Política das pequenas coisas

Talvez o momento seja oportuno para falarmos e pensarmos sobre o nosso futuro.
Nós, brasileiros, passamos por um momento sofrível, não só na questão da crise econômica, mas em algo mais ainda importante: a crença política.

Passamos por muitas dificuldades em nossas rotinas, somos obrigados a tolerar muitas coisas que não deveríamos.
Sabemos de como que o mérito não se consolida como algo fundamental, e que não é questão de dedicação e trabalho duro apenas. Trabalhar o dia inteiro quebrando pedras é um trabalho duríssimo, mas não te traz uma vida com um potencial de aquisição ou de oportunidade de ter espaço para que sua voz seja ouvida.
Carecemos de espaços que nos deixem falar. Essa é a grande questão. Mas toleramos isso. Mesmo que guerreamos, mesmo que muito seja feito e não seja jogado para debaixo do tapete.

Tolerávamos algumas coisas por uma só questão: esperança.
Criamos expectativas de modificações e de uma democracia que trouxesse melhor distribuição a essa multiplicidade todo que constitui esse país. Repousamos nas diretas já, nas tantas manifestações contra a ditadura, no pouco a pouco em que tirávamos aquela armadura de chumbo pesadíssima criada pelos militares que interviram e simplesmente não saíram do poder. Pouco depois, toleramos a inflação, até porque o Sarney entrou, mas deveria ser o Tancredo, e aí nas mãos de mais um que lidera para poucos, seria difícil mudar.

Mas não ficamos desiludidos, mantivemos as esperanças no próximo presidente, aquele que iria de fato ser o eleito pelo povo.
Debates editados de forma a comprometer e muito a opinião pública por parte da Rede Globo, que tanto foi fiel à ditadura, e logo após já se via moldando uma forma que fosse melhor, a da democracia. Ajudaram a colocar quem era mais interessante. Collor veio, roubou quase que como os tantos “pivetes” aí que trazem discursos de remanescentes do pensamento do antigo regime ditatorial “bandido bom é bandido morto”. Mas nesse caso, sendo o presidente, ele merece ser removido de seu lugar como presidente, mas cerca de 10 anos depois já estar se elegendo para alguma coisa nas Alagoas.

Mas toleramos! Fomos até as ruas, e pedimos o seu impedimento! Não mais poderia governar.
Esse foi o primeiro voto de confiança, trocado vindo como retribuição mais dificuldades de se viver e ser brasileiro.

Mas tudo bem, vamos ver como Itamar irá conduzir o país! Mais um vice que assume. Quanta história para o começo dessa república federalista presidencialista, democrática.

Vamos confiar no grande cientista social FHC, e deixar que seu plano de nova moeda acabe com a inflação.
Deu certo! E ficamos animados, mas em pouco tempo os grandes apertos no bolso dos cidadãos e as grandes taxas de desemprego fizeram a popularidade do segundo Fernando presidente.
E foi assim, com um final de governo regado à privatizações um tanto quanto obscuras e a preços aquém do que deveria ser, perdemos algumas empresas.

Mas ok! Confiamos! Seguimos.

E veio Lula, e acreditamos que finalmente seria o grande presidente que mudaria o país. Ajudou muito, trouxe muitas aplicações interessantes, ajudou a tirar o país da total miséria, mas nem perto do que precisamos.
Aliou-se a partidos parasitários, se envolveram em escândalos de corrupção, além de terem tido apenas sorte por um panorama economico favorável para o país.

Veio Dilma e passamos a ser governados por uma pessoa extremamente não carismática. Estranha. Mas ok, se as coisas ficassem bem.

Após todos os escândalos e rumando ao esquema das empreiteiras com a Petrobras, ficamos sabendo que a corrupção é endêmica, e está na essência do brasileiro, e ainda mais dentro da esfera política. Não se governa hoje aqui sem que se tenha que ser corrupto. Isso é horrível,

De 2013 pra cá, estamos sem muitas esperanças, pensando em maneiras de mudar isso, mas ficando presos a tantas coisas que são ditas, e a cada dia mais picaretices. Fomos as ruas querendo que não seja algo corrupto assim, algo tão descarado e praticamente uma norma dentro da esfera política.
Não são os candidatos e os partidos que votamos que irão mudar algo, não mesmo! Entraram e só governarão se corrompendo pela necessidade de que se faça isso para fazer com que as coisas andem. Além disso, se sabe que as vezes entram já querendo mesmo que sejam corrompidos.

Vejo que apenas as pequenas coisas podem salvar o que existe hoje aqui.
Não há reformar políticas que mudem isso. Somente a total dissolução de tudo que há, e isso parece ser algo totalmente utópico e que abre extrema fragilidade em tal processo.
Não há de se repetir antigos erros e pensar que deva haver uma volta de governos totalitários.
Há de se pensar na política das pequenas coisas.

Vamos mudar as coisas, e a única maneira é buscarmos mais ética no dia a dia de nós que não fomos votados para representar ninguém, ou até mesmo no um ou dois políticos que queiram ser éticos.
Somente mudamos algo quando paramos de pensar que não há problema de levarmos vantagens em nosso microuniverso, nesse foco microrrelacional.
Se represento alguma profissão devo ser fiel às suas éticas. Se trabalho em uma empresa não devo rouba-la pegando canetas ou outros objetos. Se estou no colégio não colo, e se sou professor não para de dar aula e largo de mão a turma levada deixando um déficit no aprendizado daqueles seres. Se estou presente em uma hierarquia militar, que eu não descarregue em subalternos porque meus superiores descarregam em mim. Se tenho uma casa, devo pagar as contas e não devo faze desvios de sinais ou de energia elétrico.
Se sou crente a uma religião, que eu respeite a pluralidade de crenças, e não veja que minhas convicções sejam únicas.
Não vamos parar em locais proibidos. Não vamos sair da lanchonete cheia sem pagar. Não vamos pegar o dinheiro da carteira que achamos. Não vamos parar o carro no meio da rua e ignorar o trânsito e a infração das normas de trânsito.
A única solução para a corrupção em âmbito macro, é a resistência em âmbito micro.
Não posso banalizar e acabar fazendo o mesmo.
Levemos em conta a política das pequenas coisas, e se passar por sua cabeça que isso não modifica, deveria pensar que no mínimo pode modificar já a sua maneira de levar a vida. Se nisso já mudar algo e trouxer uma maneira de viver mais ética, então já estará sendo um efeito. Que isso siga com o meu e o seu filho, e que isso vá se ramificando e crescendo como uma árvore, que já foi semente, foi bem pequena e foi aos poucos se transformando em uma árvore.
A próprio corrupção na política como estamos vendo hoje, foi um dia apenas uma pequena semente, e que foi aos poucos crescendo a partir das pequenas corrupções no dia a dia. Virou uma grande e maciça árvore. Não iremos cortá-la, mas podemos plantar outra árvore ao lado e fazer com que essa sugue os nutrientes da terra e faça com que a outra enfraqueça.
Lutamos cada dia e a cada dia depois por uma melhor forma de política, mas essa melhoria só trará resultados se for construída ao lado daquela que é corrompida.
Vamos ser políticos todos os dias e éticos, fazendo crescer essa bela árvore da política das pequenas coisas. Seria utópico se não fosse plausível!

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