Amores selvagens

Delicioso porque proibido. Proibido porque inviável. Inviável pelos desencontros e arranjos inesperados da vida. Amores bandidos, e justamente por serem bandidos excitantes. Avassaladores! Selvagens…

Selvagens, talvez essa seja a melhor definição. As paixões inviáveis certamente escondem algo mais profundo que o próprio sentimento afetivo ou desejo sexual. Talvez apontem para a dimensão indomável que habita em nós. Dimensão que reluta em existir, pois fomos domesticados pela evolução da consciência. Em tese, devemos reprimi-la. Posto que revela nossa animalidade, os nossos “instintos mais sacanas” (Humberto Gessinger).

E é justamente isso que se ama (que amamos)! “Não amamos a pessoa, mas o símbolo que ela representa” (Rubem Alves).  Amamos o que passamos a ser diante do ser amado. Disso é feito o amor selvagem. A paixão não requer o conforto nem o descanso. Ela clama pelo fogo, pelo vendaval. Elementos não domesticados que remetem aquilo que outrora fomos – ou pensamos que fomos.

A vida cansa. O cotidiano enfada. A idade nos aborrece. Assim, vez e outra saímos em busca do “sagrado selvagem” (Bastide). Sagrado? Sim, não somente a religião oferece transcendência, as relações também. O sexo também. Sair de si, fundir-se noutra pessoa, corpo e alma. Transcendência!

A fé e o amor instituído não nos bastam. Por isso, saímos à procura de um eu adormecido. Acordamo-lo não para que se sobreponha definitivamente. Afinal, somos domesticados. Domesticamo-nos e daí em diante somos essa síntese que se debate entre o conforto e a aventura, o amor e a paixão, a necessidade e o desejo, a calmaria e a tempestade.

Em nós, finito e infinito se fundem, temporal e eterno se encontram numa aparente contradição perturbadora (Kierkegaard). Perturbando acima de tudo aqueles que não recepcionam em paz essa condição existencial. Por isso os matemáticos enlouquecem, enquanto os poetas se apaixonam uma vez mais. Se os primeiros desejam resolver as torturantes equações da vida, os últimos simplesmente as aceitam como dádiva surpreendente que os permitem ser várias pessoas em uma só.

E eventualmente queremos ser aquela pessoa tomada de coragem e movida pela paixão, a pessoa que somos quando estamos ao lado do ser amado. Esse amor selvagem! Nesse intervalo de tempo, quando a vida parece parar a fim de que vivamos o inesperado, sentimo-nos inteiros como nunca, vivos como os imortais, destemíveis como os deuses. 

Esse tempo quase mítico passará, pois tudo passa. Mas não importa! Importa o momento. O tempo chamado hoje. Que se torna eterno pois “tudo o que a memória amou já ficou eterno” (Adélia Prado).

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