Nas sombras do tempo e da solidão

Cap.II

Assim como as coisas acabam sempre sendo, toda situação complicada e difícil parece trazer mais emoção, e o proibido sempre foi a fruta preferida do homem. E dessa maneira, a rotina matinal de tirar leite das vacas se tornou o momento mais aguardado por Eulálio e Úrsula. Desde mais novos, os dois iam às cinco da manhã para os currais que ficavam em um local mais alto caminhando para noroeste das casas do vilarejo. Desde que Quinhão se tornou presente e importante na vida dos meninos, regia as duas famílias como uma só. Tomás era um pouco mais avantajado de corpo, e mais velho, e o plantar, colher e todos os trabalhos mecânicos pareciam cair como luva. Já Eulálio era mais daqueles que pensam e pensam, de certa forma, se algo viesse em direção de sua cabeça, pensaria antes para qual lado seria melhor ir. E assim, Eulálio acabou sendo o companheiro de Úrsula nas tarefas com as vacas e com os animais.
Os olhares dizem muito, e mesmo que um tivesse medo do que sentia pelo outro, ou o pavor de não ter o amor correspondido, pareciam brincar da mesma maneira que os domadores mais ousados brincam com seus leões. Um olhava para o outro, e quando um percebia o outro mudava a direção. Nesse jogo, todo o constrangimento fez com que não mais conseguissem lidar com a situação de estarem juntos da mesma forma que era antes, quando tudo era natural, e não havia o medo de esconder algo do outro. Mas só não percebia quem não queria perceber. Era tão chamativo quanto é ver alguém usando uma roupa menor que seu número.
– Me passa o balde? – pediu a menina sem olhar na direção do rapaz, fitava apenas o chão. Os olhos dizem muito.
– Ah.. o balde? Ah sim! Ele deve estar pendurado em algum gancho! Pronto achei – falando como se estivesse tonto por falta de ar, e se esticando para conseguir alcançar a viga central do curral. A menina buscou um banco e se sentou próximo a uma vaca, e o rapaz foi com a corda, passou pelas pernas do animal e deu um nó, e como se falasse com alguma terceira pessoa presente, mirou cerca de 30 graus fora da direção da menina e disse sem muita firmeza:
– Tem que amarrar as pernas! As vacas dão coice! Você não pode se machucar assim!
Interrompendo ao meio a ação “de cima para baixo” de apertar a teta da vaca, a menina ficou como se tivesse sido congelada, e só mexeu os olhos para a esquerda na direção do rapaz. Sua maçã do rosto ficara levemente corada, e em tom tão baixo de voz, como se falasse com medo ou para que só ela de fato conseguisse compreender o que era dito, sussurou – quase:
– Tem razão… Nunca conseguiria fazer isso sozinha!
Os dois ficaram parados por algum tempo, e depois voltaram a fazer suas atividades. Nunca saberemos se ele ouvira o que a morena havia dito. Por mais que esse jogo fosse algo tão cheio de incertezas e de poucas conversas e olhares certos, tudo que ali acontecia fazia com que a alma usasse o coração como tambor, e com ele começasse a tocar um bom samba. O coração batia, e o sangue corria por todo corpo. Se sentiam vivos como nunca haviam antes. Era uma droga, muito mais forte do que a que Seu Quinhão havia falado para que ficassem longe. Mas o efeito, ah… o efeito era o mesmo: cada dia queriam mais e era cada vez mais difícil não ter aquilo.
A única coisa que fazia o coração dos dois baterem mais forte, e que congelava a espinha era quando pensavam no que o avô legítimo de um e emprestado do outro iria achar se soubesse.

Mesmo assim, os dois iam se enganando, tecendo vários pensamentos, uns terríveies e outros fantasiosos. Por vezes pensavam que o outro não sentia o mesmo, e algumas vezes pensavam em como que seria bom se estivessem juntos. Eulálio pensava em como seria bom se casar com Úrsula e ir atrás de uma cidade maior, ver o mundo, e ter filhos que soubessem mais do que era possível ali naquele povoado; já a garota pensava em como seria bom se casar, ter filhos, e ver os filhos crescendo no mesmo lugar onde eles dois também cresceram. Os dois nem poderiam imaginar, que por mais que o amor proibido fosse trazer muitos problemas, o maior problema seria como que os dois pretendiam concretizar suas paixões: ele e o mundo, ela e a tradição. Ambos teriam amantes, mesmo que nesse papel não tivesse de fato alguém.
Era primavera em São Sebastião, o que significava que o clima estava igual a outros dois quartos do ano: somente o verão fazia alguma diferença, em todo resto as quatro estações em um dia, e a sensação de umidade que se tem em uma meia depois de um dia de trabalho – não me lembro se também do cheiro. De certa forma, a única diferença da primavera era que quem tinha alguma alergia a polém se dava muito mal.

Depois de uma hora e meia tirando leite, a bonita menina e o esguio rapaz seguiam pela pequena trilha que conduzia de volta ao centro – se equivale “aonde tem as casas” – e naquela dinâmica de amor infantilizado, seguiam em um silêncio total. Deveria durar horas esses momentos de tensão, em que ninguém falava e o coração pulava. Quase chgando ao portão de entrada, o rapaz conseguiu um pouco de coragem e tentou cuspir algumas palavras:
– O sol tá começando a ficar um pouco mais forte, mas ainda tá bem frio. Devem ser sete e meia da manhã.
Como se quem nem quisesse pensar no assunto e que o concordar era o óbvio, e uma espécie de “sim, eu também quero você”, a menina fez um movimento leve para baixo e para cima com a cabeça, e disse de forma leve e fraca:
– É sim!
Como é chato para quem vê e percebe o quanto um quer o outro, e como o medo faz os dois parecerem animais acuados. Mas no final, aquela dinâmica para os dois, seria estória para seu futuro, e no momento era gasolina para o motor do amor.
– Vamos por ali? – indicou o rapaz com seu dedo anelar – o único livre e os outros se ocupando em segurar o balde com leite.
Parando e colocando os baldes no chão, e calculando com os olhos, assim como os primeiros exploradores devem ter feito antes de desenhar os mapas, a menina respondeu sem virar o pescoço:
– Mas será que pegando o caminho ao lado do riacho não chegamos mais rápido?
Mal sabiam que tanto como na rota escolhida, quanto em suas vidas, o final já estava certo de como seria. E de certa forma, tanto faz a teimosia ou a ansiedade de se chegar logo, pois como se sabe, o caminho longo ou o caminho curto te levam ao mesmo lugar. Para os dois, a estória estava traçada desde antes que existissem: o mal que dali viria era antigo, e existia como uma forma de prestação de contas com o destino, mas não por crimes que haviam cometido. A pena e os escolhidos para pagá-la já estava escrita, e se não fosse com eles, haveria de ser com eles.
Decidiram ir cada um por um caminho, apostaram algumas moedas, e aquele que chegasse antes até a casa do velho Quinhão ganharia o dinheiro do outro. O valor não era de grande significado, mas os dois não sabiam que ali era o começo do fim, e que dali pra frente, o que iria definir sua estória, seria exatamente as ideias contrárias e a ironia do destino. O final já é certo desde agora. Ela chegou antes, e nunca saberemos se o caminho dela era mais rápido, se ela acelerou o caminhar, ou se ele havia deixado que ela chegasse antes.
– Coloque ali na mesa! – falou Eulálio de forma quase automática, enquanto buscava bacias para que servissem de nova moradia para os litros de leite.
Ao levantar o pesado balde, Úrsula foi buscando forças para conseguir erguer o recipiente até a altura necessária para apoior na superfície da mesa, e vendo a dificuldade da menina, o rapaz saiu do lado em que estava e foi por trás da menina para auxiliar na tarefa.
E foi logo após o balde chegar a tábua lisa e envernizada, que os dois se deram conta de que estava com os corpos juntos, de forma que toda parte das costas da menina estavam encostada na parte da frente do corpo do rapaz.
Foram três ou quatro horas que o evento durou para os dois, mas na medida em que usamos de tempo, não passaram mais que cinco segundos.
O que os dois sentiram, somente aqueles que amam podem compreender. Era como se o corpo inteiro falasse pelo que se sente, de uma maneira que cada poro e cada pelo do corpo sentisse cada centímetro do outro; é um vento frio no deserto quente, é como se fosse possível sentir uma camada da paixão que cada um sentia, envolvendo o corpo e se unindo aonde se encontravam juntos. A sensação era de que o corpo de um acabava no fim do corpo do outro, eram dois corpos que viravam um só.
Quando o super-ego de um dos dois se deu conta de como que o desejo e a vontade de ter o outro era algo a ser censurado, o se afastar e buscar outro assunto foi a melhor maneira de resguardar os sentimentos.
– Será que terão fogos na festa de São Sebastião? – ainda desconcertada a menina trocou o trêm de linha.
– Ah… é… fogo? Acho que… É! É! Não, não, vai ter sim! Rispa Taca Goela com certeza irá arrumar alguma comemoração bonita! Ele comprou alguns tipos diferenes de fogos com um daqueles ciganos que estiveram aqui mês passado. Rispa nunca perde uma festa, e nunca deixa de fazer cada uma mais bonita que a outra.
– Rispa é um louco! Dizem que ele buscava um tesouro quando era novo, e que após vinte anos procurando, ficou maluco e sumiu por quase quatro meses. – afirmou de uma maneira que parecia julgar de forma pejorativa as ideias do grande Rispa, e continuou:
– Ele voltou pra cá, e começou a explodir tudo! Não conseguiu parar de usar explosivos, adquiriu o hábito com a loucura de achar um tesouro.
Como se defendesse a ideia de ir atrás de tesouros, Eulálio completou a estória com uma voz desdenhosa:
– E aí nosso velho Quinhão o curou dando fogos de artífício, e desde então Rispa sai por aí soltando fogos? Acredita mesmo nisso? Não acredito em quase nada do que falam por aqui!
A menina retrucou de uma maneira que colocou certo de que não mudaria de opinião:
– Pra mim Rispa é e sempre foi um doidivanas, um biruta! Desde quando se procura tesouro nessas terras com solo alagado? Chegaram até aqui procurando ouro, não acharam e, ainda bem, que alguns ficaram aqui! Não há nada melhor no mundo do que as coisas que podemos ter aqui! É calmo, tranquilo…
– Ah, eu tenho vontade é de procurar tesouros! Sair daqui e ir descobrindo outras terras! Tudo que isso aqui pode ser começa ali e acaba ali! – falou com um brilho no olho e apontando para uma extremidade do povoado e depois para a outra.
– Eulálio, você tem vontade de sair daqui? – olhando para o rapaz com os olhos e a expressão de um cão indefeso
– Sim, Úrsula! Quero ir além daqui!
– Ah Eulálio, não quero que vá pra longe… – e exatamente depois do momento que falou a frase, Úrsula se deu conta de que havia dito mais do que poderia. Congelou e arregalou os olhos.
O rapaz olhou para a menina, sorriu de maneira escondida, de boca fechada, e disse:
– Por que quer minha presença perto de você?
A menina ainda sem saber o que falar, foi gaguejando:
-Nã.. Não, nã… não é isso! É porque tem toda sua família!
-Minha mãe, Tomás e Quinhão? Não tenho muitas coisas que me prendem aqui, talvez quatro apenas…
– Quatro? Quem mais? – disse a menina com a boca ou com o coração, que havia se ocupado de dominar a cavidade bucal, e não se sabe bem se foram as cordas vocais ou se as batidas viraram frequência e dali saiu uma voz.
– Oras… não gostaria de ficar longe de você, também… – e foi courando de leve as bochechas. Se houvesse por ali algum buraco, provavelmente teria enfiado sua grande cabecinha testuda. Mas cortando aquele sentimento que parecia errado, colocou rapidamente:
-Somos quase que irmãos… não é? Sentiria falta de você…

A menina não conseguia esconder a tristeza por ter chegado tão longe no caminho de mostrar seus sentimentos e poder ir pra um lugar tão longe onde só os dois tinham importãncia, onde só os dois existiam, e segundos depois voltar ao mundo em que aquele sentimento era errado, era como se amasse de forma carnal o irmão.
Pouco após terem saído do transe, mas de forma que o campo de força daquele sentimento ainda fizesse forte ação nos comportamentos, Úrsula foi chegando para o lado e acabou esbarrando no balde de leite. E assim todo o conteúdo daquele recipiente de metal se espalhou pela mesa, e foi escorrendo em direção aos bancos, e após atingirem a surpefície destes, continuou seu rumo caindo no chão. De certa forma, o leite havia sido derramado, tanto literalmente, quanto na história dos dois, que dali em diante rumaria a um triste fim. Nunca saberiam que o que estava por começar, seria da forma como será no final da história.

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