Ô chinelinho escroto!

A Infância tem uns parangolé mágico. Tem umas coisas que ficam marcadas na sua memória, umas coisas tão aleatórias. E ainda na linha da infãncia mágica, porr.. como que não tem uns lances muito mongoloides que acontecem.

Eu me lembro de um belo dia, no colégio. Sempre cultivei uma capacidade absurda de estar ausente presente, olhando pra qualquer coisa e viajando na minha cabeça.
E nesse bonito dia, me lembro de ficar olhando a sombra da cortina e assistindo o sol caminhar e caminhar chegando cada vez mais perto da fresta da porcelana quadrada com outra porcelana quadrada. Era assim que eu passava minhas manhãs no colégio: buscando qualquer coisa pra ficar olhando, viajando na minha cabeça, até a hora do recreio, que eu ganhava vida após comer uma coxinha de catupiri gordurosa, oleosa e deliciosa.
No belo dia já citado, me lembro de navegar em pensamentos e esperar a marca de nove horas, nove e vinte, que era mais ou menos o horário em que o sol encostava naquela fresta escolhida por mim como a padrão pra observar a sombra. Nesse dia, minha visão foi ofuscada por alguns pés. Pés femininos. Olhando pra cima, minha professora. “você tá muito disperso, vou te colocar lá na primeira carteira!”. Meus pensamentos cruzavam entre ouvir o que a professora falava, e as vozes na minha cabeça que gritavam “pooooorrr que mer*a de chinelinho escroto é esse?”.
Nunca fui muito fã de mulher usar rasteirinha. Nunca! Mas vai! Só que aquilo lá, era pior do que aqueles chinelinhos de paraíba feito com lona ou com sobra de pneu de caminhão (tanto faz de que é feito, sei que é feio bagaray). Aquele pisante da senhora professora era uma mistura de sandália com um bambuzal. Cria de uma sola feia com um coro velho.
Meus olhos precisavam ver aquela coisa feia de novo. Era tão ruim, e tão feio, que não tinha como não ficar olhando. Era uma espécie de sado masoquismo, algo como se trancar no carro e peidar dentro. algo horrível ruim e podre, mas que ia alimentando algo dentro de mim. Os pés da professora não eram pequenos. Meus pensamentos gritavam “Chinelinho escroto”, “Xena, mó sandalinha da Xena!”, “Xena a guerreira da manhã do sbt!”.
Aquele chinelo, deveria ser chamado de chinela, uma espécie de afronta. Uma sola feia cor bege, e com umas tiras que lembravam uns bambus…. tiras de CAMURÇA. Sabe quando você sabe que tem algo de errado no mundo? Ali entendi a fome e a miséria! Se aquilo era possível, acreditava no resto! Me perguntava se não haveria um ser que falasse pra professora que aquela chinela chilena chulé ca, era feia pacarai. Não, ninguém fazia. E acredito que mais pessoas podem ter comprado aquilo, e achado legal!
Não, gente. Isso e mocassim são feios. Pode usar, mas tenha a certeza de que você está feio.
Ver os dedos da pessoa dando aquela acomodada na tira, dando aquela esticada que faz a parte antes da ponta dos dedos encostar no solado, nossa… todos aqueles movimentos iam em slowmotion e davam replay instantâneo na minha cabeça: ô cena escrota.
Aqueles cabelinhos pequenos no pé.
Se rolasse uma trilha pro momento, qualquer forró rasta pé e um “ha ha ha ha ha mas eu tô rindo a toa” e o “xote da alegria” seria tão propício!
Por que nordeste me lembra de pé? Não sei é só o forró ou se é o pé sujo de barro, que talvez seja do forró! Ah sei lá, segundo os filmes 90% do nordeste não sabe o que é sapato e tênis.
Que chinelo escroto! Se meus sonhos se realizassem se eu só precisasse usar aquele chinelo por um dia, iria viver sem a perspectiva de realizar qualquer coisa!
“Raphael, tô vendo que te colocar aqui na frente não ajudou, ne?”
Não, claro que não, agora eu vejo o sol chegando, vejo seu pé suando, e minha cabeça fritando!

Hora do recreio – comer – acordar – conversar – parar de viajar

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