Diário do dia a dia III

III.
“assim como pequenos turbilhões, micro turbilhões, se arrastando de forma caótica no assoalho oceânico, indo em fluxo aonde a correnteza arrasta. Era assim que seu olhos se arrastavam de um lado para outro, quando achava necessidade de se desvencilhar de algum objeto ou criatura, até mesmo alguma pintura qualquer, que, antes, suas “janelas” da alma mirava. Misturava ternura e raiva, suavidade e agressão, uma dicotomia tão misteriosa, mas tão descarada, que somente a paixão do branco tocado com a pintura maquiada em preto poderia explicar.
Carregava um daqueles elementos que normalmente são os componentes que acabam com qualquer um. Uma espécie de venenosa vontade de ser pego pela armadilha de urso, pelo simples prazer do prazer e da aventura.
‘nunca desafie’, sempre avisara o sábio, e todos aqueles que já haviam caído na canção das sereias e sobrevivido por sorte qualquer.
Não, não senti amor, nem afeto, nem a vontade de estar mais próximo. Senti um eterno e apimentado realizar em notar tamanho paradoxo. Saber de forma tão sutil uma de suas maiores técnica de ataque e defesa. Em um olhar notei que era rosa que perfuma, e também aquela que corta em seus pontiagudos espinhos.
Aproveitei-me da imagem de seus olhos que como pequenos escaravelhos reunidos em pequenos bandos iam em uma linha reta com pequenos enovelamentos rabiscando de um lado ao outro. Senti toda a ternura e a malícia, todo néctar e veneno que seu olhar passava. Degustei daquela deliciosa, perigosa e suave cena, assim como um homem degusta um trago de um belo charuto fedido de chocolate. Aquele tom nostálgico e confuso, cáotico de definições de um café com leite, que mistura o amargo, o forte e a delicadeza e as notas aveludadas em lá de lácteo.
Deliciei-me com aquela figura pelos poucos segundos que tive como e que quis, tendo a clareza de que era apenas aquilo, assim como o pescador de programas de TV, que apenas mostra o peixe e o aprecie, e por seguinte, deixando que o animal volte à água.
Era apenas um entretenimento, e eu um entretido no ver e no simular em minha cabeça as tantas formas que aquele olhar me intrigava. Intrigar, talvez seja aí o que trouxe o “cheiro” do prazer em observar.
Mal sabia aquela menina que em poucos segundos eu havia capturado dela aquilo que ela menos queria. Mal sabia ela que em alguns segundos senti o agridoce de seu ser, intercalado e misturado em extremos sentimentos, ideias e gostos.
Dela extraí uma doce lembrança, aquela que ela pouco viu, pouco sabe, e que se soubesse que mostra tanto do que ela é, provavelmente não seria tão belo e intrigante como fora.

Anúncios