“Descobrimento”

Em 22 de abril de 1500 o herói português Pedro Álvares Cabral, numa viagem de meses além mar, pensando ter encontrado um novo caminho para a Índia, chega sem querer numa nova terra, num novo mundo. Treze caravelas desembarcam nesse novo mundo, e se deparam com os nativos do lugar, todos nus. Teriam morrido e chegado ao Paraíso? Ou apenas chegaram numa parte da Índia que ainda não conheciam? Para celebrar, quatro dias depois realizam nessa nova terra a primeira missa, para santificar de vez o lugar. Que história bonita, que linda e eventual descoberta….
É claro que como uma historiadora pós-moderna, quase com os dois pés fincados em ideologias mais à esquerda você nunca vai me ouvir contanto a história do Brasil assim, a menos que seja para brincar e ironizar. O fato é que  não teve nada de casual na viagem de Cabral. Ele sabia muito bem que estava a caminho de outra porção de terra além do continente europeu e do oriente que eles já conheciam. E temos vários historiadores que, baseados em documentos e cruzamento de dados já fizeram longos estudos sobre isso. E hoje nas escolas nem contamos a história com esse heroísmo todo (ou não deveríamos contar). Contudo o termo, a palavra “descobrimento” ainda me incomoda demais, e essa palavra continua sendo usada e muito.
Quando vou falar para meus alunos sobre isso tento sempre frisar que  “descobrimento” é usado apenas porque contamos a história a partir do eurocentrismo, ou seja, a Europa é o centro da história ocidental, logo, para a Europa foi uma “descoberta” essas terras além do mundo velho. Entretanto, o mais acertado nesse caso seria dizer que os portugueses chegaram em novas terras, que desde a pré-história eram habitadas por variados povos e tribos, fizeram daqui sua colônia e resolveram dar um nome a esse lugar. Em termos mais práticos, roubaram desses povos suas terras, seus costumes, sua vida simples, não o fizeram de forma tão violenta é verdade, foram conquistando seu espaço na base de muita ideologia e sufocaram as histórias desses povos nativos.
Hoje, 515 anos depois, tenta-se muito valorizar a história indígena e estudar a pré-história brasileira, mas na prática estamos muito longe, mas muito longe mesmo de quebrar o heroísmo do vilão português, e de fato valorizarmos os verdadeiros donos desse lugar. Por isso, cabe a mim e a você que está comigo nessa mesa refletir sobre isso e recontar cada dia mais essa história do jeito que ela deve ser contada, sem heroísmo português e sempre com um pedido de desculpas aos índios por tantos séculos de injustiças com sua história. Por tantos anos dizendo que esses povos são amaldiçoados e responsáveis pelo atraso dessa nação. Passou da hora de valorizar que de fato deve ser valorizado.
Assim, termino meu Café desse 22 de abril, com um brinde aos indígenas brasileiros, esses sim os verdadeiros descobridores dessa porção de terra além mar.

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A arte de viver da fé; só não se sabe, fé em quê…

Dia desses, li pelos jornais e pela internet, a inauguração do Ostentável “Templo de Salomão” na região do Brás, em São Paulo, com as ilustres presenças da honorável “presidentA” da república, Dilma que não parecia muito bolada, o governador de São Paulo, Geraldo “Picolé de chuchu” Alckmin, e mais outros notáveis políticos e autoridades públicas, além, é claro, o ilustre bispo Edir Macedo, ostentando além do templo, uma barba branca “profética”.

Se fora mencionar todas as coisas que me passaram pela cabeça vendo as poucas fotos do evento, entre elas, uma réplica da Arca da Aliança entrando no Templo no meio do espetáculo e a própria figura nefasta do dito bispo supra citado, não teria café que desse conta. Então, vou tentar ser sucinto e expor, minhas impressões ou delírios interpretativos de tais fotos. Acho que posso me dar o luxo de algumas elucubrações imaginativas, uma vez que não assisti ao show da fé em questão e mediante tamanha bizarrice.

Fiquei tentando entender, primeiramente, de onde saiu aquela barba do Macedo. Algumas pessoas me disseram que se trata de uma tentativa de se assemelhar ao Salomão do Templo. Como eu nem sabia que Salomão tinha barba, pois só o vi uma vez, na interpretação do Chapolin Colorado num episódio e de fato, ali ele estava de barba, achei estranho o bispo “beber” na mesma fonte que eu, em minha infância, mas ok…Seja como for, aí faria um certo sentido, porque o Silvio Santos mesmo, ao receber o convite para a tal inauguração, disse que só iria se pudesse ser o “Salomão”, porque não pode ter um templo de Salomão sem Salomão; então ele iria lá atender as pessoas e dar conselhos.

Bom, piadas prontas à parte, era mesmo de se imaginar que o grande desbravador ( na minha opinião) de todo o movimento neo pentecostal no Brasil, não ficaria por baixo vendo a proliferação de tantos Apóstolos, Patriarcas e outros nos arraias da fé. Ele tinha que dar o golpe final: quero ver agora quem se atreve a se considerar mais do que Salomão! Só se surgir um Jesus Cristo por aí, disposto a morrer na cruz e tudo! (Não to contando com o tal do Inri não, tá?)

No fim,  fui ver umas reportagens  a respeito das irregularidades das obras da construção do tal templo, alvarás, etc. Resultado: números tão exorbitantes quanto o próprio conceito em si de se construir uma réplica do Templo de Salomão, nas “medidas” que a Bíblia “afirma” terem sido as medidas do original. Mas essa questão, à luz da Teologia Bíblica já é assunto pra outro café.

 

Copa Extraordinária!

Nós que estávamos fazendo coro ao grupo das ruas da #NãoVaiTerCopa, não apenas superamos o sentimento de rejeição como nos rendemos inteiramente a uma paixão nacional absurda, gritante, dilacerada e platônica. Essa paixão parecia adormecida pelo futebol há muito mais de 4 anos. Talvez, pelo fato das últimas copas serem em outros países, vimos todos os jogadores, ou tivemos a sensação de ver os jogadores com menos vontade em campo.

Ou não!  Fato é que parece que a paixão brasileira pela bola em campo está no auge do seu fogo e as chamas estão queimando os jogadores em campo! Tínhamos na África do Sul, a bola que ficou famosa pelo trabalho que deu pra ser chutada: Jabulani! A bola do Brasil (Brazuca, acho) não ficou tão famosa, nem o tal do Fuleco. Mas temos Hulk e sua “vantagem glútea” tão comentada.  Temos os cabelos de David Luiz e seu gigante carisma! Temos as lágrimas descendo pelo rosto de todos nós, cantando juntos o Hino para além das duas estrofes do padrão FIFA.

Ainda falta bastante Copa! Já tivemos um número imenso de gols. Tivemos mordida! Tivemos zebras enormes, com muitas preferidas, seleções do grupo da morte, perdendo para times estreantes em oitavas e quartas de final. Tivemos artilheiros de time que nunca foi às quartas e foi! Tivemos um jogo desesperado de oitavas de final, com direito a pênaltis, que levou todo mundo às lágrimas, junto com as emoções à flor da pele com todos os meninos do Brasil em campo e nosso algoz de outrora convertido em herói! (Obrigado, Júlio Cesar e desculpa! Mea culpa aqui!). Tivemos os jogadores da Colômbia se classificando e comemorando gol com dança à La nossos craques bem humorados. Tivemos muita emoção! Ainda temos muita emoção pela frente. Copa do Mundo ? Tem muita ainda. Nossa paixão parece estar diretamente proporcional à nossa revolta anterior e haja visto o burburinho causado nas redes sociais. Os famosos “coxinhas” que nos perdoem, mas tá tendo Copa!   Tá tendo muita Copa!

 

Domingo eu vou (Quando ganhar na loteria) ao Maracanã!

Segundo pesquisas recentes, feitas por órgãos competentes e devido à falta de escrúpulos de órgãos incompetentes, houve, desde 2003 e acredito que boa parte em 2013,um aumento no preço  dos ingressos para os estádios de futebol  em torno de 300%!

A disparidade é tamanha que, pra se ter uma idéia, até 2007 (ano em que foi anunciado oficialmente o Brasil como sede da Copa do Mundo de 2014), o preço de ingressos e a inflação caminhavam, mais ou menos, em paralelo. Hoje, a inflação está em torno de 6 pontos e o preço dos ingressos, 13. Todos esses dados da mesma pesquisa.

Enquanto os administradores e gênios do marketing, se vangloriam da conservação dos estádios, fica evidente o motivo: nenhuma bunda tem se sentado nas cadeiras, logo, elas ficam conservadas!

Nos anos 80, o torcedor se preparava aos domingos de manhã: desde cedo juntava um troquinho pra ir ao Maracanã com fantasias e ali vivia o sonho de achar que estava vendo o maior espetáculo da terra! No momento, o espetáculo está mais seletivo que teatro da Broadway, salvo meu exagero revoltoso e os estádios ficam mais vazios. O resultado da pesquisa? Os barzinhos se tornaram os dutos que recebem os torcedores em dias de jogos.

É isso mesmo! O povo que não consegue mais ir pro estádio, acaba indo pro barzinho ver o jogo! A boemia agradece! Os gênios de marketing não entendem nada da paixão que o brasileiro tem por futebol. Pegaram os caras que “vendem” os shows do Paul Mccartney para pensar na venda dos ingressos de forma cada vez mais burocráticas!

Agora, imagina na Copa?!

Médicos, hispânicos, negros

Não consigo me recordar quantos médicos negros me atenderam durante minha vida inteira. Tampouco me lembro se algum dentista negro tenha examinado meus dentes. É evidente, não lembro porque não houve. A bem da verdade, desconfio que nunca tenha estado diante de um médico ou médica que tivesse a cor um pouco mais escura do que a minha (que me reconheço como pardo). Sabemos bem a razão de tão poucos afrodescendentes nesta profissão em nosso país.

A medicina sempre foi e ainda é uma atividade profissional elitista. As faculdades particulares destinadas às ciências médicas são caras; por sua vez, as universidades públicas possuem exames rigorosos demais para o padrão de educação que uma menina ou menino negros, de renda baixa, chegaram a ter em sua vida escolar em escolas municipais ou estaduais.

Há quem possa dizer que é tudo uma questão de empenho. Com um pouco esforço é possível chegar lá! Dizem tais coisas enquanto seus filhos estão voltando da natação, sendo esta parte da aula de Educação Física ministrada em algum colégio privado, com mensalidades que podem ser até mais altas do que o salário mínimo de um trabalhador brasileiro. A superficialidade na análise de problemas crônicos – e difíceis de serem resolvidos – tem uma função: aliviar a consciência de quem não faz nada para contribuir com a transformação da realidade.

Agora, entretanto, assistimos à chegada de médicos de diversos cantos para atenderem no Brasil em lugares de clara precariedade. Dentre estes, a maioria é cubana. Cubanos, hispânicos, negros. A sociedade brasileira não apenas se chocará ao encontrar mais médicos negros do que costuma ver em um hospital, como também se defrontará com o fato de que essas pessoas lhes falarão com sotaque de gente que fala espanhol.

Os médicos cubanos, especialmente os negros, nos servirão muito. Sua presença em terras tupiniquins realçará nossos preconceitos mais diversos e quebrará um forte paradigma social: a de que “doutores” geralmente são pessoas branquinhas com cabelos lisos. Para uma menina negra, da periferia, deparar-se com profissionais que lembram suas próprias características físicas, dar-lhe-á a sensação de que também pode chegar lá. De que não está relegada apenas a um grupo específico de atividades na sociedade.

Em um país no qual os negros ainda não ascenderam significativamente, ainda carecem de empoderamento em diversas instâncias, no qual atores e atrizes negros são convocados em maior número quando surge uma novela de época (por razões óbvias), esses médicos servirão de inspiração para muitos. Eles também podem contribuir para que, enfim, essa classe profissional comporte-se melhor diante da sociedade brasileira, deixando para trás a empáfia com a qual muitos demonstram visivelmente seu sentimento de superioridade. Que passem a tratar seus pacientes não como se prestassem algum tipo de favor, uma caridade, mas uma prestação de serviço profissional, pelo qual se está sendo remunerado!

E, por fim, que contribuam para a ideia de integração de nosso povo com os outros irmãos e irmãs da América Latina. Que seu sotaque nos instigue a desejar conhecer mais sobre a vida fora do Brasil porém dentro de nossa América. E não só isso, que o espanhol receba guarida entre nós, proporcionando que nos seja transmita a preciosa cultura de nossos irmãos latinos, tão próxima e às vezes tão distante de nossa vivência cultural.

Agora, as questões trabalhistas dessas pessoas, as discussões que têm surgido a esse respeito, podem realmente suscitar questionamentos sérios acerca das relações internacionais entre Brasil e Cuba, em última instância, sobre como nosso país se comporta no cenário internacional no que diz respeito a direitos e garantias trabalhistas de seus profissionais e de profissionais estrangeiros que aqui operam.

Entretanto, enquanto isso tudo continua a ser discutido, o que mais me empolga é que podemos olhar com esperança as possíveis e benéficas consequências sociais advindas desse projeto.

Foi dada a largada!

Não serei clichê de começar dizendo que sou pisciano, mas confesso que amo Astrologia e não vim aqui para falar de nada disso.
Esse cara aqui tem 19 anos e é estudante de jornalismo. Apaixonado por música e viagem, porém não menos crítico aos fatos. Recentemente, descobri um novo prazer: o teatro! Sou tudo além do que se vê, nasci para compartilhar experiências e inspirar sensações, curtir cada novo detalhe que o mundo tem a oferecer. Logo percebe-se que não saio do Facebook.
Certo dia, um colega me chamou para tomar um café, eu disse “por que não fazermos uma viagem?” Sempre tive essa fascinação por expandir horizontes, estar em contato com o novo e diferente, só que o mais longe que já estive foi no Paraguai. Para alguns, limitações físicas e financeiras, para mim, a chance perceber que a cultura está em todo lugar e que muitas vezes a diversão está debaixo de nossos olhos, basta prestar atenção no infinito a seu redor. E é assim que vamos levar meus próximos posts no Café das Cinquepoca: vou contar sobre minhas andanças por aí e torná-las aventuras (ou pelo menos tentar), quero desbravar a selva de pedra! Quem senão a internet para nos levar muito mais longe do que se pode imaginar?
Já escrevi em um site de moda e lifestyle e tenho planos para o mundo musical. Também fui organizador de eventos quando adolescente e pretendo reativar esse processo de produção um dia…
Aqui, prometo trazer um conteúdo interessante e prático para nossos seguidores, leitores e você, mãe, que eu sei que lerá fielmente meus textos. Aceito indicações e convites para open bar.

Câmbio, escrevo.

Giovani Faccioli