“É Carnaval, é a doce ilusão…

…É promessa de vida no meu coração!” Esta foi a primeira linha do samba enredo da Estação Primeira de Mangueira, escola pela qual simpatizo muito, no carnaval carioca e que, em 1992, ia para a Sapucaí homenageando o nosso maestro soberano, Tom Jobim!

Não sou, nunca fui, um grande exemplo de folião, muito menos de samba no pé, mas acho que esses cinco dias de festa tem seu papel social na realidade do nosso povo. É a catarse de uma gente humilde, empobrecida e oprimida por tantas violências e quando falo em violência, não me refiro somente aos atos propriamente ditos que todos conhecemos muito bem, se não por experiência própria, pelos jornais: assaltos, sequestros, assassinatos, estupros e tantos outros, mas também a violência a que essa gente bronzeada é vitimada todos os dias pela corrupção e abuso de quem exerce o poder repressor, seja ele de ordem econômica, política, religiosa, etc.

Você pode argumentar e eu concordo, os excessos cometidos nesses dias de folia podem acarretar em outros atos de violência, mas o mais comum é, sem preconceitos, o morro descer, tomar posse da avenida e, nem que sejam nesses breves momentos de ilusão, sonhar que é dono da rua, que a festa é pra todos e que não importa quem é quem porque entre pierrôs e colombinas, ricos e pobres sambam juntos e se fazem iguais naquele momento.

É a hora em que tudo pode! Carnaval é a verdadeira festa da democracia! Você pode não ter recursos pra Marquês de Sapucaí pra assistir ao Desfile das Grandes Escolas do Rio ou o Sambódromo de São Paulo ou ainda,os Trios Elétricos de Salvador, mas se você realmente tem prazer em sambar, os blocos de rua estão voltando, aos poucos e com força em quase todas as cidades do país. Alguns  são até “bem família” e não é difícil ver pais levando seus filhos pequenos pra pular o carnaval nesses blocos hoje em dia.

Seja qual for sua postura nesses dias de festa: sair e se acabar de pular até a quarta feira ou se recolher em retiro pessoal ou religioso, aproveitar pra ler, jogar vídeo game ou passar tempo com pessoas que ama, o importante é ter em mente que este momento também é momento de consciência e respeito à vida! Respeite a vida de quem pensa ou faz diferente neste carnaval! Respeite a sua vida e a preserve! Nosso café fica aí hoje, folião, com dicas bem clichês, mas sempre importantes, desde os tempos do Velho Guerreiro, Chacrinha:  “Bota camisinha, bota, meu amor!” * e não esqueça que “cachaça não é água, não!” **

*Marchinha de conscientização contra a Aids do final dos anos 80, começo dos 90.

**Outra marchinha antiga de carnaval.

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Sentimentos que me dizem. Pensamentos que me calam.

 

Eu que sempre me considerei um cara muito racional, não poucas vezes me vi traído pelos sentimentos e impulsionado por alguma paixão (no sentido romântico e no sentido meramente passional, ou seja, motivacional também) a tomar alguma atitude da qual me arrependi ou pelo menos, DEVERIA ter me arrependido. Sempre imaginei que o que poderia me dizer as respostas para as minhas dúvidas e meus questionamentos seriam meus pensamentos. É o nosso jeito ocidental de resolver as coisas: pensar, pensar, pensar…Talvez por alguma influência italiana no sangue, os sentimentos, os impulsos, a cólera também sempre tiveram seu espaço no modo de agir deste carcamano rechonchudo que vos fala.

Ao contrário de nossos grandes pensadores, os sábios orientais partem de outro pressuposto, a saber, a memória. Quando você e eu temos problemas, tendemos a pensar; quando um oriental tem alguma dificuldade, ele tende a se lembrar. Não à toa, o profeta bíblico disse: “Quero trazer à memória o que me pode dar esperança”. Ao invés de quebrarem a cabeça pensando em soluções, eles recorrem aos grandes feitos divinos do passado, os livrando e socorrendo e isso lhes alimenta a fé de que, como foi no passado, assim será novamente.

E aí, somos apunhalados bem nas costas pelos nossos pensamentos! Nossa consciência que nos faz calar os sentimentos mais profundos, pelo que o ego afirma ser inadequado de transparecer. Calamos “a boca” de desejos e verdades profundas de nosso coração em favor de convenções de nossa consciência ou coisa que valha.

Ultimamente não ando procurando e muito menos, oferecendo respostas. Antes, acho mais válido fazer as perguntas. Dizem que é isso que um bom pesquisador faz: perguntas. Respostas às vezes acontecem, às vezes não. Mas aí as perguntas ficam pra futuros pesquisadores.  Se fôssemos pesquisar o nosso interior e o mistério profundo dos nossos sentimentos e da nossa consciência ou do nosso inconsciente, muitas perguntas ficariam sem respostas mesmo, então, por que se afligir por pensamentos?

E aí fica com você dar a resposta (se você puder decidir isso!) sobre quem vai ouvir : seus pensamentos, sua consciência, seus sentimentos, sua inconsciência, seus instintos. Eu prefiro não responder. E perguntar.

13 de maio: dia de consciência!

Eu sei que você está acostumado a me ver te fazendo rir e tudo mais, mas hoje é dia de conversar sério. Não que as minhas graças não tenham, quase sempre, um Q de crítica ou reflexão. Eu sei também que você é inteligente o bastante pra saber que o riso é umas das formas mais sábias de fazer as pessoas se abrirem e com isso, entender verdades profundas, sem ofender ou desrespeitar. Aliás, é exatamente sobre isso que vamos conversar hoje: respeito! Respeito é bom e nós gostamos!

Nasci e cresci no meio daquelas típicas piadinhas que você também conhece e entre uma graça e outra, alguém que se dizia “não racista” e se gabava por isso, soltava a pérola: “Ah não! Eu não sou racista! Eu tenho ATÉ amigos PRETOS! Não vê, fulano?” ou a outra afirmação “contra o preconceito”, ainda pior que esta primeira: “Dona Ciclana? É a PRETA de alma mais branca que eu já vi!” Essa , especialmente, me confundia muito. Na infância, ficava pensando: Mas e alma tem cor ?

Fato é que, nesse 13 de maio, caso você se lembre, comemora-se a Abolição da Escravidão no Brasil e curiosamente, ao contrário de outras datas, não é feriado. Não sou defensor de feriados(Nem contra eles). Sou defensor das prioridades corretas. Ainda vivemos num mundo em que atletas negros são comparados com macacos e a forma de protesto que encontramos é ganhar dinheiro vendendo camisetas afirmando que “somos todos macacos”.

E se pudéssemos sonhar com um mundo em que fôssemos todos humanos? E se pudéssemos sonhar com um mundo de diferentes que se respeitam e se tratam como iguais? E se pudéssemos sonhar com um mundo de oportunidades iguais pra todas as pessoas, independente de credo, cor da pele, condição social, etc? Enquanto isso, sou obrigado (e você não precisa concordar comigo, desde que me respeite, como eu faço com você!) a ser a favor de cotas, sim! Prefiro favorecer um pouco (e bem pouco mesmo, meramente com um pouco mais de oportunidade, finalmente!) um grupo que sempre foi diminuído e excluído do que aplaudir ao favorecimento de quem já tem tudo e só usufrui disso, sem pensar no outro e se julga superior ou melhor porque teve oportunidades e as aproveitou ou pior ainda: porque faz parte de uma minoria étnica que não representa a realidade brasileira, em absoluto.

É o mínimo que eu posso fazer pra aplacar minha consciência tão mal educada nos caminhos da diferença e do preconceito e tentar, com isso, redimi-la das piadinhas preconceituosas que eu também acabo rindo e inclusive, reproduzindo, se não me cuidar! E você também, que eu sei!