Tempo de Quaresma. Oi ???

Tudo nessa vida tem um tempo certo de acontecer. E eu não estou sendo “pré-determinista”, fatalista ou mesmo calvinista ao dizer isso.¹ De fato, podemos perceber os sinais dos tempos no cotidiano, na rotina. A liturgia do culto cristão prevê isso e estabelece um calendário a partir de eventos fundantes da fé e da história da igreja. Entre todos, estamos, de acordo com este calendário, no período conhecido como Quaresma. Dia desses, citei (como teólogo que sou e por isso mesmo, sempre falando dos mesmos temas) este fato entre amigos e uma das presentes se assustou com o nome, anunciando sua ignorância (no sentido de desconhecimento) sobre o significado do mesmo.

Pensando nisso e numa tentativa de aproximação da tal “Quaresma” com um pouco de realidade, este teólogo que vos fala e é bom lembrar ou ser lembrado disso, de vez em quando, “pra não dizer que não falou das flores”, resolveu divagar um pouco sobre estas questões.

Segundo o calendário cristão, a Quaresma é o período litúrgico iniciado na quarta feiras de cinzas, no qual se enfatiza a importância da contrição, do arrependimento e da conversão. Isso, relacionado diretamente à tradição bíblica do arrependimento com cinzas e vestes de saco. (Livro de Jonas, capítulo 3. 5-6).  Essa tradição consiste em que uma pessoa arrependida de um pecado, rasga suas roupas e as troca por panos feitos de saco, como se fossem panos de chão e esfrega cinzas no corpo, em sinal da sua contrição e seu arrependimento sincero, com lágrimas e lamentos.

A espiritualidade desse período, relembra momentos de preparo na história bíblica e da vida de Jesus Cristo: os 40 dias de Jesus no deserto (Lc 4.1ss); Os 40 dias de Moisés no Sinai (Êx 34.28) e os 40 anos do povo de Deus no deserto (Êx 16.35). Dessa série de eventos ocorridos, simbolicamente em 40 dias ou 40 anos, a gente entendo o nome né ? “Quaresma” lembra um pouco o número quarenta, é ou não é ? Matemática não é meu forte, mas diz-se que entre a quarta feira de cinzas e a Páscoa, passando pelo Domingo de Ramos², temos justamente, 40 dias e por isso, o nome.

Mas o que interessa de fato é pensar nos temas da Quaresma e a prometida, lá em cima, relação desses temas todos com a nossa realidade. Retomando, os temas da quaresma são a preparação, o arrependimento e a contrição. São temas um tanto quanto fora de moda, mas urgentes. Em dias de tanta corrupção, tantos crimes e tanta violência, dentro e fora dos “arraiais do povo de Deus”, como seria bonito de ver os temas de arrependimento mais do que sendo ensinados, mas principalmente, vividos.

Talvez, se o Estado laico, experimentasse um pouco de panos de saco e cinza, São Paulo não estaria sem água e ao mesmo tempo, alagado sob enchentes como resultado das chuvas tão desejadas pelas represas. Talvez, nossos professores do Estado, cerca de 90 mil servidores que equivalem ao 40% do efetivo de professores, não estariam em greve. Talvez, não estaríamos assistindo a mais um escândalo monstruoso de corrupção no país e o pior: com a triste certeza de que não será o último.

Essas são só algumas notícias que não apenas lemos diariamente, mas em alguns casos, sabemos pela proximidade com as vítimas desse sistema. Sou a favor do Estado laico. Mas de fato, uns profetas nos moldes do Antigo Testamento fazem falta nessas horas pra dizer umas verdades para esses corruptos. Tá vendo? A Igreja não precisa ser uma Instituição em crise, se souber entender que ainda pode ocupar um papel fundamental nesse mundo ao invés de só se preocupar com o “outro”. (outro mundo). Aliás, a cor roxa que representa o período da Quaresma é uma mistura da cor viva, vermelha com a cor fria, azul representando exatamente essa tensão do “já” com o “ainda não”³.

Podemos sim, fazer uma quaresma pessoal e individual, de contrições, arrependimentos, jejuns, orações, caridade e mortificações. Mas uma “denunciazinha” profética, vez ou outra, ajuda a desopilar o fígado.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

¹(Calvinista – aquele que se vincula ou está em acordo com o pensamento de João Calvino, reformador famoso do século 16, acredita, de forma bem geral e simplista que para obter a salvação, o homem/mulher deve ser escolhido por Deus).

² Domingo de Ramos – domingo que antecede ao Domingo de Páscoa em que se comemora a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, montado num jumentinho, no começo da semana santa, em que ele foi ovacionado, segundo a tradição bíblica, pelo povo levantando ramos de árvores e o bendizendo como aquele que vinha em nome de Deus.

³ “Já” e “Ainda não”. – temas da escatologia cristã em que se tratam os eventos de revelação de Deus no presente (“já”) e os eventos futuros da salvação (“ainda não”).

 

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