Romance Urbano

Costumávamos deitar lado a lado
Enquanto eu olhava o teto
Você acendia mais um cigarro
De uma certa forma o mundo lá fora deixava de existir
Tudo virava piada
Suas crises de ciúmes
E minha mania doentia de achar tudo perfeito em você
Mesmo com todos os seus defeitos
Todos enxergavam, menos eu
Tapei meus ouvidos para os meus amigos e seus conselhos
Caminhei hipnotizado pelo seu jogo
Estava claro que acabaria assim
Mas eu me embriagava com qualquer bebidas
E tomava o cigarro da sua boca
Aspirava a fumaça e te beijava
No meio das garrafas e do pó
A gente se encontrava
Entre lençóis e tapas
Ofensas e declarações de amor
Escrevíamos nosso romance destrutivo
Eu deixei de existir
Naquele submundo barato de hotéis maltrapilhos
Toda minha energia escorreu
Como água na pia
E os laços frágeis que nos unia
Logo rasgaram, previsivelmente
Hoje ainda carrego entalado na garganta
Todos os desaforos que eu deveria te dizer
Mas a quem eu quero enganar?
Se pudesse te ver outra vez perdoaria cada briga
E morreria feliz entre as tuas pernas.

Quietude

Quero uma vida leve
Bem leve
Que me leve pra algum lugar
Que seja longe
Bem longe
Do barulho da cidade grande
Do caos dessa sala fechada
Quero paz
E mais
Quero muito amor
Amor pra fazer poema
Amor pra acordar
Amor que me faça ninar
Quero uma vida assim
Enfim
Cheia de suspiros
No meio do dia
No meio da noite
No meio da casa
Em todo lugar
Quero sentir o calor
Transpirar e respirar afeto
Envolver e dissolver em felicidade
Quero uma tarde azul
Bem azul
Que reflita o brilho do sol no mar
O barulho das ondas a me embalar
Quero uma praia inteira
Quero mergulhar
Nesse instante
No teu vestido
E na tua boca
Quero caminhar de mãos dadas
Deitar na grama
Ouvir o som do ar
Quero amar
Bem leve
Azul
Sereno
Paz

Sereno

Não espero que seja minha
Se não tiver de ser
Por isso durmo tranqüilo
Aprendi a considerar
Que o mundo se encarrega de entregar
Aquilo que me cabe receber
E se por acaso for você
Não haverá como fugir
Nem escapar do meu amor
Por isso, querida
Fique em paz
Se o meu encanto te seduzir
Não lute contra o seu desejo
Deixa fluir
Mas se minha prosa não te convencer
Outra há de querer
Os meus beijos e abraços
Honestamente, esperava que fosse você
Mas também não vou forçar
Nem te obrigar a me amar
Deixa simplesmente acontecer
Se nesses dias sorrir
Quando pensar em mim
E eu ainda estiver aqui
Será um sinal que o destino tratou de nos unir
Agora, se não
Não adianta desesperar
Talvez seja pra ficarmos juntos
Ou seja apenas pra nos preparar
Para o verdadeiro amor
Porque pra mim e para ti
Um dia virá

Quer comprar?

Quanto dinheiro
É necessário
Pra comprar
O mundo inteiro?

Se é de graça
Que se faz
A vida acontecer
O dinheiro
É nada mais
Que a razão
Do padecer

Quanto eu preciso
Pra estar mais feliz?

Qual é a conta
Onde paga, quem me diz?

Nesse extrato
Consumido
Onde eu posso
Parcelar?
O meu riso
Meu abrigo
Ninguém pode
Me comprar

Quanto vale a sua paz?
Está à venda o seu amor?

Sua roupa fala mais
Do que o seu interior?

Mas não se iluda
É necessário
Trabalho
Pra sobreviver
Mas domine
O seu dinheiro
Ou ele vai
Dominar você

Samba de um coração partido

A jura de amor
Que eu esperava ouvir
Não era pra mim

Não era pra mim…

O lugar que eu fiz
Pra você morar
Continua aqui

Continua aqui…

Se o vazio que cravado foi
Em meu coração
Não quer mais sarar

Espero então
Que uma nova paixão
Possa me libertar

O carinho que eu
Queria dar
Não vai sentir

Não vai sentir…

Carrego a flor
Pra te entregar
A me ferir

A me ferir…

Se o espinho dói
Em minha mão
Não quero chorar

Eu faço então
Essa canção
Só pra desabafar

Eclesiastes

Por algum motivo metafísico
Tropecei assim nas palavras
E fiquei questionando a razão das coisas
Da vida, da terra e do além
Achei tudo absurdamente inexplicável
Apenas vaidades e mais vaidades
Foi então que percebi a futilidade
Em tentar desvendar os mistérios do universo
O sol nasce e se põe, vai uma geração e outra vem
Nada é novo, tudo já foi feito e se tornará a fazer
Plantei arvores, escrevi livros e tive filhos
Nada disso deu um sentido à minha existência
A loucura dessa vida me atormenta
Homens prudentes derrubados pelo acaso
Corruptos desfrutando o luxo e o lazer
O pobre sendo esmagado sem piedade
Guerras em nome de paz, mortes em nome de Deus
O estomago do mendigo dói em mim
Mas minha ganância não sede o pão
Engajei-me ajuntando tesouros efêmeros
E mulheres, tive mais de mil
Deitei em todas as camas
Experimentei louras, negras, morenas e ruivas
Todo esse gozo só me deixou vazio
Perdi minha paz, minha calma e meu ser
Tudo em troca de nada
Apenas solidão e mais solidão
Tive tudo que se pode desejar
Assentei-me no trono do Rei
Coloquei a coroa em minha cabeça
E fui senhor da minha própria estória
Pensei que estava na torre mais elevada
Apreciando os meus jardins
Mas descobri minha estupidez
Meu castelo era de cartas
Bastava um sopro de vento para destruir todo o meu império
Corri e corri atrás de nada
Andei em círculos todo esse tempo
Vi a vida escorrendo pelos dedos
Tudo aqui é enfado e canseira
Desejei minha mocidade novamente
Estava fora do meu alcance
Minha altivez se espatifou
Por mais que tentássemos fugir do Criador
Não existe nada além Dele
Esconder-se é inútil, ignorá-lo é insano
Tudo que somos acaba num único dever
Adorá-lo e obedecê-lo
Porque Deus irá trazer a juízo toda obra
Quer seja boa, ou má.

Nessa hora

Nessa hora você calça as botas
Aquelas surradas pelo tempo
Enfrenta o caminho conhecido
Passo a passo na antiga direção
Que nunca levou a lugar nenhum

Nessa hora você sente o corpo cansado
Náuseas no estomago
Uma vontade incontrolável de se jogar
Na cama, no sofá, na grama
Ou quem sabe, na vida de alguém

Nessa hora você sente frio
Falta um abraço
Falta um laço feito à sua medida
Um suspiro profundo no quarto
Rompe o insuportável silêncio

Nessa hora você se irrita
Com o radio barulhento do vizinho
Com a programação da sua TV
Com o final do livro jogado na cabeceira
Com a noite que começa a ficar escura de mais

Nessa hora você se sente humano
Cheio de fraquezas e fragilidades
Nem santo, nem imortal
Apenas mais um nessa multidão do universo
Buscando se encaixar e ser amado

Nessa hora você se cala