Nossa eterna necessidade messiânica.

Constantemente estamos no Brasil lendo, assistindo ou pelo menos, ouvindo falar sobre escândalos políticos deste ou daquele partido.  Após o processo de “redemocratização” do Estado brasileiro, na primeira eleição “meio direta” enveredamos por esse caminho: Tancredo Neves foi o herói nacional que virou santo sem ser canonizado pelo simples fato de que morreu antes de tomar posse.

Provavelmente, boa parte da culpa pelo fracasso do governo Sarney, suas crises econômicas, congelamentos e índices galopantes de inflação se deve ou, pelo menos é atribuído ao fato de que ele assumiu por ser vice do messias morto e isso trouxe maus auspícios. Pra se ter uma ideia do que significava a inflação nesse período, os humoristas brasileiros faziam piadas: “Consegui comprar esse pacote de macarrão agora de tarde pelo preço de hoje de manhã!”

Na eleição seguinte, de fato, direta, o Brasil escolheu um messias diferente: ao contrário de Tancredo, o novo presidente era jovem! O mais jovem presidente eleito na história do país: 40 anos. Cheio de saúde e disposição: podia-se vê-lo andando de jet-ski  nas praias. Tinha um discurso conivente com a imagem messiânica construída ao seu redor: Acabar com a inflação e caçar os marajás! E ainda era bonitão! E não foram poucas as pessoas que afirmaram ter votado nele, especialmente por este atributo: sua beleza!

Logo no início do governo, foi lançado o famigerado “Plano Collor”. Convido você a um minuto de silêncio nesse momento […]. As medidas econômicas do governo do bonitão foram recebidas imediatamente com antipatia pela população. Confisco de poupanças e cortes nas aposentadorias. Ou seja, o príncipe se transformou em lobo mau e junto a isso, escândalos envolvendo os gastos de sua campanha e acusações sobre o tesoureiro dela além do fato dessas acusações serem levantadas pelo seu próprio irmão. Estas, somadas a acusações de que ele teria se evolvido em rituais de magia negra para ser eleito e depois de eleito, nos porões de sua casa em Brasília, a famosa “Casa da Dinda”, para se manter no poder.

Resultado: o primeiro presidente pelo voto popular depois de 21 anos de ditadura militar, se afastou do cargo, sofreu um processo de impeachment e renunciou ao cargo, esperando aplacar a ira de seus opositores. Não aplacou. Sofre o processo e foram caçados seus direitos políticos por 8 anos.

Assumiu, de novo, o vice. Outro vice. Nesse período surgiu um ministro da fazenda, sociólogo de fundamentos neoliberais que foi considerado o novo salvador da pátria ao criar um plano econômico e lançar uma moeda forte, equiparada ao dólar e que trouxe um pouco de refrigério ao bolso do povo. O óbvio aconteceu: foi eleito presidente nas eleições seguintes, com ares de novo “messias”e privatizou algumas estatais e serviços.  Outra medida relevante de seu governo foi garantir, em causa própria, o direito à reeleição.

Imediatamente após 8 anos de seus dois respectivos mandatos, o povo elegeu o nordestino, metalúrgico, tipo como figura do povo, visto como, este sim, o “messias” definitivo. Herói que iria pensar nas camadas mais pobres da população e fazer toda diferença, governo de esquerda. Se reelegeu e elegeu também, por duas vezes, sua sucessora. Sinal de que fez, de fato, um governo que agradou. Perfeito ? Impossível. Como é impossível também que a sucessão deste ou mesmo os próximos que venham a ser eleitos no futuro, o sejam enquanto continuarmos procurando por “messias” e salvadores da pátria.

Se nosso povo votasse com um pouco menos de romantismo messiânico, fanatismo religioso e paixão que assemelham as escolhas político partidárias às escolhas por times de futebol para torcer, talvez não transferíssemos toda a responsabilidade ética e cidadã para os governantes. O que nos falta não são candidatos, opções ou esperanças. O que nos falta é conscientização política de que, os governantes, bons, maus, responsáveis, levianos, honestos, sérios ou não, que estão ocupando cargos neste momento, ali estão por representatividade. Eles nos representam mas a responsabilidade é nossa como povo. O exigir é direito nosso. O cobrar também. O participar nos processos é fundamental. E tudo isso, em cada esfera: municipal, estadual, federal.

De fato, precisamos compreender de uma vez por todas, que na política, não existem “messias”. E se entendermos nosso papel num estado democrático de direito, vamos perceber que não precisamos deles.

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