Dolce far niente

Finalmente terminei de escrever a dissertação de mestrado! Depois de 2 anos de pesquisa, disciplinas obrigatórias, seminários internos, congressos, publicações, artigos, e, pra quem me conhece, MUITA ansiedade, as únicas coisas que não foram intensas nesse período da minha vida foram horas de sono. Essas, definitivamente foram poucas. Qualquer dia paro pra dar mais detalhes sobre tudo que ganhei nesse período. Hoje a proposta é diferente.

Passei o mês de dezembro e boa parte de janeiro escrevendo o último capítulo dessa dissertação e corrigindo, relendo, revendo, reescrevendo trechos dos capítulos anteriores e do todo da dissertação. Praticamente não tive férias e terminei o trabalho com uma sensação excelente de dever cumprido. Mas logo essa sensação deu lugar a um outro sentimento. Sentimento que me acompanhou ao longo desses dois anos: culpa! Culpa por não estar fazendo nada. Culpa por estar parado quando poderia estar aproveitando o tempo para ler alguma coisa ou para começar a escrever um projeto para o doutorado ou qualquer outra coisa. A gente não sabe ficar à toa. Nesse mundo que não para, nesse estado de SP em que ninguém sabe andar devagar, sentir-se parado ou minimamente inútil é um crime.

A gente se desacostuma com o que nosso título diz, esse dolce far niente, do italiano: Doce fazer nada! A doce sensação de curtir o ócio. E olha, que muita gente descobriu coisas incríveis, achou respostas pra perguntas existenciais, soluções de problemas e fórmulas de física e/ou química em momentos de ócio. No ócio se descobrem vocações artísticas incríveis. No período da aposentadoria, homens e mulheres deixam renascer vocações artísticas e criatividades adormecidas pelas obrigações do trabalho, de ganhar a vida.

Rubem Alves disse que “A profissão é, frequentemente, o túmulo dos artistas”. Porque justamente para crescer profissionalmente a gente deixa a criança dentro de nós morrer um pouco a cada dia e perde parte do encantamento, do lúdico da vida. O mesmo Rubem Alves conta que, muitas vezes dando palestras para grupos de pessoas de idade, toda uma plateia de cabelos brancos, ao falar sobre o privilégio de ser inútil, causava desconforto entre os interlocutores, porque ninguém quer deixar de produzir, né? (Num país em que a gente nem sabe se vai aposentar…mas esse é assunto pra outro dia também!). Depois do burburinho da plateia terminar, ele explicava: Um poema de Drumond é completamente inútil, não serve pra nada. Em compensação, um rolo de papel higiênico é muito útil. O que seria melhor? A partir daí, ele arrancava sorrisos de todas aquelas pessoas de cabelos brancos ali presentes.

A maior crise de idade que temos é a desvalorização daqueles que são considerados velhos para o mercado de trabalho. Mas e daí? E as vantagens de voltar aos primeiros amores das vocações da juventude quando produzir não é necessariamente uma obrigação? Independente de idade, mesmo quando estamos no auge da nossa “produtividade”, deveríamos aprender a parar e redescobrir o valor precioso de ser inútil, do ócio e quão doce pode ser não fazer nada.

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