A ironia da vida: ontem o desespero e hoje a prevenção – 10 de set. dia mundial de prevenção ao suicídio

Assim como a verba pública, o suicídio é algo comum e frequentemente escondido em nossa sociedade: habita um local comum, em que todos sabem, mas nunca se sabe ao certo.
Uma sociedade que demonstra um número alto de suicídios se configura em uma estrutura disfuncional, e noticiar esses eventos se equivale em amplificar tal aspecto. Sendo assim, é pouco comum sabermos sobre tais assuntos.
O que isso tem em comum com a música?
Bem… em alguns meses o país presenciou três casos no seu meio musical: Chorão (Charlie Brown Jr.), Peu (guitarrista Pity), e ontem, Champignon (Charlie B. e A Banca).
Ter no cerne do cenário do rock brasileiro um surto de acontecimentos trágicos, nos leva a pensar no que poderia estabelecer um fator de causa-efeito, ou pelo menos alguma resposta para compreender tal aspecto. E assim como qualquer tentativa de teorizar o homem e seus comportamentos, estaríamos fadados a fracassar. O que leva um homem a tirar sua própria vida está em uma gama de situações, contextos e pressões que não poderíamos acoplar em uma ideia exposta por um “CSI”.
Dessa forma, talvez a ideia seja a de não lidarmos com um enquadramento tão retilíneo, e buscarmos uma ideia de fatos que sobram desse ato tão só e triste.
Temos uma névoa no que é e foi uma banda de muita qualidade no cenário brasileiro da música. O Charlie Brown Jr. alegrou e influenciou muita gente, usando belas composições instrumentais aliadas a um vocal que era condizente com essa “mistura sonora”, e que tinha sentido com o que era passado nas letras. Não estamos falando sobre gostar ou não, mas sim sobre saber dizer que algo era bem feito. Assim como é importante dizer que por mais que odeia axé, acredito que a Ivete tenha uma das vozes mais bonitas que já ouvi.
Como disse antes, não vamos pensar no que levou a isso, são muitas coisas (pressão em dar sequência a uma carreira, drogas, família, falta de suporte, estrutura) que no final não se configuram nem como um A+B nem mesmo como um AxB. É algo que somente quem passou poderia sentir o quanto tais fatos se ligavam a um momento e um estado emocional e psicológico.
Ficam então o que? A música, claro. Obra eterna. Deixaram registrada sua presença na Terra. Os anos passarão, mas quem ouviu e gostou, nunca esquecerá. Muitos ainda não nascidos poderão ouvir e usar isso como alguma ferramenta em suas vidas, ou até mesmo, um simples prazer de se escutar.
Ficam, também – em um patamar profundamente pesado e entristecedor – as famílias, os músicos e todos aqueles que trabalhavam com essas bandas.
Talvez levemos a história a pensar em como a mulher do Champignon deve estar se sentindo, como a família deve estar, os amigos, mas nos esquecemos de algo importante: e todos os que dependiam dessa banda para sobreviver?
Requer estrutura para poder superar uma situação adversa totalmente surpreendente. Em um dia você tem uma turnê, tem shows ainda a fazer, e sabe bem quanto que irá ganhar por seu trabalho, e no outro dia você não tem o companheiro de banda, nem a banda, e nem tudo o que tange esse contexto de trabalho.
Com certeza foi algo duro, tirar sua vida, mas agora quem tem que segurar o tranco são os outros.
A resiliência (capacidade de se reorganizar ou reestruturar após um intempere ou deformação) por parte desses (que nesse caso sim sofrem um efeito de uma causa) que assumiram um fardo por escolhas de outros, deve se configurar como algo mais valioso.
É triste tanto no que tange um homem se matar, quanto em tudo aquilo que fica a terceiros por esse ato.
E o filho que virá ao mundo? Mais um filho sem pai, e por um ato tão triste.
É irônico, hoje dia 10 de setembro, um dia após Champignon tirar sua vida, ser o dia mundial da prevenção ao suicídio. O número de mortes desse tipo supera o número de mortos em acidentes de carro. As estatísticas trazem que mais de um milhão de pessoas se matam por ano no mundo. Temos ainda, que o número de suicídios no país aumentou nos últimos dez anos.
O que isso pode significar? Muitos aspectos, como talvez uma população com um grande número de depressivos, ou de uma sociedade com muitos aspectos desiguais. Além disso, o uso de drogas é um fator considerado como potencializador.
O que pensar de pessoas que aparentemente possuem tudo que querem e tiram suas vidas? Talvez possamos usar alguns aspectos do grande Sartre, levando em conta o aspectos da essência que se coloca como um fator depois da existência: o homem é um projeto, e se define, vai se construindo; ele não nasce com um significado ou com uma definição, vai aos poucos moldando o seu EU.
E aí caímos na questão da neurose de existência, que seria um vazio existencial: não ser coerente no aspectos do que você acredita que é, gosta, motiva, interessa, com relação ao que você acaba agindo. Ou seja seu estado atual (trabalho, família, interesses, vontades) não são aqueles que você de fato gostaria de ser.
Incongruência. E aonde poderia bater nesse evento de ontem, de Peu e de Chorão? Talvez faltasse algo, talvez houvesse mais arrependimentos e vontades diferentes de ser, do que de fato eram naquele momento.
E como lidar com isso? Isso vai de cada um, e no que parece, buscar a morte não se caracteriza como a melhor saída.

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Um pensamento sobre “A ironia da vida: ontem o desespero e hoje a prevenção – 10 de set. dia mundial de prevenção ao suicídio

  1. Muito bom!!! Difícil compreender e aceitar! Um cara com uma carreira tão legal! Mas, não é só disso q o homem precisa! Se fossem só os bens adquiridos ao longo da vida q fizessem as pessoas continuarem a sonhar e viver…

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