Alguns motivos pra sair dos seus sapatos de couro com o interior macio e de veludo: A Redução de Danos e a Política Antidrogas

Por que você cidadão comum deve saber o que é política antidrogas e o que se configura como a estratégia para o cuidado à adictos em drogas?

O que é Redução de Danos?
É uma estratégia que teve seu início no atendimento em casos de DST ou HIV positivo, e parte de alguns pressupostos fora de um eixo moralista, ou teoricamente moralista, como por exemplo a distribuição de seringas descartáveis para usuários que injetam heroína. Dessa forma, o número de pessoas que se contaminam com doenças como hepatite, AIDS (SIDA) ou algumas outras que podem ser transmitidas pelo contato do sangue de uma pessoa contaminada com outra que não estava.
Já deve ter dado pra entender o motivo do “não moralista”, mas mesmo assim, vamos lá. Teoricamente o ato de buscar diminuir a incidência dessas doenças oferecendo instrumentos não infectados sai da noção de que para que não se tenham mais pessoas se contaminando através de agulhas seria simplesmente fazer com que não se drogassem mais.
Até aí ok! Mas e aí, é viável? Anos e anos de políticas antidrogas que não olharam por outro prisma mostraram que não, e que os índices de infecção pelo uso de drogas reduziu muito.
A partir desse panorama positivo, a R.D. foi pensada como possível prática no atendimento direto à adictos em drogas, e dessa forma, a ideia da abstinência foi considerada como um fator que já causaria uma prévia de falha ao tratamento.
Por quê? Assim, Jurandir, se liga, se você pautar condições ao seu trabalho, principalmente se for a abstinência de alguma droga, é muito provável (por experiências na prática e em números advindos) que o tratamento acabe sendo pautado nas recaídas e em uma grande dificuldade de bons resultados.
Até porque, pautar como necessário estar “limpo” durante o tratamento diminui muito a adesão por ser algo instituído como compulsório e não necessariamente o próprio paciente acreditar que deva não se drogar.
Pensar que o uso de drogas seja condicionado à histórias pregressas de traumas e famílias não muito bem organizadas, por falta de valores e ou de algo ligado ao “ser vagabundo” cria uma estigmatização, exclui e enquadra uma categoria que é considerada inferior aos que praticam (ou dizem que praticam) a abstinência.
Queria pautar algo interessante, mas se você toma café, você está se drogando, ou pelo menos usando uma substância que droga (três canecas daria a quantidade de cafeína que entraria em um viés de dosagem com poder suficiente para estar te drogando). Mas ok, se você não bebe café, te direi que ao tomar um relaxante muscular ou algo pra diminuir sua dor de cabeça, você está usando uma droga! ABSTENHA-SE! E pare de tomar remédios para cólica e etc.
O que venha a querer com isso? Dizer que o fato de se drogar não reflete uma subcondição ou uma história inferiorizada, nada disso…. as pessoas podem se drogar pelos mais diversos fatores, e em alguns casos de forma recreativa ou não.
Você deve estar pensando “é um maconheirinho escrevendo isso”! Te digo que não, aqui está um cara do rock que nunca usou maconha! Por quê? Porque nunca quis! Sou contra o seu uso, apesar de não ser contra sua legalização. Mas ok, eu bebo, e assim como quase todos no carnaval: lá está a droga!
A droga você escolhe, certo? Para se viciar vai da quantidade e do impacto de cada droga.
Marx propôs algo bem agudo e afiado: a religião como ópio do povo.
Oras, seriamos nos viciados e tão adictos a nossas crenças sobre transcendência, seres superiores, expectativas e outras coisas ligadas a uma ideia de metafísica?
De todo, diria que o que vem sendo usado desde 2003 por práticas do SUS (Sistema Único de Saúde) e SUAS (Sistema Único de Assistência Social) é a R.D. e ainda acrescento…. tem os melhores índices de adesão e melhores resultados.
Como funciona? A abstinência não entra como compromisso, ela é trazida como alguma possibilidade com a condução do tratamento psicológico. Ou seja, se o tratamento for “rolando” e for algo a ser considerado, então é visto se há como a pessoa não usar, se ela quiser.
O mais importante não é saber sobre a droga ou dizer para não usá-la, mas saber se ela está enfraquecendo algum ponto da vida daquela pessoa, ou seja, se há um enfraquecimento em algum meandro relacional, se há perda de autonomia, de saúde e qualidade de vida.
O papel do agente da saúde e do Ministério em suas instituições responsáveis é a de promover saúde, e não necessariamente falando em fazer parar o uso de drogas, mas sim pela ideia de autonomia, empoderamento pessoal e buscar ouvir e dialogar, saber o que incomoda alguém.
Você já deve ter passado por momentos sem grana, mas que tinham outras coisas que ocupavam sua cabeça, e por mais que para todos seu problema com dinheiro fosse o Master, na verdade não era.
Supor, vir de antemão acreditando no que são os problemas do outro é excluir, é levar a uma ideia de superioridade com relação ao outro.
Por isso convoco: saiam de seus belos sapatos de couro, com aquele interior macio de veludo e saiam das ideias de supostos valores ou ideias moralistas que dizem que há pessoas melhores que outras. Há ações e de resto, somos todos (Charlie? não!) pessoas completamente diferentes, no entanto nem uma nem outra melhor ou pior.

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