A Páscoa e a Aliança Intacta

Pensar em Páscoa para além de chocolates é pensar numa aliança firmada muitos anos atrás entre Deus e um povo.  É o ato fundante do povo judeu, que a partir da experiência do Êxodo ( “Eu vos adotarei como o meu povo  e serei o vosso Deus” Ex 6.7) passa a ser povo escolhido ou o que seria mais apropriado, povo que escolhe. Escolhe seguir os mandamentos de Deus e recebe o cuidado e o amor divino em troca, numa aliança, acordo sagrado.

O segundo ato fundante do povo judeu e aí encontramos o elo de ligação entre o judaísmo  e o cristianismo que segue seus passos: o sofrimento.  Da destruição do Templo, as perseguições, sem esquecer do drama de Jó, Auschwitz e em todos esses momentos a  mesma pergunta permeia nossas mentes : por que sofrimento num mundo de aliança?

A resposta que parece mais óbvia e logo vem a mente é: o povo quebrou a aliança. Desde os profetas recordando inúmeras vezes ao povo o quão distantes estão da justiça e a misericórdia;  Moisés em um ataque de fúria quebrando as tábuas pela idolatria do povo até os amigos de Jó, supondo que ele tenha cometido gravíssimos pecados. Entretanto, nem Jó e ninguém mais que analise os fatos encontra um pecado tão grave que justifique sofrimentos horrendos como aquele povo enfrentou ao longo dos séculos.

É nesse contexto que o cristianismo se aproxima. É nesse contexto que a Páscoa cristã assume significado de nova aliança. No contexto do sofrimento, comum a judeus, gentios, cristãos e qualquer outro seguimento da sociedade que Jesus Cristo ganha significado em sua mensagem ao mundo. A mensagem de Deus ao mundo:  mesmo em meio ao maior sofrimento possível, a aliança se mantém intacta.  Mesmo em meio  à agonia física, ao ostracismo social, à noite escura da alma, Deus está profundamente conosco – Emmanuel. O amor de Deus permanece conosco para a eternidade. Esse amor pode não se traduzir em forma de buona fortuna, boa sorte: saúde, riqueza e outros deleites mundanos, mas nos é oferecida uma pérola de valor inestimável: o relacionamento com o divino.

Ao longo das nossas histórias, clamaremos, do alto das nossas cruzes: “Meu Deus! Meu Deus! Por que me desamparaste?” (Salmo 22. 24 e Marcos 15.34), mas a chave é que o grito ainda será por “MEU Deus”, o Deus da aliança, aliança intacta mesmo em meio às nossas crucificações.

 

Bibliografia:

LEDER, Drew. “Yehoshua e a aliança intacta”. artigo publicado no livro Jesus segundo o judaísmo. BRUTEAU, Beatrice (org.). São Paulo: Paulus, 2003.

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