A culpa é de Deus…

Uma mulher brasileira, que morava na China, sofre um acidente de trânsito. Ela passeava desatenta numa rua que não era sinalizada, quando, de repente, um carro veio em sua direção e a atropelou. As pessoas que estavam na rua diziam que a mulher, antes de ser atropelada, parecia muito nervosa e distraída. Sua família dizia que a moça saiu de casa chateada com a mãe, pois a mãe havia acabado de brigar com a filha. Além disso, outras testemunhas disseram que o motorista do carro estava embriagado e dirigia em alta velocidade. Por essa razão, ele não conseguiu ver a moça atravessar a rua. No hospital, houve um erro hospitalar que desencadeou na morte da moça.

Diante dessa tragédia, a família da moça passa a culpar o médico que aplicou a injeção errada e tenta processar o hospital. Não obstante, a família também acusa o motorista e pede para que a justiça o prenda. Alguns vizinhos pensam que o fato de a mãe da moça ter brigado com ela fez com que a garota ficasse profundamente magoada, nervosa e distraída. Isso teria feito com que ela não prestasse atenção aos carros que passavam pela rua. Ademais, testemunhas afirmam que a moça quase fora atropelada num outro momento, pouco antes do acidente, ao passar distraída numa rua movimentada. O motorista, ao prestar seu depoimento à polícia, disse que seu carro estava com o freio ruim e culpou a concessionária, já que o carro havia acabado de sair de lá. Por fim, alguns programas de televisão comentaram o assunto e disseram que a responsabilidade é da prefeitura da cidade, uma vez que a rua estava mal sinalizada. Outros programas sugerem que a dificuldade de se definir a preferência do pedestre ou do motorista, no contexto da China, faz com que o índice de acidentes seja alto naquele país.

Perguntas:

De quem é a culpa? Quem merece ser condenado?

Quem não está culpado, as testemunhas que observaram o fato e nada fizeram?

Quem é capaz de julgar esse fato? O juiz, a família, as testemunhas?

O juiz observa o fato do lado de fora. Ele precisa juntar os relatos, reconstruir a história, observar as leis e julgar os fatos. O juiz não pode julgar as intenções, as observações e os problemas pessoais, pois ele não tem critérios para ponderar sobre tais coisas. Ele pode apenas aplicar uma condenação às infrações das leis do país e do município. Portanto, o juiz julga segundo relatos e leis, adequando as ações às leis. Contudo, ele não conhece a ação pelo lado de “dentro” e não é capaz de julgar toda a ação, julgando apenas a situação aparente.

A família observa o fato pelo lado de dentro. Eles sabem que a mãe tem culpa na briga com a filha; que o pai tem culpa por não reagir e não saber conciliar a situação; que a irmã tem culpa por ter ciúmes da outra e ter provocado a briga entre a mãe a irmã falecida. Na família, portanto, não há quem consiga – ou sequer intente – fugir da situação. Qualquer tentativa de fuga da situação traz à tona o risco de sérias patologias psicológicas. Do mesmo modo, a atitude de tomar sobre si toda a culpa pode igualmente causar neuroses, depressões e transtornos psiquiátricos.

A vítima observa o fato de acordo com o seu conhecimento. Ela seria capaz de dizer se foi um suicídio ou se foi completamente surpreendida pelo acidente, mas também não seria capaz de mostrar, mesmo se estivesse viva, os verdadeiros responsáveis pelo fato, a não ser aqueles que estiveram diretamente envolvidos. Dificilmente, porém, seria capaz de falar sobre o dolo do motorista.

O motorista é capaz de dizer somente se teve ou não intenção de matar, se viu ou não a pessoa, se tentou ou não frear o carro.

Como fazer justiça diante dessa situação? Quem é sábio e justo o suficiente para julgar toda a história e aplicar a devida punição aos culpados?

Todo aquele que, de alguma forma, faz parte da história, torna-se culpado inevitavelmente. Uns são culpados por omissão; outros, por infração às leis; outros ainda se sentem culpados por problemas de relacionamento em casa. Enfim, quando pensamos sobre Deus, nessa situação, não hesitamos em coloca-lo como o primeiro culpado da tragédia, pois, uma vez que Ele é o único que tem condições de mudar situações trágicas e se omite em fazê-lo, acaba se tornando o grande responsável pela tragédia por não ter tomado medidas preventivas. Mas será que Deus não tem tomado medidas preventivas a esses problemas? Será que Deus é o responsável por toda tragédia ocorrida e que está por acontecer?

Quando Jesus Cristo veio ao mundo, assumindo a forma de homem e de servo, tornou-se obediente à morte de Cruz (Fl 2). Em outras palavras, isso significa que Jesus, diante de todo o mundo, assumiu a culpa pelas nossas transgressões, mesmo não sendo o responsável. Era como se ele dissesse: “Eu sou o culpado! A culpa é minha pelas calamidades do homem! Venham até mim que eu tirarei de vocês a culpa por meio do perdão. Eu dou a minha vida para isentá-los de tamanha responsabilidade diante do Pai e de suas próprias vidas”. Ainda que Jesus não tenha pecado, sabemos que ele assumiu os nossos pecados. Não teria sido essa uma medida preventiva de Deus para o sofrimento e as calamidades da vida? Se cremos em Jesus, obviamente sim.

Mas o que nos intriga, na verdade, é por que Deus não age no momento da tragédia, evitando-a. Ora, há muitas tragédias que são evitadas; outras, porém, acabam ocorrendo. O que uma tragédia poderia trazer de bom para a humanidade? Por que Deus, sendo bom, permite um mal físico e uma calamidade? Essas questões são comumente levantadas por ateus. Inclusive, um dos principais argumentos ateístas é o silêncio de Deus diante das calamidades.

Certamente a questão do sofrimento nos conduz a outras questões que a antecedem, a saber: de onde vem o mal? Como Deus, sendo onipotente e benevolente, permite a existência da maldade? Tentarei abordar essas problemáticas questões nos próximos tópicos. Agora, pois, resta-nos refletir inicialmente nas perguntas: Deus é o responsável pelas tragédias e pelo sofrimento da humanidade? Se não há Deus, quem mais estaria apto a assumir tamanha responsabilidade? Há uma “causa deficiente” primeira para os acidentes, erros e ambiguidades da vida e da História? É satisfatório para nós lançar a culpa sobre alguém que, em nosso entender, tem o poder para prevenir qualquer situação ruim ou precisamos lançá-la ao acaso, ao não-saber, ao solipsismo humano?

Está posto o convite para esse café teológico. Todos estão convidados!
Abraços. Até a próxima segunda!

Guilherme Emilio – Pastor da Igreja Metodista em Sumaré.