Hoje, não quero falar de flores…

Talvez minha momentânea indignação esteja tornando turvo meu otimismo, mas a verdade é que, hoje, não quero falar de flores.

Gostaria de falar sobre a precariedade crescente dos relacionamentos humanos nos nossos dias. São relacionamentos cada vez mais frágeis e superficiais. O que intuo é que há uma grande corrida para se chegar a um “pódio” nada utópico, no qual só há lugar para um: o eu.

Ainda me surpreendo com a capacidade humana de cometer injustiça para alcançar seus desejos egoístas, mesmo os mais banais. Não se olha para o/a outro/a como a um/a igual, que sente, que ama e quer ser amado/a, que sofre, que luta, mas como a um/a adversário/a que, via de regra, precisa ser eliminado/a.

Certa vez, em uma das brilhantes aulas do saudoso Milton Schwantes, fui estimulada a cultivar relacionamentos e nutrir vínculos com as pessoas que passam pela nossa vida: o/a feirante, o/a caixa do supermercado, o/a atendente da loja, nossos/as vizinhos/as… Tenho tentado pôr esse ensinamento em prática e, mesmo sabendo que a contrapartida é muito pequena, me sinto realizada quando consigo, pois descobri que a alegria da vida são os relacionamentos. Seria muito ruim viver sozinha neste mundo, mesmo que ele fosse todo só meu.

Acho que deveríamos lutar juntos/as e não uns/as contra os/as outros/as, mas isso sim é uma utopia! Sei que os dias são maus, muito maus, mas ao fim desse desabafo, decidi seguir sonhando.

“Não quero flores, quero respeito!”

A propósito do dia internacional da mulher que se aproxima (dia 08 de março), fui estimulada a refletir sobre o tema. Me agrego àquelas/es que insistem em resistir ao tratamento diminuto que, em geral, se dá a luta pelos direitos da mulher.

É bem verdade que, nunca, em toda história da humanidade, a mulher alcançou o patamar em que se encontra hoje, com avanços políticos e civis significativos. Entretanto, ainda há “muito caminho a se percorrer”.

Na esfera da religião, esse caminho tem sido ainda mais árduo, como bem sabemos. Dizer que é feminista é se entregar à morte, na maioria das vezes. Quanto a mim, tenho uma resposta pronta. Ao ser perguntada se sou feminista respondo: sou cristã, e explico: Cristo é justo e eu busco a justiça.

Ser tida como incapaz de assumir papéis e desenvolver tarefas ou como um ser com inteligência menor só pelo fato de ser mulher é, no mínimo, uma injustiça!

O próprio apóstolo Paulo, tanto citado para subjulgar as mulheres, legitimou a escravidão e nem por isso concordamos mais com o fato de outro ser humano ser escravizado. Por outro lado, o mesmo Paulo também diz: “Dessaarte, não pode haver judeu nem grego; nem escravo nem liberto; nem homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus.” (Gl. 3:28). Na verdade, nós escolhemos o que defender. Eu prefiro esse Paulo.

Entretanto, tenho consciência de que faço parte de uma cultura em transformação e que esse processo é lento. Minha contribuição, portanto, deve, acima de tudo, respeitar o ponto de vista da/o outra/o.

De qualquer forma, fica registrado aqui o meu protesto. Gosto de ganhar presentes, como todo ser humano, inclusive flores. Mas especialmente nesse dia, gostaria de ganhar respeito!