Seja o que for, seja.

Um dos maiores compromissos que temos na vida nos vem sem nos darmos conta. Desde que nascemos estamos fadados a isso: ser.  Precisamos ser desde muito cedo. E somos. De alguma maneira, somos. Seja pela perspectiva de outros ou por descobertas que fazemos de nós mesmos, acabamos sendo. Confuso ? Vamos tentar esclarecer.

Desde muito pequenos somos comprometidos com a agenda do que as outras pessoas querem ,desejam, esperam ou simplesmente impõem sobre nós: “Que menina bagunceira!” ou “Você é um preguiçoso!” ou, pra ser mais ameno: “Olha como ele é calminho!” e “Ela é muito comportada!” são alguns entre muitos estigmas com os quais todos nós, em algum momento tivemos que lidar na vida. Nem sempre concordamos com eles. Algumas pessoas, envolvidas com a psicologia ou religiosas, afirmam que essas demarcações identitárias definem muito sobre quem de fato seremos ou somos. Algumas pessoas dizem que somos o que nossos antepassados afirmaram sobre nós na infância e que essas sentenças se cumprem no destino das suas vítimas e por isso, é preciso certo cuidado ao afirmar coisas muito fortes sobre a vida das crianças.

Deterministas a esse ponto ou não, fato é: em algum momento da vida, a gente se dá conta de que mais do que responder expectativas alheias, chega o dia em que realmente precisamos ser. Às vezes seguimos uma agenda de expectativas, do que os outros esperam de nós, por muito tempo e vivemos numa espécie de prisão de viver, trabalhar e nos comportarmos como os outros esperam que o façamos: “Se eu não for assim, meus pais vão sofrer!” ou “Não é isso que se espera de mim no meio em que eu vivo!”; “Minha religião não permite!”.

A questão não passa por uma independência total e arbitrária de se chegar a um ponto em que a gente é o que quiser e dane-se a opinião do mundo. Até porque isso é um tanto quanto fantasioso. Não se iluda! Todos nós precisamos representar um papel e viver em sociedade significa isso. Defendem autores da ontologia: eu sou sempre em relação ao outro. Logo, o meu ser está sempre diretamente ligado ao ser do outro porque eu vivo em sociedade. Isso é o que permite a vida em comum e somos minimamente “civilizados” nos moldes da civilização ocidental porque aprendemos desde cedo que precisamos respeitar os direitos dos outros que habitam essa sociedade comum. Princípios de respeito e convívio dos quais não nos livramos nunca. Dorme com esse barulho.

Além disso, outra questão que pesa, se formos bastante sinceros, é que dificilmente alcançamos a maturidade necessária, se é que ela existe, de afirmarmos com veemência que chegamos a um ponto em que não mudaremos mais. Que garantia eu tenho de que o que eu afirmo ser hoje vai durar até o fim da minha vida? Ainda mais que me considero relativamente jovem e não está nos meus planos morrer tão logo. Então, se nos serve de consolo, podemos usufruir o que somos hoje sem o compromisso e a obrigação de manter isso como uma prisão. Pelo contrário, temos em nossas mãos a possibilidade de construir sempre o que somos, em relação com tudo de novo que conhecemos e aprendemos da vida e das relações que construímos ao longo da vida.

É o nosso compromisso: construir, desconstruir, reconstruir sempre o que queremos ser e o que somos, mesmo sem querer,  todos os dias. Mesmo que isso custe, mesmo que essa construção demore feito obra de igreja  ou que seja até dolorosa em alguns momentos em que teremos que lidar com descobertas que não desejávamos: eu sou isso mesmo? Mas não era o esperado de mim…A questão é ser honesto, pelo menos consigo mesmo nessa eterna construção, nessa descoberta,  nesse eterno jogo de si mesmo. Afinal, já diria o cantor popular: cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é.

A felicidade é como uma gota de orvalho numa pétala de flor…

Dia desses, vi uma personagem conhecida do público brasileiro respondendo sobre esta pergunta terrível: “Você é feliz?” E a resposta dela inspirou este que vos fala a discutir um pouco sobre esse tema talvez até numa perspectiva não apenas de opinião, mas também à luz de alguns princípios bíblico-teológicos, uma vez que esta é a formação que possuo para fazê-lo.

Vamos começar pela opinião, então. De fato, esta é uma das perguntas mais cruéis e difíceis de ser respondidas da qual o mundo já teve notícia. Primeiro porque tanta subjetividade cria cada encruzilhada que se o interlocutor tiver a oportunidade ou a curiosidade de sair perguntando isso por aí; em cada esquina que parar vai encontrar dezenas de milhares de respostas diferentes. Nesse acordo acho que dá pra chegar: felicidade não tem essência, logo, precisa ser relativizada. Para alguns poetas, a felicidade nada mais é do que ter uma casinha de varanda, um quintal e uma janela para ver o sol nascer.

Para outros, felicidade é impossível; outros ainda, nem existe. Para a entrevistada mencionada no início dessa conversa; ser feliz é algo subjetivo e o que se pode, com toda sinceridade, é conseguir ter momentos de enorme alegria alternados com outros de profunda depressão e tristeza e tentativas de enfrentamento de problemas, como acontece com a  maioria, se não, todos os mortais.

Falando sobre a promessa feita de uma perspectiva bíblico-teológica, definitivamente, felicidade não existe. Calma! Não quero tirar o doce da boca de ninguém nem causar polêmicas. Mas o conceito felicidade como se tem em mente ao assistir a um comercial de manteiga em que uma família nuclear está sorridente, de manhã cedo, tomando café com seus filhos e cachorros; esse conceito ocidental e comercial de felicidade não existe para a Bíblia.

Aliás, muita coisa precisaria ser discutida nesse comercial de manteiga: a felicidade a despeito de acordar cedo,  o conceito de família nuclear, dar pão com manteiga pro cachorro, etc, etc, etc.  Isso fica pra outra hora.

A questão é: esses conceitos subjetivos tipicamente ocidentais e vindos do pensamento filosófico grego não cabem na mente semita que desenvolveu os textos bíblicos. A bíblia apresenta conceitos como “SHALOM” que representa plenitude de paz, prosperidade e que envolvem o que os profetas bíblicos chamam de “Amar o bem, praticar a justiça e andar retamente com o teu Deus” (Livro do profeta Miqueias, capítulo 6, verso 8).

Ou ainda, no Salmo 1, quando o poeta canta sobre o que é ser bem aventurado, talvez a gente possa forçar a barra e traduzir esse “bem aventurado” por feliz. Ele afirma que: “Bem-aventurado(feliz) o homem que não anda segundo o conselho dos ímpios, nem se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores.
Antes tem o seu prazer na lei do Senhor, e na sua lei medita de dia e de noite”.
(Salmos 1:1,2).

No fim, ambos os caminhos para a felicidade implicam em coisas muito diferentes do que entendemos no ocidente e o mais interessante: o caminho da felicidade para a Bíblia, passa pelo bem estar do próximo e tem uma forte ênfase comunitária e social. Traduzindo: você pode até ser feliz, desde que não seja egoísta.

Isso quer dizer que, se você quer buscar a plena felicidade, a idéia de final feliz que os filmes de Hollywood ou as novelas injetaram na sua cabeça como uma verdadeira “lavagem cerebral”, tudo bem. Só não tente usar a Bíblia ou Deus para alimentar isso. Nesse caso, continue com os contos de fada mesmo e dê-se por satisfeito. (Ou feliz!)

“Falam demais, sem ter nada a dizer.”

Uns dos maiores historiadores do século XX e início do século XXI, Eric Hobsbawm, escreveu num dos seus livros que: “ Quase todos os jovens de hoje crescem numa espécie de presente contínuo, sem qualquer relação orgânica com o passado público da época em que vivem. Por isso os historiadores, cujo ofício é lembrar o que os outros esqueceram, tornam-se mais importantes que nunca no fim do segundo milênio.” Essa frase traz à tona muitos aspectos bem interessantes de observarmos em nossos dias. Entretanto, no Café de hoje vou me fixar apenas em um: a relação informação versus conhecimento; pois, nunca na história mundial foi possível contar tantas histórias, nunca foi possível divulgá-las e propagá-las de forma tão ágil e com tamanha extensão. Qualquer pessoa pode acessar uma de suas muitas mídias sociais e contar um breve acontecimento corriqueiro de seu cotidiano ou traçar uma linha pela história sobre algo mais marcante.
Contudo, essas mesmas pessoas muitas vezes tem uma dificuldade ímpar de conseguir perceber que a grande História da humanidade explica muita coisa, e que certamente seus comentários sobre absolutamente tudo seriam muito melhores embasados com mais leituras sobre história, vida, sociedade, ciências, economia, política,etc, etc e etc.
Quando leio coisas nas mídias sociais a fora, chego a conclusão de que deveria existir um campo antes de clicarmos a opção enviar publicação, numa mídia social, como o Facebook, por exemplo, onde deveria aparacer uma mensagem com perguntas assim: “Tem certeza do que está escrevendo?,” “Consultou algum livro?” “Algum especialista no assunto?” “Fez um trabalho de campo?” “Apurou a informação?” “Entendeu a notícia?”. Tenho certeza que se essa opção existisse a minha e a sua timeline seriam bem menos poluídas, não haveria tanta informação sem formação, sem conhecimento, sem reflexão.
Não estou aqui, com meu Café de hoje fazendo nenhuma apologia à censura, muito pelo contrário, as pessoas devem ter liberdade de expressão, contudo baseadas em reflexões e conhecimentos, buscadas especialmente muito além do que os olhos podem ver.

Diário do dia a dia X – O dia em que um cachorro encontrou a perna de um defunto: Petrópolis e seu cemitério municipal

X.

“O cemitério havia sido esquecido, quase que como a maioria do que ali acha final morada. Mármores trincados, tampas rachadas e flores despetaladas. Potes e vasos com água sendo visitados por pernilongos, mosquitos e qualquer pequena forma de vida que por ali pudesse buscar somente mais um suspiro e um gole de água pra viver mais um dia. Assim como a loba que cuidara do pequeno filhote de homem, naquele lugar deu-se aos cães o papel de governar tal terra. Tudo corria bem até que os cães encontram a falta do que comer e descobriram que eles mesmos poderiam se alimentar daquilo que cuidavam. E foi assim que se deram conta do poder e da fonte de vida que tinham cuidado de toda aquela população de pessoas não-pessoas. Muitos se espantaram quando se deram conta de que naquele local o maior perigo não era nem mesmo o dos fantasma que se levantam quando ninguém vê, ou apenas quando se está de costas. O maior medo e perigo foi quando encontraram um cachorro comendo um pedaço de perna. De imediato qualquer um que ali morava se deu conta de que aquilo poderia ser algo de qualquer familiar seu. ‘Morte aos cachorros’, ‘morte a quem deixou aquela situação horrível’, e assim seguiram os hinos mórbidos da vida cantando de forma fúnebre a justiça. Talvez o que mais espante não seja apenas a cena bizarra e grotesca, quase que medieval, interiorana e rural, mas o sentimento de que o que de fato estava morto ou quase morrendo era aquele propósito de sociedade que diz se resolver e resolver seus problemas. Assim como os cães que descobriram seu apetite por carne, e foram consumar seus impulsos, descobrem os homens incumbidos do poder de curatela e de cuidado dos outros, aqueles outros que praticamente vivem suas vidas como viverão assim que ultrapassarem o limiar entre o existir e o não mais constar como número para repasses e desvios, apenas números do que já foi: em data seguida de estrela seu nascimento; em data seguida de cruz, sua morte.”

Pertença

Um dia, num passado remoto, você teve a sensação de ser pela metade. Você sabia que havia perdido uma parte de você; uma parte que, sendo sua, habitava fora. E você sentia falta. Morria de saudades dessa metade, essa parte que não estava ali. Essa parte ausente.

No reencontro, tudo que você sempre esperou encontrar em você estava ali: diante dos seus olhos e brilhava. E tinha o perfume perfeito, o formato, o encaixe, o ideal. Mas alguma coisa estava fora da órbita e o reencontro ficou faltando. Faltou o toque. Faltou o olhar, faltou a palavra. Uma única: o sim. Faltou o beijo.

E você desacreditou. Fingiu tocar em frente, escondendo o que sofria e dizendo não acreditar mais ser possível o encontro. Mas procurava. Sabia onde estava aquela parte. Sabia que ela estava perdida em outro espaço, outras coisas. Mas era ela que você procurava em todas as outras. Em tudo que procurou, era ela que você tentava encontrar.

Era no deserto interior, seco, ríspido, amargurado que se escondia o sorriso aberto e franco, o prazer, as delícias que você prometeu entregar só pra ela. Só pra ele você conseguiu e só com ela esse sorriso se abriria de novo.

Talvez, aquele pedaço de você já não exista mais. Talvez tenha se perdido pra sempre entre as amarguras, os sofrimentos e as lágrimas da lida, no longo e doloroso caminho de volta. É possível que ele tenha ficado enterrado no passado. Nos sonhos, nas quimeras do que poderia ter sido; na ilusão, no beijo imaginado, na mão que não segurou, na carta que não escreveu, no olhar que se desviou. Mesmo que você encontre esse pedaço, pode ser que já não seja ele. Mas sempre será você.

 

Voando baixo, bem baixo…

Para aqueles e aquelas que moram na cidade de São Paulo, ou na região metropolitana paulistana a polêmica da vez é a redução de velocidades na Marginais Tiete e Pinheiros. Só para situar você que não é do pedaço, as marginais são vias rápidas construídas literalmente as margens dos Rios Tiete e Pinheiros, que diga-se de passagem acabaram com as margens e o leito natural desses rios, contudo, esse é um papo para outra Mesa de Café. Tais vias foram criadas para ficar fora da cidade como uma alternativa para deixar o tráfego de trânsito mais rápido. As velocidades que eram de 90 Km (pista expressa) e 70 Km (pista local), diminuíram para 70 km,(expressa), 60 (central) km e 50 km ( local).
Quando vi toda a polêmica que nossa impressa “sempre tão imparcial” levantou sobre o assunto, como boa pessoa reflexiva e questionadora de esquerda, achei alguns exageros, principalmente pela falta de clareza na informação que esta medida é de caráter experimental. A propósito, aqui cabe uma valorização disso, leis no geral mudam de forma bem impactante nossa vida, nossos hábitos, costumes e rotinas, a ideia de criar um experimento prático antes de por de fato a lei em vigor é sempre muito inteligente, além de provocar uma profunda reflexão que a teoria em muitas oportunidades não dá conta da dinâmica prática da vida.

Mas voltando a minha reflexão sobre a velocidade da marginais, quando pude pela primeira vez dirigir nas condições da velocidade baixa percebi que definitivamente não é nada fácil diminuir tanto a velocidade assim. Confesso que ando sempre ali no limite da velocidade, gosto da aventura de dirigir rápido, e ainda que quisesse dizer que ando devagar as multas que já tomei por excesso de velocidade, inclusive nas marginais, me desmentiriam. É desafiador ver uma pista reta, livre e sequer conseguir trocar a quinta marcha. Manter os olhos fixos no 50 Km também é desafio, pois o velocímetro (do meu carro) marca a velocidade a cada 20 km, com números pares, o freio do carro tem que estar bom, e a atenção mais que redobrada.

Andar numa velocidade mais baixa, num mundo que tudo é feito para ser cada dia mais rápido, parece uma ironia muito grande, contudo, o passeio mais devagar na Marginal revelou alguns aspectos interessantes, como conseguir perceber quase que a harmonia dos carros andando num rápido prudente devagar, quase como um comboio coletivo, de pessoas que sequer vão ao mesmo lugar. É possível olhar melhor para os arredores e ver coisas que na alta velocidade passam bem desapercebidas, e certamente repensar a questão tempo, afinal, porquê temos que viver tudo o mais rápido possível? Porquê não aproveitar a vida de uma forma mais devagar? Por que a insistência de querer viver tudo da pressa?

Certamente, o governo municipal ao diminuir a velocidade estava pensando em outras demandas, tais como a diminuição de mortes no trânsito, e não essa reflexão um pouco mais profunda que eu tive. Mas por que não parar para pensar além dos que os olhos podem ver? Por que fazer a crítica pela crítica e não sair da caixinha, do lugar comum e pensar melhor sobre o cotidiano, sobre a vida? Por que não tornar a vida mais reflexiva e mais profunda? Por que sempre exaltar os aspectos negativos das coisas? Por que se cegar ao ponto de não conseguir enxergar os aspectos bons e positivos da vida em cidade?

Bora voar alto, mas bem alto mesmo em nossa imaginação e reflexão!