“O silêncio é reacionário.” *

Devido a discussões políticas em redes sociais – discussões públicas – algumas pessoas chegaram a me perguntar a razão pela qual eu mantenho vínculos virtuais (e até mesmo pessoais) com gente que pensa de forma tão diferente da minha e mesmo se portam de forma inconveniente nesses debates.

Ora, salvo raras exceções, nunca havia pensado em excluir ninguém das contas que possuo na internet. As razões são bem simples: a) sou instigado a pensar diferente por meio do contraponto, por si só isso já é muito proveitoso; b) acredito na possibilidade de enriquecimento mútuo decorrente desses enfrentamentos; c) com frequência os debatentes são meus amigos e amigas, portanto possuo vínculos afetivos com estas pessoas que vão além da afinidade política.

Evidentemente, nem sempre me alegro com o que alguns me dizem. E, claro, não raramente perco a sobriedade, demonstrando minha instabilidade emocional com palavras pouco gentis. Entretanto, não acredito em crescimento sem confrontação, e confrontação implica necessariamente em certo incômodo, isso porque nossas ideias constituem a casa que habitamos e dão razão ao nosso viver cotidiano. Qualquer tijolo arrancado ou inserido pode desfigurar nosso universo pessoal, comprometendo nossa estabilidade e aconchego.

Nesse sentido, lamento por aqueles que não possuem serenidade o bastante a fim de compreender a dinâmica de um embate de ideias, que não sabem se portar e tampouco superar ofensas feitas no calor de uma discussão. Política, futebol, religião, dentre outros temas polêmicos, são plenamente discutíveis. Porém, há que se lembrar, envolvem paixão. Assim, ao desferirmos golpes contra algum objeto que seja, de algum modo, caro a outras pessoas, estamos sujeitos a reações das mais variadas.

Provocações geram reações. Se não queremos gerá-las, melhor não fazê-las. É importante então buscar compreender se a simples exposição de uma forma de pensar não resulta por si só uma agressão ao universo simbólico-afetivo de outros. Entrementes, assim como aprendemos a comer comendo, a falar ouvindo e falando, a andar tentando andar, não há como aprender a se portar em um debate sem se arriscar a entrar em um.

Óbvio, pode ser que nem sempre haja paciência para tantos desaforos e fundamentalismos (que ressurgem em nosso tempo), mas quem está na chuva é para se molhar. Penso ser preferível me arriscar a me calar absolutamente. Até porque, abrindo espaço para certa arrogância, se entendemos de algo, é bom que o transmitamos. Apresentemos o ponto ou contraponto a fim de não permitir que a burra unanimidade tome conta de todos.

* Jean-Paul Sartre é o autor da frase que nos dá o título de hoje.

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