“O silêncio é reacionário.” *

Devido a discussões políticas em redes sociais – discussões públicas – algumas pessoas chegaram a me perguntar a razão pela qual eu mantenho vínculos virtuais (e até mesmo pessoais) com gente que pensa de forma tão diferente da minha e mesmo se portam de forma inconveniente nesses debates.

Ora, salvo raras exceções, nunca havia pensado em excluir ninguém das contas que possuo na internet. As razões são bem simples: a) sou instigado a pensar diferente por meio do contraponto, por si só isso já é muito proveitoso; b) acredito na possibilidade de enriquecimento mútuo decorrente desses enfrentamentos; c) com frequência os debatentes são meus amigos e amigas, portanto possuo vínculos afetivos com estas pessoas que vão além da afinidade política.

Evidentemente, nem sempre me alegro com o que alguns me dizem. E, claro, não raramente perco a sobriedade, demonstrando minha instabilidade emocional com palavras pouco gentis. Entretanto, não acredito em crescimento sem confrontação, e confrontação implica necessariamente em certo incômodo, isso porque nossas ideias constituem a casa que habitamos e dão razão ao nosso viver cotidiano. Qualquer tijolo arrancado ou inserido pode desfigurar nosso universo pessoal, comprometendo nossa estabilidade e aconchego.

Nesse sentido, lamento por aqueles que não possuem serenidade o bastante a fim de compreender a dinâmica de um embate de ideias, que não sabem se portar e tampouco superar ofensas feitas no calor de uma discussão. Política, futebol, religião, dentre outros temas polêmicos, são plenamente discutíveis. Porém, há que se lembrar, envolvem paixão. Assim, ao desferirmos golpes contra algum objeto que seja, de algum modo, caro a outras pessoas, estamos sujeitos a reações das mais variadas.

Provocações geram reações. Se não queremos gerá-las, melhor não fazê-las. É importante então buscar compreender se a simples exposição de uma forma de pensar não resulta por si só uma agressão ao universo simbólico-afetivo de outros. Entrementes, assim como aprendemos a comer comendo, a falar ouvindo e falando, a andar tentando andar, não há como aprender a se portar em um debate sem se arriscar a entrar em um.

Óbvio, pode ser que nem sempre haja paciência para tantos desaforos e fundamentalismos (que ressurgem em nosso tempo), mas quem está na chuva é para se molhar. Penso ser preferível me arriscar a me calar absolutamente. Até porque, abrindo espaço para certa arrogância, se entendemos de algo, é bom que o transmitamos. Apresentemos o ponto ou contraponto a fim de não permitir que a burra unanimidade tome conta de todos.

* Jean-Paul Sartre é o autor da frase que nos dá o título de hoje.

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Amores selvagens

Delicioso porque proibido. Proibido porque inviável. Inviável pelos desencontros e arranjos inesperados da vida. Amores bandidos, e justamente por serem bandidos excitantes. Avassaladores! Selvagens…

Selvagens, talvez essa seja a melhor definição. As paixões inviáveis certamente escondem algo mais profundo que o próprio sentimento afetivo ou desejo sexual. Talvez apontem para a dimensão indomável que habita em nós. Dimensão que reluta em existir, pois fomos domesticados pela evolução da consciência. Em tese, devemos reprimi-la. Posto que revela nossa animalidade, os nossos “instintos mais sacanas” (Humberto Gessinger).

E é justamente isso que se ama (que amamos)! “Não amamos a pessoa, mas o símbolo que ela representa” (Rubem Alves).  Amamos o que passamos a ser diante do ser amado. Disso é feito o amor selvagem. A paixão não requer o conforto nem o descanso. Ela clama pelo fogo, pelo vendaval. Elementos não domesticados que remetem aquilo que outrora fomos – ou pensamos que fomos.

A vida cansa. O cotidiano enfada. A idade nos aborrece. Assim, vez e outra saímos em busca do “sagrado selvagem” (Bastide). Sagrado? Sim, não somente a religião oferece transcendência, as relações também. O sexo também. Sair de si, fundir-se noutra pessoa, corpo e alma. Transcendência!

A fé e o amor instituído não nos bastam. Por isso, saímos à procura de um eu adormecido. Acordamo-lo não para que se sobreponha definitivamente. Afinal, somos domesticados. Domesticamo-nos e daí em diante somos essa síntese que se debate entre o conforto e a aventura, o amor e a paixão, a necessidade e o desejo, a calmaria e a tempestade.

Em nós, finito e infinito se fundem, temporal e eterno se encontram numa aparente contradição perturbadora (Kierkegaard). Perturbando acima de tudo aqueles que não recepcionam em paz essa condição existencial. Por isso os matemáticos enlouquecem, enquanto os poetas se apaixonam uma vez mais. Se os primeiros desejam resolver as torturantes equações da vida, os últimos simplesmente as aceitam como dádiva surpreendente que os permitem ser várias pessoas em uma só.

E eventualmente queremos ser aquela pessoa tomada de coragem e movida pela paixão, a pessoa que somos quando estamos ao lado do ser amado. Esse amor selvagem! Nesse intervalo de tempo, quando a vida parece parar a fim de que vivamos o inesperado, sentimo-nos inteiros como nunca, vivos como os imortais, destemíveis como os deuses. 

Esse tempo quase mítico passará, pois tudo passa. Mas não importa! Importa o momento. O tempo chamado hoje. Que se torna eterno pois “tudo o que a memória amou já ficou eterno” (Adélia Prado).

As tentações ontem e hoje

Uma leitura atenciosa às tentações sofridas por Jesus no deserto nos habilita a compreender aquelas que hoje nos sobrevêm. Conquanto a roupagem seja contemporânea, a essência é a mesma. Afinal, a essência humana também não mudou.

Conversemos então sobre cada uma separadamente.

O poder mágico-religioso
Passados quarenta dias em jejum, o Messias teve fome. O tentador então lhe sugere transformar pedras em pães – matéria inorgânica em alimento. O argumento é forte, “se tu és o Filho de Deus…” (Mateus 4.3).

A proposta em questão é um sutil apelo para que o Senhor, encarnando em tudo a forma humana, valesse-se do poder de Deus como poder-mágico. Um conselho malévolo a fim de que o Jesus homem lançasse mão de um atalho, um caminho mais fácil.

Jesus negou. Sabemos bem que Ele não se deixou seduzir pela palavra de Satanás, nem mesmo se deixou enganar pelo coração humano quando o povo, interessado no milagre que realizaria mais tarde, multiplicando pães e peixes, passou a segui-lo para se beneficiar de uma eventual repetição do feito. Ele rejeitou a sede por bênçãos materiais manifestada pelas multidões.

Se o Senhor da Igreja rechaçou tal proposta, infelizmente não temos, como Igreja sua, tido tanto êxito em imitá-lo. O poder de Deus tem sido anunciado como resultante de ritos, fórmulas e toda sorte de práticas mágicas, um poder mágico disponível a qualquer que necessite de uma mãozinha diante dos dilemas da vida.

Dilemas que na maioria das vezes seriam resolvidos com inteligência, cuidado, esforço e prudência.

Desemprego, doença, pobreza, infelicidade amorosa, tomada de decisões, tudo é motivo para que se busque manipular o favor divino com o mesmo argumento: “se somos filhos de Deus…”

Religião como Show e Poder

Conduzindo Jesus ao pináculo do Templo da Cidade Santa, pressionou-o dizendo: “Se tu és o Filho de Deus, lança-te de aqui abaixo; porque está escrito: que aos seus anjos dará ordens a teu respeito, e tomar-te-ão nas mãos, para que nunca tropeces em alguma pedra.” (Mateus 4.6).

Seria verdadeiramente um Show, Jesus se lançando de cima do Templo e todos os religiosos assistindo de camarote a demonstração inequívoca de que Jesus era na verdade o Filho de Deus.

De novo, o caminho mais fácil, menos doloroso e ameno; a religião estaria aos pés de Jesus. Bastava ele demonstrar a todos o amor que o Pai lhe depositava, salvando-o do mal. Mas como homem, natural, limitado pela sua condição, não lhe era o caminho a ser seguido.

O sofrimento da cruz, as surras, o desprezo, o sangue derramado – esta era sua trilha. Seu martírio era necessário a fim de que, pelo perfeito sacrifício, a humanidade se encontrasse justificada. A oferta de conforto e tranqüilidade era, na verdade, um desvirtuamento do plano de Deus, era uma tentativa de distrair o Senhor de seu consciente dever.

Ora, Jesus não nos prometeu algo distinto, falou-nos de cruz, perseguições e sofrimento pela nossa associação ao seu nome. Incrivelmente, no decorrer da história – e muito claramente em nossos dias – vemos os líderes dentre o povo de Deus se entrelaçando ao poder religioso.

Homens aos pés da religião. E a religião aos seus pés. Pequenos reinos da religião são constituídos, edifícios de culto à tradição humana são erigidos como demonstração do poder adquirido, inquisições e toda sorte de perseguições determinadas a fim de garantir a manutenção do poder religioso.

O Senhor disse não, e nós, muitas vezes, temos dito sim!

O poder do Mundo (político)

Por último, o diabo levou Jesus até um alto monte, de onde se podia observar os reinos do mundo e sua grandeza.

Lá, ele revela seu maior desejo: adoração! Domínio, poder, controle, esse era seu maior desejo. “Tudo isto te darei se, prostrado, me adorares.” (Mateus 4.9).

Como em todas as outras tentações, esta também foi rechaçada com uma citação das Sagradas Escrituras.

Jesus rejeitou a oferta, de forma veemente. Sem hesitar ele não considerou o que lhe fora prometido, pois sabia que todas as ofertas seriam alcançadas; só que por outra via. A via do Calvário!

Essa foi a rejeição do poder político. Uma aliança suja e tudo estaria diante de seus pés, sendo requerido o esforço mínimo de ajoelhar-se e adorar ao inimigo de nossas almas.

Infelizmente, muitas alianças sórdidas têm se consolidado atualmente. Homens outrora fiéis a Deus têm se deixado levar pelas sutis propostas do diabo. Propostas que não são apresentadas por um tipo horrendo vestido de vermelho e portando chifres enormes. Cantadas de todos os tipos prometendo poder, e com isso a “benção” de propagar o Evangelho com melhores ferramentas e toda sorte de recursos.

Um mundo inteiro oferecido àqueles que se dobrarem. Poder sem limites para quem se capitular e entregar, como moeda de troca: votos ,apoio de imagem, silêncio conivente e complacente; reinados em face de favores diversos. O mundo em nossas mãos…

Quem tem sabedoria e discernimento que levante seus olhos e observe. O troca-troca inescrupuloso, a quebra de valores em prol de acordos, a capitulação ao sistema capitalista esmagador dos mais pobres, a rendição contente diante da promessa de um poder político que, em tese, livrar-nos-á de nossa síndrome de minoria de uma vez por todas.

A história nos mostra as conseqüências desastrosas das vezes em que a Igreja cedeu a todas essas tentações. A perversão da alma, a destruição da imagem de Jesus em nós, o adultério moral e o afastamento total dos propósitos de Deus para este mundo.

Quem tem prudência, pense nisso!

Proponho a Esperança

Encontro com grande frequência pessoas descrentes com respeito à religião, política, civilidade dentre outras coisas mais. Geralmente, trata-se de mentes privilegiadas que tiveram boas oportunidades na vida, como a de estudar, trabalhar em bons empregos e que alcançaram a prosperidade material. No entanto, apesar disso, portam-se apenas como críticos e se concentram nos pontos negativos dos fatos e nunca vislumbram qualquer possibilidade de melhora em nada.

Para estes, a corrupção não pode nem mesmo ser diminuída, as igrejas estão todas falidas e entregues à lógica capitalista e a política já está em estado irreversível de putrefação. Ainda que haja qualquer razão em algumas dessas proposições, tais sujeitos não constroem nada, não propõem nada. Sua mensagem soa como uma sentença de morte.

Apesar dos pesares, não consigo ceder a esse tipo de pensamento. Parece-me um caminho previsível e fácil demais, talvez exacerbadamente pobre. Ainda que contenha algo de intelectual, tal discurso constitui-se meramente em pedantismo, revela a covardia daqueles que, dizendo-se conscientes do que é “certo” e do que é “errado”, não movimentam uma palha sequer a fim de buscar transformar qualquer realidade, ainda que a mais concreta e próxima possível – a de sua casa, sua vizinhança, seu bairro, sua cidade.

Em ano de eleições, o único discurso que não consigo engolir é aquele que sugere que esperemos sentados enquanto os abutres devoram o que sobra da nossa dispensa. Não que devamos nos envolver com a política partidária, embora isso seja algo a se pensar; não que devamos sair às ruas com megafones alardeando o “julgamento divino” aos corruptos, ainda que não me pareça nada mal. Apenas devemos nos dedicar às ações mais básicas do dia a dia, envolvendo-nos com a vida social, dedicando-nos aos serviços mais corriqueiros da nossa comunidade.

Ações pequenas como ajuntar o lixo que se espalhou em nossa calçada pouco antes de o lixeiro passar (mesmo que não seja o nosso), participar das reuniões das associações de bairros, servir como voluntários em instituições que oferecem aulas de reforço para crianças carentes, dentre outras pequenas atitudes, podem revitalizar a boa política.

Nada disso é novo, nada disso é inexistente, temos apenas que seguir em frente com esses passos, acompanhando aqueles corajosos que desde sempre decidiram doar parte de suas vidas em prol de suas comunidades. E mesmo que não os conheçamos ainda, eles estão por todas as partes, em todos os cantos desse país; se não os vemos, é porque a mídia não os põe em foco, e se os apresenta a nós, mudamos de canal para assistir a novela que passa em outra emissora ou então, como diz certo apresentador, aos “nossos heróis” do BBB.

É tudo uma questão de assumir as rédeas, aceitar a nossa responsabilidade pessoal e coletiva a respeito desses fatos. Ao invés de perguntar por que crescem as igrejas da prosperidade alienando as massas, a corrupção política se torna endêmica e a falta de ética de políticos e religiosos; devemos nos perguntar sobre o que têm feito nossas próprias igrejas, nossos políticos, nós mesmos enquanto agentes políticos e sociais relevantes, nosso perfil ético quando atuamos em todas as esferas da vida.

No frigir dos ovos, temos que decidir se queremos ser apenas críticos ou criticamente ativos – criativos –, antagonistas ou protagonistas. Sem esperança, não temos nada a propor. Com esperança, deixamos de ser coadjuvantes na cena da vida e passamos a protagonizar os fatos, a promover transformação.

A religião nas Eleições

O Lobby religioso nas eleições de um Brasil laico, mas profundamente religioso

Qualquer eleitor que tenha se atentado para as últimas eleições deve se recordar como a religião foi um fator importante, especialmente no segundo turno da campanha presidencial de 2010. Embora não tenha sido (como alguns declaram) algo decisivo, surgiu como aspecto importante e influenciador dos discursos dos candidatos.

Para quem não se lembra, questões envolvendo homossexualidade e aborto forçaram os presidenciáveis a se posicionar sobre esses e outros temas polêmicos. A então candidata Dilma, agora Presidente, pronunciando-se contra o aborto, fora acusada por alguns veículos de imprensa e movimentos feministas de retroceder a fim de fechar alianças e atrair votos de grupos religiosos conservadores – especialmente de evangélicos e católicos.

Diante disso, passamos a assistir no Brasil algo já muito comum, por exemplo, nos Estados Unidos: o lobby de cunho religioso. Seria ingênuo, contudo, imaginar que os únicos interesses em jogo são assuntos de importância religiosa, não obstante é precisamente por meio desses temas que políticos representantes de alas religiosas conservadoras tiram proveito para firmar alianças e, de quebra, apresentarem-se ao seu eleitorado como guardiões dos valores tradicionais da família. Lançam mão de tais oportunidades a fim de legitimarem-se no poder.

E como na política quase tudo o que passa pode voltar, a religião outra vez tornou ao debate público nas eleições municipais de 2012 em São Paulo – assim como deve ter aparecido em outros municípios do país. Levando-se em conta que todos os candidatos procurariam dialogar com os mais diversos grupos sociais, especialmente os religiosos, que hoje aparecem na cena política com mais alarde, alguns dos assuntos levantados nas eleições anteriores reapareceriam – até porque o cenário era bem propício.

O candidato Haddad, do PT, por exemplo, durante sua gestão no Ministério da Educação, havia sido alvo de críticas de conservadores devido à proposta de inserção do chamado “Kit anti-homofobia” – conhecido também como “Kit Gay” – nas escolas públicas a fim de conscientizar adolescentes acerca da homossexualidade. À medida visaria combater o preconceito e a homofobia. No episódio, a bancada evangélica, juntamente com setores conservadores da Igreja Católica, manifestou-se duramente contra a distribuição do Kit. A pressão resultou na desistência da distribuição do material, por parte do governo, alegando que o Kit não seria de fato adequado aos estudantes.

O candidato José Serra, do PSDB, por sua vez, parecia ter bons relacionamentos com grupos religiosos reacionários (quando presidenciável, chegou mesmo a receber o apoio público do pastor midiático Silas Malafaia, figura polêmica bastante popular entre os evangélicos hoje). E, por fim, havia também candidato do PMDB, Gabriel Chalita, que possui laços estreitos com o movimento católico de renovação carismática, a Canção Nova e, Russomanno, por sua vez, candidato do PRB, partido ligado à Igreja Universal do Reino de Deus.  Não era preciso ser vidente para saber que, em maior ou menor grau, tais envolvimentos influenciariam os discursos e futuras negociações desses personagens públicos.

Entretanto, pode-se dizer que a exposição do tema se deu em “menor grau”. Fora quase que totalmente concentrada em Celso Russomanno, que depois da exposição pública de uma carta elaborada pela Igreja Católica a pedido de D. Odilo Scherer, denunciando um de seus Coordenadores de Campanha, um bispo da IURD e presidente do PRB, que havia feito duras acusações à Igreja Católica, veria o então êxito da sua candidatura comprometido. A ligação com a IURD aliada a tal ofensa de seu Coordenador ao catolicismo tiraria o candidato do PRB do páreo eleitoral.

Esse tem sido um dos aspectos importantes da política brasileira nesses dias: a relação entre política e religião. Assumindo-se constitucionalmente como Estado Laico (que não possui religião oficial), o país tem agora o desafio de edificar o perfil de laicidade que aqui está se formando. Lembrando que dentre suas principais características deve estar a imparcialidade. Isso não requer dos políticos que sejam alheios aos temas ligados à religião, mas sim que suas posturas resguardem o tratamento igualitário entre todos os atores sociais. Isto é, não privilegiar nem desprestigiar qualquer grupo que seja, e tratar com o máximo de imparcialidade a todos esses.

As eleições se aproximam outra vez, e o palco das disputas deverá ser um dos mais quentes da história, tendo em vista a atual conjuntura sociopolítica do país. Uma eleição de âmbito nacional e estadual posterior ao julgamento do “Mensalão”, às incontáveis manifestações de rua com um sem-número de reivindicações de movimentos sociais e, ainda notícia recente, o escândalo da corrupção nos contratos de licitação de trens e metrôs em São Paulo envolvendo diretamente governantes do PSDB. Além do mais, há Marina Silva, que surpreendeu na campanha presidencial de 2010, e agora busca a fundação da #Rede Sustentabilidade também deverá contribuir para o acirramento da disputa.

Ela não só representa uma alternativa política ao país, como também, pela sua afiliação religiosa a uma das mais tradicionais igrejas pentecostais brasileiras, a Assembleia de Deus, cria imensa expectativa sobre como se valerá de todos esses recentes fatos e, profundamente importante, como lidará com os temas polêmicos da religião em sua possível campanha à presidência (na pior das hipóteses, mesmo que não candidata, sua posição oficial acerca desses e outros temas certamente terá importante peso para às disputas do ano que vem).

Assim, com uma visão otimista (um otimismo crítico, é bem verdade), o que se pode esperar dos acontecimentos políticos de um dos mais importantes países da América Latina é que os candidatos reconheçam o perfil de protagonistas que possuem e apresentem-se como modelos de bom senso e equilíbrio no que se refere a esse e todos os demais assuntos tendentes a gerar forte polêmica. Especialmente, que não tentem manipular a religião em prol de interesses pessoais e partidários. Vale reafirmar, essa é uma visão otimista…

Artigo publicado originalmente na Revista Glocal.

Minas, terra da gente

“O céu daqui não é tão bonito quanto o céu de Cuiabá”, sussurrou ela. “Na verdade, não consigo entender o porquê de tanta poesia e veneração em torno de Minas”, continuou. Questionando talvez o porquê de Rubem Alves por diversas vezes poetizar suas crônicas devotando elogios às terras mineiras; arrazoando, ainda que inconscientemente, o motivo pelo qual esta terra gera tantos poetas quanto caipiras – terra de Adélia, Drummond e outros mais.

É, pode ser que ela é que esteja com a razão e Minas não seja tão atraente assim, da mesma maneira que o céu de outras cidades possam mesmo ser mais charmosos que o daqui.

Na verdade, quando me ponho a pensar, não consigo definir se Minas é que encantou aqueles que passaram a admirá-la ou se eles é que a tornaram uma terra encantada. De uma forma ou de outra, esse lugar tem marcado pessoas desde a muito. E essas marcas estão refletidas em uma enormidade de expressões artísticas ao longo da história.

Só de pensar na possibilidade de haver de deixar este chão, meu coração se põe a bater mais forte, meu paladar já sente saudades da cozinha típica de nossos pais, e meus ouvidos já se entristecem pela possibilidade de não ouvir mais o sotaque da roça.

E por falar das coisas mineiras: pra saber se a família é legitimamente mineira basta esperar a hora da comida. Se o dono da casa se entristecer pelo fato de o hóspede não se agradar da comida, aí está um legítimo mineiro. Porque mineiro que é mineiro é assim, serve do melhor quando tem visita; quer sempre alegrar o visitante. E quando percebe que agradou ao paladar alheio, fica todo contente.

Comida é coisa séria para o povo daqui, queijo tem que ser do bom, frango tem que ser caipira, leitoa só se for “pururuca”, torresmo deve ser carnudo e bem sequinho, caipirinha é com pinga e quentão não pode ser fraco. Sem falar do pastel de farinha de milho, do biscoito e broa caseiros, das roscas e outros quitutes que saem aos montes nas festas juninas.

Ah, ser de Minas é ser poeta!

E poetas não nos faltam. Alguns fazem poesias com palavras, os escritores; outros, na cozinha, fazem poesia por meio de fórmulas mágicas, os chamamos de cozinheiros, mas poderia igualmente serem chamados de feiticeiros; há também aqueles que constroem contos, os vemos em contações de estórias nas rodas das esquinas e nas portas dos bares – e o mais interessante: não sabem escrever uma só linha, para estes o “verbo” é para ser rasgado, e o “sujeito” é aquele cara da história do Mané que acabou ficando sem nome.

Não importa muito entender se é Minas que encanta ou se nós é que encantamos esse lugar, o que mais importa é sentir que Minas é terra da gente, lugar pra se viver e, caso não se viva aqui, sentir saudades! Saudades que geraram e continuarão a gerar versos e mais versos, versos daqueles que não se cansarão de cantar: “quem te conhece não esquece jamais. Ó Minas Gerais!!!”

Como minha fé sobreviveu à igreja

Embora algumas pessoas acreditem que eu mantenha um intenso ritmo de leituras, não sou um leitor tão ávido quanto gostaria de ser. Luto sempre contra uma indisciplina e dificuldade de concentração que durante toda a minha vida me desafiam diariamente. E em sendo um leitor comedido, sou ainda pior “releitor”. Explico: poucas foram às vezes em que consegui reler alguma obra literária, nessas poucas vezes raríssimas foram as que eu tive prazer.
 
Uma dessas raras exceções é um livro que, de vez em vez, sempre que me sinto fragilizado na fé, tomado por dúvidas ou sem motivação para seguir na jornada da vida, recorro a fim de encontrar nele algum consolo, alguma inspiração que me ajude refazer minhas forças e buscar energia e saúde espiritual para continuar em frente. Esse livro chama-se Alma Sobrevivente, do escritor estadunidense Philip Yancey.
 
É um livro simples, sem muita sofisticação em sua forma ou no conteúdo. Não obstante, isso não o compromete. Trata-se especificamente de um livro sobre a fé, uma obra cristã, de um autor com um conhecimento geral vasto, e que não trilha os caminhos do academicismo teológico que, por vezes inúmeras, apresenta-se profundamente distante das inquietações cotidianas e existencialmente essenciais de pessoas que, acima de tudo, desejam desenvolver sua vida espiritual com saúde e equilíbrio.
 
O livro é dirigido especialmente a um público que parece aumentar a cada dia, dos decepcionados com a religião – muitos, na verdade, frustrados em relação às instituições religiosas, mas que ainda aspiram, de alguma maneira, vivenciar sua fé. Assim, Yancey organizou alguns relatos a respeito de treze pessoas que, segundo ele, contribuíram com a sua jornada espiritual; mais que isso, ajudaram-no a não cometer um “suicídio institucional”, que resultaria no abandono definitivo da igreja – enquanto instituição e organização humanas.
 
Como em quase todos os escritos do jornalista e editor associado da Cristianity Today, as ideias estão permeadas do precioso conceito da graça cristã. Na verdade, cada personagem mencionado é desvestido pelo autor como um misto entre êxito e fracasso diante dos ideais cristãos. Alguns são pessoas que, pela leitura de suas obras ou relatos biográficos superficiais, chamaríamos de profetas ou santos. Mas que, contudo, não passaram de seres humanos como qualquer um de nós. Seres humanos que, apesar dos pesares, manifestaram em suas obras artísticas ou sua vivência cotidiana preciosas marcas do Evangelho.
 
Os dados biográficos são entremeados com relatos das próprias experiências pessoais de Yancey. Assim como retoma sempre o tema da graça ou do sofrimento humano, que lhe são intimamente caros; não se furtando em reescrever acerca dos abusos e decepções que sofreu em sua vivência religiosa na infância até o início da juventude, e o quanto isso gerou nele marcas indeléveis.
 
Aí está a riqueza do livro, o fato de que não esconde a realidade crua e nua – e por vezes triste – que teima em existir paralela à pregação do Evangelho de Jesus. Uma realidade que, embora parte profundamente presente na vida daqueles que se dizem cristãos, contraria significativamente os altos valores da fé professada por eles.
 
Suas exposições pessoais, junto das narrativas biográficas daqueles a quem ele chama de mentores, são um verdadeiro alento para aqueles que já sofreram com os exageros decorrentes do convívio religioso doentio, para aqueles que já se cansaram de tentar sustentar um padrão comportamental formatado por líderes persuasivos mas sem alcançar êxito, daqueles que, estando feridos e necessitados de consolo, não encontram nas comunidades de fé o refúgio acolhedor que deveria ser a marca dos que amam a Jesus.
 
Suas traumáticas experiências, a maneira como as assimilou e que lhe proporcionam hoje belos frutos também motivam e ajudam o leitor a encarar com serenidade suas próprias mazelas. Para encontrar a cura pessoal, faz-se necessário encarar a desconfortável porém inevitável realidade – muitas vezes desconsiderada, quando estamos tomados pela mágoa – de que a igreja é constituída por seres falhos, pecadores em busca de redenção, mas que muitas vezes cometem falhas ao tentar ministrar a outros sua fé e que, em sua busca por servir a Deus, não poucas vezes assumem posturas diametralmente inversas àquelas anunciadas pelo seu Senhor.
 
Talvez esse seja o grande desafio das pessoas que se assumem feridas pelas igrejas: trabalhar (tratar, aprender a administrar) suas experiências passadas a fim de não serem destruídos pela amargura gerada por lastimáveis lembranças. Das pessoas citadas por Yancey, nenhuma delas parece ter vivido sem qualquer conflito existencial ou sem qualquer inadequação à qual tiveram que se adequar ou, pelo menos, suportar. Alguns mais exitosos em sua caminhada espiritual, outros mais desajustados. No entanto, possuidores de biografias que muito têm a contribuir conosco. Martin Luther King, Gandhi, Henri Nouwen e G. K. Chesterton são algumas das personagens abordadas pelo escritor.
 
Para mim, o livro não apenas se tornou uma fonte à qual recorro em dias de tempestade e incerteza, mas também possui forte significado existencial. Recordo-me ainda hoje que, há aproximadamente dez anos, procurava alguma leitura que pudesse me ajudar em meus conflitos a respeito da igreja. Na verdade, eu acabara de começar a tomar consciência de certas coisas que outrora não notara. Desde regras que não faziam o menor sentido (“não pode isso, não pode aquilo!”), que não tinham qualquer relação verdadeira com a vida cristã, à manipulação dos membros para que os líderes alcançassem seus fins pessoais, também a hipocrisia mascarada, o moralismo perverso e mesquinho (que não gerava outra coisa senão mais hipocrisia) e a manutenção de um ambiente que favorecia o empobrecimento intelectual, a inexistência de consciência cidadã e que alimentava uma visão política de gueto, sustentada pela inventiva fundamentação que asseverava: “crente vota em crente!” – sem instigar as pessoas a um espírito crítico independente, maduro, que pudesse julgar os melhores candidatos por si mesmos.
 
Não gostaria que alguns pensassem, após esse texto, que culpo a religião por todos os meus vícios e defeitos. Isso não seria verdade, visto que tenho aprendido a assumir minha responsabilidade pessoal diante das situações às quais me submeti, discursos que aderi e coisas que fiz. Eu seria mesquinho se não assumisse que o moralismo religioso, que contribuiu para que pulsões e neuras me acompanhassem durante anos, teve como forte aliado nesse processo minha própria mente, com um perfil psíquico sujeito a determinados transtornos.
 
Enfim, para além das coisas que comentei, a leitura de Alma sobrevivente fora um dos eventos que viriam a contribuir para que eu começasse a escrever. Entretanto, a despeito de ter um perfil bastante reativo, sentia que não podia nem tinha (hoje sei) maturidade para agir a respeito das tensões que vivia diante da religião, porém não conseguia me calar absolutamente; e como não havia uma tribuna na qual pudesse discursar ou questionar livremente e sem censura sobre os temas que me incomodavam de modo torturante, resolvi escrever em um blog. A internet era um lugar livre, lá poderia “soltar” minhas indagações (o que fora um alívio) de modo mais tranquilo. Não obrigava nem saía anunciando às pessoas o que pensavam, mas deixava tudo disponível na internet pra quem quer que se interessasse. Não havia ainda nem imaginado criar o blog Visão Integral, mas os primeiros escritos em outro sítio dariam origem ao espaço no qual escrevo hoje e que já está na ativa (ainda que com muitos altos e baixos) há quase sete anos.
 
O primeiro texto que escrevi, ainda com maior sofrimento que hoje, e bem pior do que aqueles que hoje escrevo (que ainda são custosos a sair), fora uma indicação do livro sobre o qual converso agora. Ou seja, é a segunda vez que, de forma escrita, recomendo tal obra e manifesto a importância que tem em minha vida. Há outras também muito importantes e às quais, “milagrosamente”, recorro para releituras, porém esta possui maior significado entre todas, motivou-me à prática que há muito me tem dado imenso prazer além de contribuir com meu próprio crescimento espiritual, a escrita.
 
Tamanho é o valor desse ato para mim que, a fim de descrever sua importância para meu bem-estar interior, teria que me prolongar ainda mais, e isso deixaria esse texto mais extenso e cansativo do que o desejado. De modo que deixo esse tema para outra conversa escrita.
 
Finalizando, até para que não percamos o rumo da prosa, fica então a sugestão desse precioso trabalho, pelo qual nutro imenso carinho: Alma Sobrevivente, que possui como subtítulo na publicação em português da Editora Mundo Cristão a frase “Sou cristão apesar da igreja”, mas que no original  em inglês   ostenta, a meu ver, maior ousadia e provocação, afirmando “Como minha fé sobreviveu à igreja”. Espero que gostem da leitura, que seja edificante. Entretanto, mais do que sugerir um livro exato, recomendo a prática da leitura como um caminho estreito que conduz a infinitas descobertas, a busca pela convivência pessoal com mentores e conselheiros reconhecidamente sábios, a comunhão com companheiros de fé, a atenção e o investimento disciplinado na jornada de crescimento espiritual.