem é que para pra ler um texto grande desses? O pior é que a moçada não tem nem vergonha de admitir que se for grande, não lê. Nem eu!
Se não for engraçado ou não for polêmico, não vende e pega meio mal. Pra atrair, pra vender, tem que ser superficial como quase tudo hoje, inclusive os relacionamentos. Seremos no futuro, reféns de gerações que não se aprofundam em nada por essa ilusória sensação de que nunca dá tempo?

Por isso que eu cato em mim, vez ou outra, sentimentos e jogo no papel: na esperança de que, por ser grande, ninguém leia!

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