“Podes cortar todas as flores, mas não podes impedir a primavera de aparecer!”

 

Por ocasião dos 50 anos de golpe militar (exatamente 31 de março de 1964), nosso café hoje é servido com um certo gosto amargo na boca. O amargo de desaparecidos políticos e familiares sem esperança, de mortos e torturados, das mentiras enfiadas nas cabeças retrógradas da década de 60 e de hoje (e por uma piada pronta do destino, amanhã é dia 1 de abril, que dizem ser o dia da mentira, popularmente no Brasil) entre tantos outros dissabores que os anos de ditadura possam trazer à memória de tantas e tantas pessoas. Pessoalmente, de próximo a isso, só tenho uma tia que se envolveu em movimentos de resistência ao regime, mas que preferiu abortar a missão quando percebeu que conhecidos e amigos começaram a desaparecer sem explicações em Petrópolis. Anos depois se descobriu que nesta cidade linda existe uma casa em que muitos presos políticos foram torturados também.

Pensando sobre o golpe e recordando de um filme bastante interessante que assisti recentemente (“A menina que roubava livros”), cheguei à conclusão sobre um dos principais pontos de partida de qualquer golpe: a tentativa de “emburrecimento” de quem possa oferecer algum tipo de perigo ou de resistência. A cena que mais me marcou no tal filme foi de uma fogueira feita de livros em praça pública em que os cidadãos eram convidados a jogar seus livros nas chamas. É muito mais fácil incentivar a prática de esportes que prepara bons soldados,enfim.

Outra forma interessante, mas um pouco manjada de estabelecer regimes opressores é “demonizar” o que pensa diferente. Até hoje conheço pessoas que simplesmente odeiam ou morrem de medo de compositores como Chico Buarque. Por quê? Por que ele representa o demoníaco, o satânico ou simplesmente por que ele  pensa? O que se permite refletir, fatalmente leva outros a também pensarem. Afinal, a música é uma das formas mais sublimes de arte e isso toca a alma das pessoas, passando também pelo seu intelecto.

Fato é que nesta data, tudo leva a pensar sobre a liberdade e as responsabilidades que essa liberdade nos outorga. Ser livre tem consigo o peso de ser responsável por cada uma das escolhas que faço. Traz o peso de pensar antes de agir, de decidir por conta própria e assumir os riscos e conseqüências dessas decisões. Não dá pra transferir a responsabilidade  das escolhas a outrem, se tenho liberdade de escolha. Por fim, ainda que seja difícil assim, a liberdade ainda é o melhor caminho, a responsabilidade pessoal e de um com o outro ainda forma cidadãos melhores.

O título hoje é de Pablo Neruda.

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Afasta de mim esse “cale-se”!

Recentemente assistimos de camarote à “saia justa” da (ex) esposa de Caetano Veloso no programa de TV a cabo de mesmo nome! A dita cuja se atracou verbalmente a uma das apresentadoras do excelente programa num único round de luta pela questão das biografias não autorizadas. Ela defendia o direito do ex marido do qual hoje é empresária, de controlar e censurar (ora,veja!) autores mal intencionados que venham a “denegrir” a imagem do santo em tais obras.

Juntando-se a este coro, parece que temos Djavan, Chico Buarque (aquele que também foi exilado, autor da frase usada como título de hoje) e Roberto Carlos. Bom, este, apesar de eu ser um cafona fã de suas músicas, não surpreende ninguém!  Outro dia mesmo foi divulgado o nome do “rei” numa lista de queridinhos dos generais na ditadura. A Comissão da Verdade chegou a levantar a hipótese dele e outros, serem informantes do DOPS. Não sei se procede, mas não seria surpresa também.

Belo exemplo, hein ? Bem dizia o ditado antigo: “Todo demônio, depois de velho, vira abade!” Definitivamente, está explicado porque as composições desses cavalheiros perderam tanto em conteúdo da época em que eram perseguidos, exilados e torturados pra hoje. Não podemos julgá-los. Eles sabem, como disse Caetano, “a dor e a delícia de ser o que são”; eles que sabem os traumas que as torturas os deixaram e como lidaram com elas, mas daí a de oprimido passar a opressor, justamente no que diz respeito à arte, à cultura e à liberdade de expressão, francamente…

Do que eles têm que se envergonhar, gente? De quebrar tabus? De tentarem mudar o mundo? De tentarem ser revolucionários ? Ou de mudarem suas posturas revolucionárias com o passar dos anos? Já dissemos: a idade os outorga essa liberdade! Eu teria vergonha de estampar a capa da revista Caras! Aliás, foi isso que o nosso supra gênio-genioso Caetano fez com a Paulinha! Paulinha, apelido carinhoso da ex esposa e atual empresária e protetora da privacidade!

Faça-me o favor! “Cala a boca, Bárbara!” *

*”Cala a boca, Bárbara” é outro título de uma música de Chico Buarque.

Politicamente (in)correto!

A gente era tão feliz e não sabia! Mas agora, não se pode nem dizer isso, sem correr o risco de uma ONG a favor das pessoas que não são saudosistas virem nos processando, ameaçando, etc. Não sei se é porque eu cresci numa época que eu podia rir dos Trapalhões fazendo piadas com tudo, mas essa noção metida à besta do que se tornou politicamente correto, imposta pela mídia me dá nojo. Será que “nojo” eu posso escrever ou seria melhor,” náusea”?

O mais triste disso é perceber que temos hoje hipócritas e falsos moralistas de todos os tipos, nos ensinando as boas maneiras. Não posso chamar mordomo (até porque nem conheço nenhum) de mordomo. Mordomo agora virou copeiro! Mas em compensação, a censura tá na tv, mais viva do que nunca, no que politicamente correto, aprendemos a chamar de “classificação etária”. O nome mudou, a repressão é mais ou menos, a mesma.

A vantagem é que, como a tv é muito honesta e politicamente correta, se ela diz que o seu filho de 10 anos não pode ver determinado filme, você pode ficar tranquilo: tire o guri da sala e descanse nos sábios ensinamentos da mídia. Aquela moça quase sem roupa dançando de manhã e intercalando os desenhos animados de guerras inter galácticas entre mutantes e Ets que querem dominar a Terra e exterminar todo mundo cuida da educação que faltar! O que o moleque vê na internet ? Bom, isso já é outro papo! Ninguém vigia 24 horas por dia. É ou não é ?

Ninguém fuma e ninguém bebe na tv. Em compensação, o que se faz de sexo! A qualquer horário, canal, programação, temos no mínimo, insinuações sexuais de todos os tipos e nem um pouco discretas. Mas também, vivemos no Brasil! Isso está fervendo nas nossas veias! Mesmo sem perceber, aflora por todos os buracos do nosso corpo! E só falar em “buracos” eu sei o que já não posso ter provocado nos leitores mais animados!

O que precisamos? Tentar criar uma nova geração, como disse “seu” Lulu: de gente fina, elegante, sincera e até um pouquinho mais centrada. Gente que goste de trabalhar, que seja honesta nos negócios, mas que tenha na honestidade um princípio, um valor inegociável mesmo.Tentar formar uma mentalidade que não seja meramente sexual (pra não dizer pornográfica mesmo porque deve ser politicamente incorreto!), que só pensa naquilo e em fazer piada. Formar gente que goste de chegar no horário e não goste tanto de tirar vantagem em tudo, o tempo todo. O que de verdade revolucionaria o Brasil? Educar nossa gente! E quem sabe, um pouquinho de terapia.