Saí da Universidade e descobri “Psicologias”

Após anos me enrolando, ou na verdade, me desenrolando, passando por três cursos e 4 faculdades diferente, me formei aos 25 anos (perto dos 26).
A vontade de fazer Psicologia, assim como nos outros cursos, sempre foi a de me enfronhar no viés acadêmico, ou seja, nessa atuação como Professor de graduação e pesquisador.
O que fazer com esse curso aí que terminei?
O que é atendimento psicológico? O que alugar um consultório?
Enfrentei algumas questões e situações que, na verdade, ainda me encontro incluso e em processo.
Coisas que nunca pensei e que hoje fazem todo e completo sentido.
Como ser um profissional dessa área em uma cidade com 400 mil habitantes com duas faculdade com o curso de Psicologia, formando cerca de 30 a 40 profissionais por ano?
Difícil!
Mas a meta do ir para o mestrado pra em qualquer hora eu conseguir formular minhas “tiurias”, compartilhar conhecimento que tenha conseguido absorver, e colher conhecimento no contato com os alunos, essa bonita meta está aí de pé.
Nesse processo estranho, nesse remover as cobertas puxando em um dia frio, tirar o band aid de vez sem pensar nos cabelinhos grudados… esse momento “sem cadeira” para poder se acomodar, rápido, novo, súbito, eletrizante… tudo tem sido um pouco dolorido. Mas confesso que essa “dor” tem me feito desfragmentar ideias, absorver perspectivas novas e não ficar em uma zona tão de conforto.
O que descobri ao sair da faculdade?
Algo chamado paradigma ético político da Psicologia.
Traduz pra mim – e eu diria para eu mesmo que fiz a pergunta – Claro!
Que raios de proposta seria essa, o que significa ser Psicólogo a partir dessa perspectiva?

Vamos pensar na contraposição de paradigmas para explicar melhor.

Paradigma técnico-científico X Paradigma ético-político

A ideia técnica e científica englobo o aspecto trazido pelo empirismo e positivismo, pelas tentativas de coletas de resultados sob uma neutralidade do pesquisador. Os fatos falam. Seria algo como o que você formula de teoria deve ser submetido a uma comprovação em campo, ou seja, testada na “vida real”.
Esse princípio está ligado diretamente a forma de pesquisa científica, realizada em um viés extraordinário dentro das ciências exatas, ciências naturais. O que isso significa? Que há uma teoria que encontra suporte nos fatos encontrados do trabalho daquele que pesquisa em campo.
A Física se consolida como uma disciplina que suporta esse tipo de encaminhamento de métodos e de metodologia. Algo que acontece em todos os locais da Terra (talvez do universo ou do que é possível mensurar deste), que segue uma lógica tão forte e com argumentos tão fortes, se consolida como uma teoria universal, que consegue ser elemento legislatório. São as leis, aquelas que são aplicadas em qualquer contexto e são obtidas as mesmas respostas. As condições sendo as mesmas, serão os mesmos números e dados coletados.
Por exemplo, em qualquer lugar do mundo se você se jogar de um prédio você irá se espatifar feito um tomate ao encontrar o chão. Isso não muda, apenas varia de acordo com a altitude, com o vento, com a umidade. Ou seja, há apenas aspectos marginais que influem nos resultados.
Por que falar da Física?
As disciplinas clássicas surgem todas de uma: a Filosofia.
A Filosofia trabalhava com a busca de respostas (leigo na área, apenas para podermos compreender as origens) dos fenômenos e aspectos dos homens, do mundo, do cosmos, da origem de tudo e assim vai.
Em seu princípio a Filosofia dava conta de números, de escritos, de mapas e de qualquer forma usada para explicar tais fenômenos.
Em certo momento a Filosofia traz duas modalidades: o quadrivium (geometria, aritmética, astronomia e música) e o trivium (gramática, retórica e dialética). Nesse ponto já é possível notar uma certa divisão em dois blocos de interesse.
Ok! Fui muito longe já! – entendo –
Daí em diante o que aconteceu foi uma ruptura que guiou dois tipos de ciência: as humanas e as exatas.
Mas mesmo que a Psicologia estivesse dentro de um viés da humana, muitas tentativas de explicação total do funcionamento da psiqué humana foi buscado a partir do viés da ciência empírica e de comprovamento empírico.
Isso se deve ao fato da Psicologia ter sempre buscado “imitar” e seguir os passos da Física.
Por que isso? Influenciados pelos valores dos ideias de Descartes, Comte e outros, a Psicologia precisava de um modelo em que as teorias viravam leis, o que satisfaria o zeitgest (ideias aceitas em certo momento e contexto) de fazer com que os elementos de estudo do comportamento humano e do funcionamento psicológico fossem explicados através de fatos, de coisas que fossem possíveis de estabelecer como maneiras de explicar que desse conta de todas as situações e de todas as pessoas. Ou seja, uma ideia de um “se jogar do prédio e se esborrachar” na Psicologia = algo que aconteceria em qualquer lugar, que fosse uma teoria completa, algo universal, dando conta de responder o motivo de se comportar e pensar de certa forma.
Tivemos a Psicanálise, o Behaviorismo, o Cognitivismo, os laboratórios estruturalistas e tantas outras que tentaram mostrar a Psicologia como ciência, com teorias e leis gerais.
Não rolou, né? Dão suporte para certos contextos, certas atividades em consultório, alguns experimentos, instrumentos como testes. Mas o que é interessante colocar: em contextos específicos.
Alguns elementos do funcionamento biológico são comprobatórios de forma empírica científica, mas como alguém irá se comportar sob tal estímulo,,, isso não.
Porque isso pode ser algo complicado?
Buscar leis que falem por universalidades. Isso significa generalizar, englobar todos em uma mesma coisa.
Isso prejudica ao estigmatizar, buscar formas de reafirmar patologias, problemas, distúrbios de conduta, distúrbios psicológicos, e tantas outras coisas que podem soar como resultado de certos elementos (seja históricos, orgânicos, genéticos).
Falar que a homossexualidade é algo relacionado a um problema na fase do complexo de édipo ou na gestação, significa dizer que ser homossexual não é algo que estaria dentro da normalidade, e pior, indicar que isso seria proveniente de algum problema. Por que não pensar que um problema no complexo de édipo é o que ocorre com heterossexuais?
Excludentes e estigmatizadores.

Não colocando como que tudo o que se buscou, trouxe e traz de conhecimento a partir de um viés científico seja insignificante. Pelo contrário, foi fundamental. O importante é observar até que ponto as grandes tecnologias criadas para trazer melhorias e maior compreendimento sobre o mundo, podem trazer mais ignorância, ódio e excluir.

Paradigma ético-político (até estético também)
Essa forma de pensar estaria ligada a uma maneira de ver as ciências humanas como ciências humanas, e não passíveis de serem fechadas dentro do método científico apenas. Essa ideia do ético e político busca uma forma de se investigar dentro daquilo que pode ser buscado naquele contexto que se busca, e por quem busca. Ou seja, aquele que pesquisa não é neutro, ele percebe aquilo e sua presença já influi nas relações dentro da pesquisa. NO viés de atuação, pensar em não utilizar o método científico se pauta na ideia de não cairmos em generalidades de teorias e nos esquecermos das singularidades daquele que estamos lidando, falando e tendo contato. É não sentir que já se sabe o que é ou como é ter certa psicopatologia, certo sofrimento psíquico. É compreender as potencialidades de todos, a capacidade do ato criativo, de pararmos de pensar que o louco, que o rapaz com down e tanto mais não podem fazer o que fazemos, fazer melhor do que fazemos, ou que não tem nada a acrescentar em seu discurso e suas percepções. Não é da voz, eles já possuem essa voz, é apenas dar escuta. Nessa dimensão ética e política, o trabalho de atuação e de pesquisa é político, já que se engendra em ou manter as generalizações ou de não deixar que excluam por estas. É compreender o papel do atuar como profissional e o quanto isso traz impactos na vida de outrem.

A partir de minha saída da faculdade, ou pelo menos desde o último ano estudando na instituição, minha concepção sobre o que é Psicologia mudou de forma significativa. Não ignorando o que é pensar em psicologia como ciência e o que traz de importante, mas ter sempre em mente a importância do que significa ética e política dentro do que é ser psicólogo, em nosso dia a dia, não trazendo mais segregações e exclusões, mas trabalhando de forma a trazer autonomia, fortalecer os laços relacionais a partir da escuta, sem se colocar em um suposto lugar de sabedor do que o outro tem por já ter lido que quem fala sozinho e maluco e sobre da forma A e B, que toma remédio da forma C e que as coisas são sempre as mesmas. Não! Não são!

Diário do dia a dia X – O dia em que um cachorro encontrou a perna de um defunto: Petrópolis e seu cemitério municipal

X.

“O cemitério havia sido esquecido, quase que como a maioria do que ali acha final morada. Mármores trincados, tampas rachadas e flores despetaladas. Potes e vasos com água sendo visitados por pernilongos, mosquitos e qualquer pequena forma de vida que por ali pudesse buscar somente mais um suspiro e um gole de água pra viver mais um dia. Assim como a loba que cuidara do pequeno filhote de homem, naquele lugar deu-se aos cães o papel de governar tal terra. Tudo corria bem até que os cães encontram a falta do que comer e descobriram que eles mesmos poderiam se alimentar daquilo que cuidavam. E foi assim que se deram conta do poder e da fonte de vida que tinham cuidado de toda aquela população de pessoas não-pessoas. Muitos se espantaram quando se deram conta de que naquele local o maior perigo não era nem mesmo o dos fantasma que se levantam quando ninguém vê, ou apenas quando se está de costas. O maior medo e perigo foi quando encontraram um cachorro comendo um pedaço de perna. De imediato qualquer um que ali morava se deu conta de que aquilo poderia ser algo de qualquer familiar seu. ‘Morte aos cachorros’, ‘morte a quem deixou aquela situação horrível’, e assim seguiram os hinos mórbidos da vida cantando de forma fúnebre a justiça. Talvez o que mais espante não seja apenas a cena bizarra e grotesca, quase que medieval, interiorana e rural, mas o sentimento de que o que de fato estava morto ou quase morrendo era aquele propósito de sociedade que diz se resolver e resolver seus problemas. Assim como os cães que descobriram seu apetite por carne, e foram consumar seus impulsos, descobrem os homens incumbidos do poder de curatela e de cuidado dos outros, aqueles outros que praticamente vivem suas vidas como viverão assim que ultrapassarem o limiar entre o existir e o não mais constar como número para repasses e desvios, apenas números do que já foi: em data seguida de estrela seu nascimento; em data seguida de cruz, sua morte.”

Diário do dia a dia III

III.
“assim como pequenos turbilhões, micro turbilhões, se arrastando de forma caótica no assoalho oceânico, indo em fluxo aonde a correnteza arrasta. Era assim que seu olhos se arrastavam de um lado para outro, quando achava necessidade de se desvencilhar de algum objeto ou criatura, até mesmo alguma pintura qualquer, que, antes, suas “janelas” da alma mirava. Misturava ternura e raiva, suavidade e agressão, uma dicotomia tão misteriosa, mas tão descarada, que somente a paixão do branco tocado com a pintura maquiada em preto poderia explicar.
Carregava um daqueles elementos que normalmente são os componentes que acabam com qualquer um. Uma espécie de venenosa vontade de ser pego pela armadilha de urso, pelo simples prazer do prazer e da aventura.
‘nunca desafie’, sempre avisara o sábio, e todos aqueles que já haviam caído na canção das sereias e sobrevivido por sorte qualquer.
Não, não senti amor, nem afeto, nem a vontade de estar mais próximo. Senti um eterno e apimentado realizar em notar tamanho paradoxo. Saber de forma tão sutil uma de suas maiores técnica de ataque e defesa. Em um olhar notei que era rosa que perfuma, e também aquela que corta em seus pontiagudos espinhos.
Aproveitei-me da imagem de seus olhos que como pequenos escaravelhos reunidos em pequenos bandos iam em uma linha reta com pequenos enovelamentos rabiscando de um lado ao outro. Senti toda a ternura e a malícia, todo néctar e veneno que seu olhar passava. Degustei daquela deliciosa, perigosa e suave cena, assim como um homem degusta um trago de um belo charuto fedido de chocolate. Aquele tom nostálgico e confuso, cáotico de definições de um café com leite, que mistura o amargo, o forte e a delicadeza e as notas aveludadas em lá de lácteo.
Deliciei-me com aquela figura pelos poucos segundos que tive como e que quis, tendo a clareza de que era apenas aquilo, assim como o pescador de programas de TV, que apenas mostra o peixe e o aprecie, e por seguinte, deixando que o animal volte à água.
Era apenas um entretenimento, e eu um entretido no ver e no simular em minha cabeça as tantas formas que aquele olhar me intrigava. Intrigar, talvez seja aí o que trouxe o “cheiro” do prazer em observar.
Mal sabia aquela menina que em poucos segundos eu havia capturado dela aquilo que ela menos queria. Mal sabia ela que em alguns segundos senti o agridoce de seu ser, intercalado e misturado em extremos sentimentos, ideias e gostos.
Dela extraí uma doce lembrança, aquela que ela pouco viu, pouco sabe, e que se soubesse que mostra tanto do que ela é, provavelmente não seria tão belo e intrigante como fora.

Política das pequenas coisas

Talvez o momento seja oportuno para falarmos e pensarmos sobre o nosso futuro.
Nós, brasileiros, passamos por um momento sofrível, não só na questão da crise econômica, mas em algo mais ainda importante: a crença política.

Passamos por muitas dificuldades em nossas rotinas, somos obrigados a tolerar muitas coisas que não deveríamos.
Sabemos de como que o mérito não se consolida como algo fundamental, e que não é questão de dedicação e trabalho duro apenas. Trabalhar o dia inteiro quebrando pedras é um trabalho duríssimo, mas não te traz uma vida com um potencial de aquisição ou de oportunidade de ter espaço para que sua voz seja ouvida.
Carecemos de espaços que nos deixem falar. Essa é a grande questão. Mas toleramos isso. Mesmo que guerreamos, mesmo que muito seja feito e não seja jogado para debaixo do tapete.

Tolerávamos algumas coisas por uma só questão: esperança.
Criamos expectativas de modificações e de uma democracia que trouxesse melhor distribuição a essa multiplicidade todo que constitui esse país. Repousamos nas diretas já, nas tantas manifestações contra a ditadura, no pouco a pouco em que tirávamos aquela armadura de chumbo pesadíssima criada pelos militares que interviram e simplesmente não saíram do poder. Pouco depois, toleramos a inflação, até porque o Sarney entrou, mas deveria ser o Tancredo, e aí nas mãos de mais um que lidera para poucos, seria difícil mudar.

Mas não ficamos desiludidos, mantivemos as esperanças no próximo presidente, aquele que iria de fato ser o eleito pelo povo.
Debates editados de forma a comprometer e muito a opinião pública por parte da Rede Globo, que tanto foi fiel à ditadura, e logo após já se via moldando uma forma que fosse melhor, a da democracia. Ajudaram a colocar quem era mais interessante. Collor veio, roubou quase que como os tantos “pivetes” aí que trazem discursos de remanescentes do pensamento do antigo regime ditatorial “bandido bom é bandido morto”. Mas nesse caso, sendo o presidente, ele merece ser removido de seu lugar como presidente, mas cerca de 10 anos depois já estar se elegendo para alguma coisa nas Alagoas.

Mas toleramos! Fomos até as ruas, e pedimos o seu impedimento! Não mais poderia governar.
Esse foi o primeiro voto de confiança, trocado vindo como retribuição mais dificuldades de se viver e ser brasileiro.

Mas tudo bem, vamos ver como Itamar irá conduzir o país! Mais um vice que assume. Quanta história para o começo dessa república federalista presidencialista, democrática.

Vamos confiar no grande cientista social FHC, e deixar que seu plano de nova moeda acabe com a inflação.
Deu certo! E ficamos animados, mas em pouco tempo os grandes apertos no bolso dos cidadãos e as grandes taxas de desemprego fizeram a popularidade do segundo Fernando presidente.
E foi assim, com um final de governo regado à privatizações um tanto quanto obscuras e a preços aquém do que deveria ser, perdemos algumas empresas.

Mas ok! Confiamos! Seguimos.

E veio Lula, e acreditamos que finalmente seria o grande presidente que mudaria o país. Ajudou muito, trouxe muitas aplicações interessantes, ajudou a tirar o país da total miséria, mas nem perto do que precisamos.
Aliou-se a partidos parasitários, se envolveram em escândalos de corrupção, além de terem tido apenas sorte por um panorama economico favorável para o país.

Veio Dilma e passamos a ser governados por uma pessoa extremamente não carismática. Estranha. Mas ok, se as coisas ficassem bem.

Após todos os escândalos e rumando ao esquema das empreiteiras com a Petrobras, ficamos sabendo que a corrupção é endêmica, e está na essência do brasileiro, e ainda mais dentro da esfera política. Não se governa hoje aqui sem que se tenha que ser corrupto. Isso é horrível,

De 2013 pra cá, estamos sem muitas esperanças, pensando em maneiras de mudar isso, mas ficando presos a tantas coisas que são ditas, e a cada dia mais picaretices. Fomos as ruas querendo que não seja algo corrupto assim, algo tão descarado e praticamente uma norma dentro da esfera política.
Não são os candidatos e os partidos que votamos que irão mudar algo, não mesmo! Entraram e só governarão se corrompendo pela necessidade de que se faça isso para fazer com que as coisas andem. Além disso, se sabe que as vezes entram já querendo mesmo que sejam corrompidos.

Vejo que apenas as pequenas coisas podem salvar o que existe hoje aqui.
Não há reformar políticas que mudem isso. Somente a total dissolução de tudo que há, e isso parece ser algo totalmente utópico e que abre extrema fragilidade em tal processo.
Não há de se repetir antigos erros e pensar que deva haver uma volta de governos totalitários.
Há de se pensar na política das pequenas coisas.

Vamos mudar as coisas, e a única maneira é buscarmos mais ética no dia a dia de nós que não fomos votados para representar ninguém, ou até mesmo no um ou dois políticos que queiram ser éticos.
Somente mudamos algo quando paramos de pensar que não há problema de levarmos vantagens em nosso microuniverso, nesse foco microrrelacional.
Se represento alguma profissão devo ser fiel às suas éticas. Se trabalho em uma empresa não devo rouba-la pegando canetas ou outros objetos. Se estou no colégio não colo, e se sou professor não para de dar aula e largo de mão a turma levada deixando um déficit no aprendizado daqueles seres. Se estou presente em uma hierarquia militar, que eu não descarregue em subalternos porque meus superiores descarregam em mim. Se tenho uma casa, devo pagar as contas e não devo faze desvios de sinais ou de energia elétrico.
Se sou crente a uma religião, que eu respeite a pluralidade de crenças, e não veja que minhas convicções sejam únicas.
Não vamos parar em locais proibidos. Não vamos sair da lanchonete cheia sem pagar. Não vamos pegar o dinheiro da carteira que achamos. Não vamos parar o carro no meio da rua e ignorar o trânsito e a infração das normas de trânsito.
A única solução para a corrupção em âmbito macro, é a resistência em âmbito micro.
Não posso banalizar e acabar fazendo o mesmo.
Levemos em conta a política das pequenas coisas, e se passar por sua cabeça que isso não modifica, deveria pensar que no mínimo pode modificar já a sua maneira de levar a vida. Se nisso já mudar algo e trouxer uma maneira de viver mais ética, então já estará sendo um efeito. Que isso siga com o meu e o seu filho, e que isso vá se ramificando e crescendo como uma árvore, que já foi semente, foi bem pequena e foi aos poucos se transformando em uma árvore.
A próprio corrupção na política como estamos vendo hoje, foi um dia apenas uma pequena semente, e que foi aos poucos crescendo a partir das pequenas corrupções no dia a dia. Virou uma grande e maciça árvore. Não iremos cortá-la, mas podemos plantar outra árvore ao lado e fazer com que essa sugue os nutrientes da terra e faça com que a outra enfraqueça.
Lutamos cada dia e a cada dia depois por uma melhor forma de política, mas essa melhoria só trará resultados se for construída ao lado daquela que é corrompida.
Vamos ser políticos todos os dias e éticos, fazendo crescer essa bela árvore da política das pequenas coisas. Seria utópico se não fosse plausível!

Alguns motivos pra sair dos seus sapatos de couro com o interior macio e de veludo: A Redução de Danos e a Política Antidrogas

Por que você cidadão comum deve saber o que é política antidrogas e o que se configura como a estratégia para o cuidado à adictos em drogas?

O que é Redução de Danos?
É uma estratégia que teve seu início no atendimento em casos de DST ou HIV positivo, e parte de alguns pressupostos fora de um eixo moralista, ou teoricamente moralista, como por exemplo a distribuição de seringas descartáveis para usuários que injetam heroína. Dessa forma, o número de pessoas que se contaminam com doenças como hepatite, AIDS (SIDA) ou algumas outras que podem ser transmitidas pelo contato do sangue de uma pessoa contaminada com outra que não estava.
Já deve ter dado pra entender o motivo do “não moralista”, mas mesmo assim, vamos lá. Teoricamente o ato de buscar diminuir a incidência dessas doenças oferecendo instrumentos não infectados sai da noção de que para que não se tenham mais pessoas se contaminando através de agulhas seria simplesmente fazer com que não se drogassem mais.
Até aí ok! Mas e aí, é viável? Anos e anos de políticas antidrogas que não olharam por outro prisma mostraram que não, e que os índices de infecção pelo uso de drogas reduziu muito.
A partir desse panorama positivo, a R.D. foi pensada como possível prática no atendimento direto à adictos em drogas, e dessa forma, a ideia da abstinência foi considerada como um fator que já causaria uma prévia de falha ao tratamento.
Por quê? Assim, Jurandir, se liga, se você pautar condições ao seu trabalho, principalmente se for a abstinência de alguma droga, é muito provável (por experiências na prática e em números advindos) que o tratamento acabe sendo pautado nas recaídas e em uma grande dificuldade de bons resultados.
Até porque, pautar como necessário estar “limpo” durante o tratamento diminui muito a adesão por ser algo instituído como compulsório e não necessariamente o próprio paciente acreditar que deva não se drogar.
Pensar que o uso de drogas seja condicionado à histórias pregressas de traumas e famílias não muito bem organizadas, por falta de valores e ou de algo ligado ao “ser vagabundo” cria uma estigmatização, exclui e enquadra uma categoria que é considerada inferior aos que praticam (ou dizem que praticam) a abstinência.
Queria pautar algo interessante, mas se você toma café, você está se drogando, ou pelo menos usando uma substância que droga (três canecas daria a quantidade de cafeína que entraria em um viés de dosagem com poder suficiente para estar te drogando). Mas ok, se você não bebe café, te direi que ao tomar um relaxante muscular ou algo pra diminuir sua dor de cabeça, você está usando uma droga! ABSTENHA-SE! E pare de tomar remédios para cólica e etc.
O que venha a querer com isso? Dizer que o fato de se drogar não reflete uma subcondição ou uma história inferiorizada, nada disso…. as pessoas podem se drogar pelos mais diversos fatores, e em alguns casos de forma recreativa ou não.
Você deve estar pensando “é um maconheirinho escrevendo isso”! Te digo que não, aqui está um cara do rock que nunca usou maconha! Por quê? Porque nunca quis! Sou contra o seu uso, apesar de não ser contra sua legalização. Mas ok, eu bebo, e assim como quase todos no carnaval: lá está a droga!
A droga você escolhe, certo? Para se viciar vai da quantidade e do impacto de cada droga.
Marx propôs algo bem agudo e afiado: a religião como ópio do povo.
Oras, seriamos nos viciados e tão adictos a nossas crenças sobre transcendência, seres superiores, expectativas e outras coisas ligadas a uma ideia de metafísica?
De todo, diria que o que vem sendo usado desde 2003 por práticas do SUS (Sistema Único de Saúde) e SUAS (Sistema Único de Assistência Social) é a R.D. e ainda acrescento…. tem os melhores índices de adesão e melhores resultados.
Como funciona? A abstinência não entra como compromisso, ela é trazida como alguma possibilidade com a condução do tratamento psicológico. Ou seja, se o tratamento for “rolando” e for algo a ser considerado, então é visto se há como a pessoa não usar, se ela quiser.
O mais importante não é saber sobre a droga ou dizer para não usá-la, mas saber se ela está enfraquecendo algum ponto da vida daquela pessoa, ou seja, se há um enfraquecimento em algum meandro relacional, se há perda de autonomia, de saúde e qualidade de vida.
O papel do agente da saúde e do Ministério em suas instituições responsáveis é a de promover saúde, e não necessariamente falando em fazer parar o uso de drogas, mas sim pela ideia de autonomia, empoderamento pessoal e buscar ouvir e dialogar, saber o que incomoda alguém.
Você já deve ter passado por momentos sem grana, mas que tinham outras coisas que ocupavam sua cabeça, e por mais que para todos seu problema com dinheiro fosse o Master, na verdade não era.
Supor, vir de antemão acreditando no que são os problemas do outro é excluir, é levar a uma ideia de superioridade com relação ao outro.
Por isso convoco: saiam de seus belos sapatos de couro, com aquele interior macio de veludo e saiam das ideias de supostos valores ou ideias moralistas que dizem que há pessoas melhores que outras. Há ações e de resto, somos todos (Charlie? não!) pessoas completamente diferentes, no entanto nem uma nem outra melhor ou pior.

Detentores de verdades

Gostaria de ter algo revelador, de grande sapiência, relevância e tantos outros requisitos que fazem algo ser interessante.
Não, acredito que não tenho.
Na verdade, passo a acreditar exatamente no contrário de alguns terem em suas mãos o poder do conhecimento, da novidade e de outras coisas: na verdade todos temos e somos conhecimento.
Sair do papel de detentor de verdades e entrar no caminho de poder formular hipóteses, que podem fazer sentido pra muitas situações, mas pra alguns casos e pessoas, não.
Todos tem muito a dizer, muito que sabem e que outros possam não saber.
Pobre é na verdade aquele que acredita que precisa dar a outros coisas que os outros não tem, porque no fundo, muito provavelmente aquele que é alvo de sua carência tem já mais humildade que o primeiro. Sem dúvidas.
Decartes foi um grande símbolo do pensamento, da lógica, da consciência, da ciência e dos argumentos comprovados empiricamente (ele e muitos outros), e nesse caminho todo… as ciências humanas e da saúde rumaram como pequenos primos mais pobres, que fazem de tudo pra ganhar uma “moral” com o primo mais velho e rico, nesse cado a ciência e seus tantos diplomas e graduações. Graduados e diplomados em argumentos que nunca conseguem conceber algo genial: o que não é exata e não é ciência, e assim sendo, o homem, o psiquismo, o social, as organizações, instituições, o funcionamento da sociedade, a cultura, a arte, a expressão do corpo, a música, a poesia e por aí vai, até chegar no principal: no lado humano ou tratamento humano.
No ramo do que é ciência, não precisa de muita escuta e nem muita coisa pra logo se curar qualquer doença: 3x ao dia de qualquer droga qualquer.
Mas como discutir, são todos detentores de verdades, de conhecimentos, tanto que técnicas e concepções vão se tornando obsoletas e deixam de ser vigentes, a cada nova descoberta. Verdades passageiras.
Muito do que as ciências humanas se dedicarão foi em seguir um caminho em que se larga o potencial daquilo que torna toda essa brincadeira aqui na Terra meio que mágico.
Jogamos o feio, o pobre, o marginalizado ou em instituições e tiramos de nossas vistas, ou então, deixamos eles lá longe do que se pode ser considerado como saber.
Todo mendigo, eremita e esquimó tem seu saber, o saber do seu viver, de suas tarefas e rotinas.
Vendo televisão vi um garoto americano respondendo “2 canecas” de pronto ao ouvir um adulto perguntando “quantas canecas dão um quarto de um galão?”. Nunca passaria pela minha cabeça isso, e muito porque não é do meu cotidiano, da minha rotina. Pra mim o muleque é um gênio, pois eu ficaria fazendo contas pra tentar chutar, mas sua sabedoria, conhecimento e saber vieram de sua vivência.
Você não toma um copo de leite e come carne depois não por ter lido ou visto que a ciência mostra que esse processo faz com que a digestão seja mais lenta e que dê a sensação de estômago cheio por mais tempo… não, você não faz isso ou porque sua vó, sua mãe ou seu pai te falaram, ou porque você em algum momento da vida fez e viu que não combina, dá uma sensação ruim.
Não se come frutas que não conhece, e não precisa ser PhD, mas porque muitos nessa evolução da espécie devem ter morrido comendo o que não sabe o que é.
Qualquer PhD pode saber muito sobre o que estuda, e ter um grande número de argumentos e deve saber falar daquilo que estudou, até porque, ele deve mesmo, é algo que ele deve fazer com o que sabe, falar e trocar com outras pessoas, com outras percepções, e escutar o que pensam ou acham. No entanto, o bom especialista, se reserva a falar do que sabe, das áreas que estão próximas e sempre sabendo que há algo pra se saber, algo que pode se modificar e até que seus conhecimentos sobre podem se tornar obsoletos.
A grande verdade é quanto mais se estuda, mais se sabe que a única coisa que o estudo e o conhecimento te dão é a mais clara noção de que há mais coisas a serem sabidas, não só em livros, mas na vida, do que capacidade para se saber… e aí, nessa, quem sabe mesmo é quem sabe ouvir, saber que não sabe lá tanto, e que o conhecimento é a única forma de se libertar de um mundo micro que se diz sabedor e detentor do saber, mostrando e dando voz a todo o conhecimento macro.
Nada mais bonito do que a própria máximo do senso comum, do meu, do seu, do de qualquer um… “O burro nunca aprende, o inteligente aprende com sua própria experiência e o sábio aprende com a experiência dos outros”.

(In) Terra Brasilis: A narrativa diária do tele-narrado

Queria pedir um socorro a todos, mas de todas as minhas possibilidades possíveis, talvez a única que venha a dar certo seja às nove da noite, em qualquer lugar, qualquer casa, qualquer motivo qualquer, no entanto e contanto que a luz sintética da TV em HD, LCD, de tubo, ou qualquer tipo, acaricie minha face assim como o sol da manhã.
Aquilo ilumina! E talvez se não ilumina mesmo, acalenta, e me dá a sensação de que eu pertenço a algum lugar! Talvez não o mesmo mundo que passa ali na tela, porque aquele mesmo que seja o meu cenário do dia-a-dia, não é meu, eu estou aqui, e vejo a tudo que vejo sempre lá na tela.
Me sinto mais forte, mais aliviado com tantas tramas dramáticas, cenas de ação, e tantos outras milhões de eventos que acontecem ao meu lado a todo dia – e no dia a dia – mas que lá naquela tela, lá tudo tem um ritmo, uma trama, e uma emoção diferente.
Deve ser porque minha vida tem partes chatas, aquelas lacunas que na tela da TV não aparecem, muito menos nesse programa, aquele que por seis vezes por semana me faz sentir vivo: novelas.
Lá há ódio, angústia, sofrimento, riqueza, pobreza, festas da nobreza, festas do povo, depressão de alta classe, choro mundano… tudo que existe na minha vida, mas na minha vida é triste, dói, é festa e tem lá suas mágoas escondidas.
Um enredo e uma narrativa em busca de fidedignidade, quem diria que tais elementos trariam ao povo, e digo a todo o povo brasileiro, um abraço tão gostoso quanto o de sua mãe, igual aquele de quando você era uma pequena criança, e seus pais te achavam após você se perder num mercado, no banco, ou em qualquer outro lugar.
Quando se é criança, o mundo é estranho e seu maior medo advém da reprovação e o afastamento de seus pais.
Hoje meus pais são a televisão, talvez mais a novela, que consigo viver sem o domingo, talvez até mais um dia da semana ou dois, mas não quero e não posso ficar longe daquele abraço ás nove da noite.
É não se sentir estranho dentro da própria estranheza que é o viver. Talvez mais forte do que uma batida de um caminhão em você. Ver tudo que está perto, uma cidade longe, os tipos de pessoas e como elas se comportam, tudo isso traz paz, até porque não dói e não é nem a sua vida nem você ali.
Aprendi a aprender com as novelas! Nunca tive muita paciência pra livros, pra professores ou pra contestar algumas coisas, admitir erro por vezes, mas no mínimo buscar saber mais sobre o que me traz curiosidade. Nas novelas é intrigante, te entretém.
Aprendi que o que eu não sei pode aparecer numa novela e lá eu posso descobrir como é isso, como que talvez o vizinho de sete casas a cima lida com seu filho esquizofrênico, e que na novela eu vi como que é a sua vivência e de todos os outros que passam pelo mesmo problema.
Aprendi que há como se discutir a partir do que ocorre nas telonas, uma vez que sei o que ali acontece e tenho como dizer o que é A ou B daquele modelo colocada nessa narrativa.
Além disso, entendi que vale mais o bate-boca quando o assunto polêmico caiu lá em algum capítulo da novela, e que após sua entrada, aí sim é que as coisas significam que devem ser muito mais debatidas ainda.
Esqueci que talvez enquanto debato assuntos que já estão na sociedade e surgem lá, e outros que a própria novela sugere como temáticas para dar conhecimento ao povo, talvez tudo que faça lembrar e comentar novelas é o que de fato surge como interesse pra quem produz novela.
Muito preocupado em assumir uma postura de dizer que a Globo é um veículo manipulador, me esqueci de analisar o processo entre público e emissora, e de pensar que o que ainda consolida sua hegemonia é o próprio índice de audiência.
E sim, as novelas estão em declínio, com níveis de IBOPE cada vez menores, dizem que pela internet, as redes sociais, facilidade para contratos com empresas a cabo ou satélite, e até mesmo os conteúdos em vídeo e outros formas de entretenimento gratuitos que a era cibernética e da portabilidade nos ofereceu.
Um declínio absurdo sim! O declínio no monopólio sobre a medição, talvez, não pelo bonito “eco” dos assuntos da telenovelas. Revistas, redes sociais, programas especializados em comentários sobre telenovelas, blogs, especialistas em várias áreas, e a fofoca sobre o que acontece nas novelas. Tudo isso são elementos que não a descreditam como o maior veículo assistido pelo país e pelo que mais difunde maneiras de se pensar.
Se as novelas são libertinas ou conservadoras, isso não cabe a esfera das próprias novelas, e é uma pergunta fora do que há de melhor: quem sabe se o conteúdo é conservador ou não é quem assiste.
Se grande parte julga tal material impróprio, deveras liberal ou de libertinagem, talvez seja pela sede de moralidade que tantas outras instituições empurram goela abaixo. Talvez a própria diversidade cultural em um país continental faça o nordestino ser verossímil ao nordestino que assiste, mas caricaturizado ou pejorativo pro mineiro que assiste.

Talvez em um país em que a grande maioria trabalha e dá muito duro, e que provavelmente não alcança suas metas e sonhos (quem pode sonhar aqui, né?), em que se assiste a corrupção dos representantes, a omissão dos votantes, os trânsitos absurdos, as obras de mobilidades superfaturadas, clubes de futebol devendo milhões, e tantos outros aspectos que fazem quase ter vontade de desistir antes de começar, seja preciso de novela, de muito fanatismo, de super religiões protetoras da verdade, de posicionamentos entre esquerda e direita, sobre ditaduras comunistas e militares, de seitas sabedoras da paz, de terapias com drogas que fazem milagres, de psicólogos de plantão a preços populares, e talvez, que todos saibam de tudo que acontece e saibam de alguma verdade nas redes sociais desse mundão chamado – Terra Brasilis – da realidade a todas as maneiras simuladas de vida>

Te vejo no próximo BBB