Não será fidelidade, se for por falta de oportunidade.

De todos os atributos divinos, a fidelidade sempre me encantou e chamou atenção. Nem mesmo a onipresença ou nenhuma outra chega a me comover tanto. Talvez isso se explique pelo fato de que a fidelidade é, ao mesmo tempo que atributo divino, uma virtude que os homens (e mulheres) também podem cultivar. Aí que está! Podem, mas nem sempre o fazem! Certamente é por isso que esse atributo divino me encanta, pois nos homens essa é uma virtude em extinção! Uma pena. Nós que estaríamos mais próximos de Deus se conseguíssemos ser fiéis, não o somos e ainda mais nos distanciamos.

Se a gente pensar só em fidelidade sexual entre casais, seríamos profundamente medíocres, mas mesmo nesse quesito, a fidelidade saiu de moda. Nem chega a ser escandaloso como o foi em outra época, que um casal tenha aventuras ou casinhos extra conjugais, considerados “sem importância” e quem não o faz é visto com “maus olhos!” Mas mais valiosa ainda é a fidelidade de vida. Essa não requer relacionamentos conjugais apenas, mas se brinda a todos os relacionamentos. É ainda mais profunda e bela pois exige mais do que relações sexuais monogâmicas.  Se é fiel de vida aos amigos, aos princípios, a si mesmo. Ser fiel a si mesmo pode se tornar uma das tarefas mais árduas e ingratas do mundo.

Engana-se novamente quem pensa que fidelidade só tem a ver com não enganar ou não trair nos sentidos mais simplistas dessas palavras. Quer um bom exemplo de fidelidade? Posso te dar dois.  Quantas vezes ao se atrasar para um compromisso ou para o trabalho você não ficou o trajeto inteiro pensando na desculpa e na mentira que ia inventar pra se safar de uma repreensão, mesmo sabendo que nem você e nem seu chefe acreditariam nessa desculpa? Isso é infidelidade. Infidelidade porque você assinou (supostamente porque quis) um contrato determinando a hora em que deveria chegar, entre outros deveres e direitos como contratado.

Outro exemplo, ainda mais radical? Quantos livros você pegou emprestado e nunca devolveu ou se o fez, o fez em péssimo estado, ou seja, não tomou o mínimo cuidado com um bem que não lhe pertencia? Infidelidade. Pode parecer e talvez até seja bastante radical, mas fato é que nós em geral somos educados pra ser infiéis, acostumados desde bem pequenos a inventar desculpas, justificativas e dar jeitinhos pras nossas manobras e enganos.

O maior problema disso é nos tornarmos cada vez mais desconfiados, vivendo o tempo todo na defensiva com tudo e com todos e a cada dia, mais cínicos. A fidelidade é um tema tão interessante que mesmo Jesus Cristo em um de seus sermões aos discípulos afirma: sejam fiéis nas pequenas coisas se quiserem ter responsabilidades maiores.  Entre viver na defensiva esperando pela infidelidade de todos ao meu redor, na tensão de qualquer traição iminente, eu prefiro escolher uma vida de fidelidade. Se terei fidelidade de volta da parte dos outros, não sei; mas viver mais relaxado vale a pena. Fidelidade nos dá uma chance de recuperar um pouco a imagem e semelhança com Deus. Em todo caso, viver um pouco mais tranqüilo com a própria consciência é melhor!

 

*Título é uma frase do Marquês Magno Salustiano

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A Páscoa e a Aliança Intacta

Pensar em Páscoa para além de chocolates é pensar numa aliança firmada muitos anos atrás entre Deus e um povo.  É o ato fundante do povo judeu, que a partir da experiência do Êxodo ( “Eu vos adotarei como o meu povo  e serei o vosso Deus” Ex 6.7) passa a ser povo escolhido ou o que seria mais apropriado, povo que escolhe. Escolhe seguir os mandamentos de Deus e recebe o cuidado e o amor divino em troca, numa aliança, acordo sagrado.

O segundo ato fundante do povo judeu e aí encontramos o elo de ligação entre o judaísmo  e o cristianismo que segue seus passos: o sofrimento.  Da destruição do Templo, as perseguições, sem esquecer do drama de Jó, Auschwitz e em todos esses momentos a  mesma pergunta permeia nossas mentes : por que sofrimento num mundo de aliança?

A resposta que parece mais óbvia e logo vem a mente é: o povo quebrou a aliança. Desde os profetas recordando inúmeras vezes ao povo o quão distantes estão da justiça e a misericórdia;  Moisés em um ataque de fúria quebrando as tábuas pela idolatria do povo até os amigos de Jó, supondo que ele tenha cometido gravíssimos pecados. Entretanto, nem Jó e ninguém mais que analise os fatos encontra um pecado tão grave que justifique sofrimentos horrendos como aquele povo enfrentou ao longo dos séculos.

É nesse contexto que o cristianismo se aproxima. É nesse contexto que a Páscoa cristã assume significado de nova aliança. No contexto do sofrimento, comum a judeus, gentios, cristãos e qualquer outro seguimento da sociedade que Jesus Cristo ganha significado em sua mensagem ao mundo. A mensagem de Deus ao mundo:  mesmo em meio ao maior sofrimento possível, a aliança se mantém intacta.  Mesmo em meio  à agonia física, ao ostracismo social, à noite escura da alma, Deus está profundamente conosco – Emmanuel. O amor de Deus permanece conosco para a eternidade. Esse amor pode não se traduzir em forma de buona fortuna, boa sorte: saúde, riqueza e outros deleites mundanos, mas nos é oferecida uma pérola de valor inestimável: o relacionamento com o divino.

Ao longo das nossas histórias, clamaremos, do alto das nossas cruzes: “Meu Deus! Meu Deus! Por que me desamparaste?” (Salmo 22. 24 e Marcos 15.34), mas a chave é que o grito ainda será por “MEU Deus”, o Deus da aliança, aliança intacta mesmo em meio às nossas crucificações.

 

Bibliografia:

LEDER, Drew. “Yehoshua e a aliança intacta”. artigo publicado no livro Jesus segundo o judaísmo. BRUTEAU, Beatrice (org.). São Paulo: Paulus, 2003.

Você não gosta de mim, mas sua filha gosta!

Vê se pode ? Custei a acreditar que viúvas de militares (por que será?) e simpatizantes foram para as ruas de São Paulo e Rio numa chamada marcha com Deus pelas famílias, no que seria um “revival” saudosista em comemoração aos 50 anos de golpe militar. Jurava que se tratava de uma piada de internet, quando um amigo jornalista veio me contar que fez a cobertura da marcha antiditadura que acontecia simultaneamente.

Ter familiares que se envolveram nas lutas de resistência ao regime, conhecer pessoas que sobreviveram às torturas e contam, com lágrimas nos olhos ao lembrar da dor, do que passaram nas mãos de seus carrascos e ainda nos seus exílios; ver notícias de desaparecimentos e depoimentos atuais e documentos sérios como “Brasil Nunca Mais” e mais: tendo um pouco de juízo, só o que resta é perguntar: o que essa gente que vai pra rua pedir intervenção militar tem na cabeça ?

Ainda bem que as Forças Armadas não parecem demonstrar interesse em repetir o feito de 50 anos. Espero mesmo que eu esteja só vendo algo semelhante a uma piada de muito mau gosto.  A única coisa que se aproveita do período de ditadura militar nesse país (se é que isso pode ser dito) foram algumas composições de gênios como Chico Buarque, e é importante que se diga, continua um excelente compositor sem intervenção militar alguma e teria sido sem sofrer tortura. Um exemplo é a canção “Jorge Maravilha” da qual tiramos o título de hoje, em que Chico “homenageia” um dos generais presidentes que o perseguia e cuja filha era fã de suas canções.

Mas uma coisa é fato: estamos vivendo momentos épicos de ignorância e reconhecimento de burrice assinada em atestados públicos presenciando aberrações como essas marchas. O mais triste é a pretensão de dizer que é uma marcha “com Deus”. Estou convencido de que as formas de Deus abençoar e cuidar das famílias humanas estão muito distantes de intervenções de forças militares.

Como cristão, metodista e, pela primeira vez usando esse blog pra dizer, como pastor metodista não posso admitir a menção da presença do Deus  comprometido com a vida, que conheci dentro da igreja Metodista, igreja que luta por justiça, respeita as diferenças, que não aceita e se posiciona contrária a qualquer tipo de opressão, repressão e violência,nisso tudo. Preciso dizer e tenho certeza disso: Se existe um lugar em que Deus NÃO estava era nessa marcha fajuta de um bando de retrógrados e viúvas com saudades.

Um legado que renova nossas esperanças.

Meu primeiro contato com o que foi o Apartheid aconteceu quando estava na sétima série, em 1996, nos estudos sobre geopolítica quando nosso professor de Geografia, Benedito, nos passou o filme “O poder de um jovem” (que inclusive super recomendo para vocês assistirem). No filme o menino P.K. torna-se um grande ativista antiapartheid porque sente ele próprio o preconceito. Quando assisti ao filme pude então entender melhor o que tinha sido esse regime de segregação racial. São justamente nesses momentos em que conheço mais sobre a história da humanidade é que eu sempre me pergunto: como a raça humana foi capaz de fazer isso?? Que estupidez!

Mas foi ao estudar o Apartheid que me deparei com aquele, que, talvez possamos chamar de uma das maiores personalidades do século XX, Nelson Mandela. Eu me lembro de que cada coisa que lia sobre ele achava o máximo. Seu exemplo de luta por igualdade, sua perseverança e sua espera eram bem interessantes pra mim. E o que eu achei mais genial, até aquele momento, era saber que ele tinha ficado preso por 27 anos, que tinha dado a volta por cima, e chegado a presidência de seu país, podendo lutar de uma forma ainda intensa contra os resquícios do regime racial que o tinha aprisionado. Era um exemplo de superação, confiança e fé. E por falar em fé, o que mais me deixou feliz sobre ele foi o dia em que descobri que Mandela era metodista. Pensar que ele frequentou o mesmo tipo de Escola Dominical que eu, que muito dos seus princípios sobre igualdade, justiça, fraternidade, união, amor, ele provavelmente apreendeu porque era um cristão metodista. Descobrir isso foi bem marcante para minha própria caminhada de fé, renovou minha esperança na igreja que eu escolhi fazer parte. Como diria a canção: “Se todos fossem iguais a você que maravilha viver…” . Apesar de orgulho não ser um sentimento bom para se desenvolver, eu tinha um orgulho todo especial ao dizer: “Nelson Mandela é metodista!”

Acho que todas nós, na última semana lemos muito sobre seu legado, e não quero com o meu Café de hoje apenas ir na modinha, mas se semana passada eu dizia aqui nessa Mesa que muitas pessoas são boas e não são reconhecidas enquanto estão vivas, Nelson Mandela certamente é um exceção, creio eu que é quase impossível conhecer ainda que minimamente sua história e não o considerar um grande herói dos nossos dias.

Pessoas como Nelson Mandela devem ser celebradas e lembradas constantemente, em várias esferas, seja na política, na luta contra o preconceito racial, em nossas igrejas. É pela história de vida de pessoas como Mandela que temos nossas esperanças renovadas, que ainda podemos acreditar que um mundo melhor é possível. Mandela se vai justamente em tempos de advento, que para nós cristãs e cristãos não é mais um tempo de espera pelo Deus que de faz menino e nasce numa estrebaria, nossa espera de agora é pelo Jesus ressurreto, que nos ensina diariamente que temos que lutar contra todas as mazelas destes tempos tenebrosos, que devemos viver em amor, paz e justiça, até ao dia em que todas e todos nós desfrutaremos de Sua preciosa presença na eternidade. E com certeza firmado nessa esperança é que Mandela viveu. E é nessa esperança que também devemos viver!

Como minha fé sobreviveu à igreja

Embora algumas pessoas acreditem que eu mantenha um intenso ritmo de leituras, não sou um leitor tão ávido quanto gostaria de ser. Luto sempre contra uma indisciplina e dificuldade de concentração que durante toda a minha vida me desafiam diariamente. E em sendo um leitor comedido, sou ainda pior “releitor”. Explico: poucas foram às vezes em que consegui reler alguma obra literária, nessas poucas vezes raríssimas foram as que eu tive prazer.
 
Uma dessas raras exceções é um livro que, de vez em vez, sempre que me sinto fragilizado na fé, tomado por dúvidas ou sem motivação para seguir na jornada da vida, recorro a fim de encontrar nele algum consolo, alguma inspiração que me ajude refazer minhas forças e buscar energia e saúde espiritual para continuar em frente. Esse livro chama-se Alma Sobrevivente, do escritor estadunidense Philip Yancey.
 
É um livro simples, sem muita sofisticação em sua forma ou no conteúdo. Não obstante, isso não o compromete. Trata-se especificamente de um livro sobre a fé, uma obra cristã, de um autor com um conhecimento geral vasto, e que não trilha os caminhos do academicismo teológico que, por vezes inúmeras, apresenta-se profundamente distante das inquietações cotidianas e existencialmente essenciais de pessoas que, acima de tudo, desejam desenvolver sua vida espiritual com saúde e equilíbrio.
 
O livro é dirigido especialmente a um público que parece aumentar a cada dia, dos decepcionados com a religião – muitos, na verdade, frustrados em relação às instituições religiosas, mas que ainda aspiram, de alguma maneira, vivenciar sua fé. Assim, Yancey organizou alguns relatos a respeito de treze pessoas que, segundo ele, contribuíram com a sua jornada espiritual; mais que isso, ajudaram-no a não cometer um “suicídio institucional”, que resultaria no abandono definitivo da igreja – enquanto instituição e organização humanas.
 
Como em quase todos os escritos do jornalista e editor associado da Cristianity Today, as ideias estão permeadas do precioso conceito da graça cristã. Na verdade, cada personagem mencionado é desvestido pelo autor como um misto entre êxito e fracasso diante dos ideais cristãos. Alguns são pessoas que, pela leitura de suas obras ou relatos biográficos superficiais, chamaríamos de profetas ou santos. Mas que, contudo, não passaram de seres humanos como qualquer um de nós. Seres humanos que, apesar dos pesares, manifestaram em suas obras artísticas ou sua vivência cotidiana preciosas marcas do Evangelho.
 
Os dados biográficos são entremeados com relatos das próprias experiências pessoais de Yancey. Assim como retoma sempre o tema da graça ou do sofrimento humano, que lhe são intimamente caros; não se furtando em reescrever acerca dos abusos e decepções que sofreu em sua vivência religiosa na infância até o início da juventude, e o quanto isso gerou nele marcas indeléveis.
 
Aí está a riqueza do livro, o fato de que não esconde a realidade crua e nua – e por vezes triste – que teima em existir paralela à pregação do Evangelho de Jesus. Uma realidade que, embora parte profundamente presente na vida daqueles que se dizem cristãos, contraria significativamente os altos valores da fé professada por eles.
 
Suas exposições pessoais, junto das narrativas biográficas daqueles a quem ele chama de mentores, são um verdadeiro alento para aqueles que já sofreram com os exageros decorrentes do convívio religioso doentio, para aqueles que já se cansaram de tentar sustentar um padrão comportamental formatado por líderes persuasivos mas sem alcançar êxito, daqueles que, estando feridos e necessitados de consolo, não encontram nas comunidades de fé o refúgio acolhedor que deveria ser a marca dos que amam a Jesus.
 
Suas traumáticas experiências, a maneira como as assimilou e que lhe proporcionam hoje belos frutos também motivam e ajudam o leitor a encarar com serenidade suas próprias mazelas. Para encontrar a cura pessoal, faz-se necessário encarar a desconfortável porém inevitável realidade – muitas vezes desconsiderada, quando estamos tomados pela mágoa – de que a igreja é constituída por seres falhos, pecadores em busca de redenção, mas que muitas vezes cometem falhas ao tentar ministrar a outros sua fé e que, em sua busca por servir a Deus, não poucas vezes assumem posturas diametralmente inversas àquelas anunciadas pelo seu Senhor.
 
Talvez esse seja o grande desafio das pessoas que se assumem feridas pelas igrejas: trabalhar (tratar, aprender a administrar) suas experiências passadas a fim de não serem destruídos pela amargura gerada por lastimáveis lembranças. Das pessoas citadas por Yancey, nenhuma delas parece ter vivido sem qualquer conflito existencial ou sem qualquer inadequação à qual tiveram que se adequar ou, pelo menos, suportar. Alguns mais exitosos em sua caminhada espiritual, outros mais desajustados. No entanto, possuidores de biografias que muito têm a contribuir conosco. Martin Luther King, Gandhi, Henri Nouwen e G. K. Chesterton são algumas das personagens abordadas pelo escritor.
 
Para mim, o livro não apenas se tornou uma fonte à qual recorro em dias de tempestade e incerteza, mas também possui forte significado existencial. Recordo-me ainda hoje que, há aproximadamente dez anos, procurava alguma leitura que pudesse me ajudar em meus conflitos a respeito da igreja. Na verdade, eu acabara de começar a tomar consciência de certas coisas que outrora não notara. Desde regras que não faziam o menor sentido (“não pode isso, não pode aquilo!”), que não tinham qualquer relação verdadeira com a vida cristã, à manipulação dos membros para que os líderes alcançassem seus fins pessoais, também a hipocrisia mascarada, o moralismo perverso e mesquinho (que não gerava outra coisa senão mais hipocrisia) e a manutenção de um ambiente que favorecia o empobrecimento intelectual, a inexistência de consciência cidadã e que alimentava uma visão política de gueto, sustentada pela inventiva fundamentação que asseverava: “crente vota em crente!” – sem instigar as pessoas a um espírito crítico independente, maduro, que pudesse julgar os melhores candidatos por si mesmos.
 
Não gostaria que alguns pensassem, após esse texto, que culpo a religião por todos os meus vícios e defeitos. Isso não seria verdade, visto que tenho aprendido a assumir minha responsabilidade pessoal diante das situações às quais me submeti, discursos que aderi e coisas que fiz. Eu seria mesquinho se não assumisse que o moralismo religioso, que contribuiu para que pulsões e neuras me acompanhassem durante anos, teve como forte aliado nesse processo minha própria mente, com um perfil psíquico sujeito a determinados transtornos.
 
Enfim, para além das coisas que comentei, a leitura de Alma sobrevivente fora um dos eventos que viriam a contribuir para que eu começasse a escrever. Entretanto, a despeito de ter um perfil bastante reativo, sentia que não podia nem tinha (hoje sei) maturidade para agir a respeito das tensões que vivia diante da religião, porém não conseguia me calar absolutamente; e como não havia uma tribuna na qual pudesse discursar ou questionar livremente e sem censura sobre os temas que me incomodavam de modo torturante, resolvi escrever em um blog. A internet era um lugar livre, lá poderia “soltar” minhas indagações (o que fora um alívio) de modo mais tranquilo. Não obrigava nem saía anunciando às pessoas o que pensavam, mas deixava tudo disponível na internet pra quem quer que se interessasse. Não havia ainda nem imaginado criar o blog Visão Integral, mas os primeiros escritos em outro sítio dariam origem ao espaço no qual escrevo hoje e que já está na ativa (ainda que com muitos altos e baixos) há quase sete anos.
 
O primeiro texto que escrevi, ainda com maior sofrimento que hoje, e bem pior do que aqueles que hoje escrevo (que ainda são custosos a sair), fora uma indicação do livro sobre o qual converso agora. Ou seja, é a segunda vez que, de forma escrita, recomendo tal obra e manifesto a importância que tem em minha vida. Há outras também muito importantes e às quais, “milagrosamente”, recorro para releituras, porém esta possui maior significado entre todas, motivou-me à prática que há muito me tem dado imenso prazer além de contribuir com meu próprio crescimento espiritual, a escrita.
 
Tamanho é o valor desse ato para mim que, a fim de descrever sua importância para meu bem-estar interior, teria que me prolongar ainda mais, e isso deixaria esse texto mais extenso e cansativo do que o desejado. De modo que deixo esse tema para outra conversa escrita.
 
Finalizando, até para que não percamos o rumo da prosa, fica então a sugestão desse precioso trabalho, pelo qual nutro imenso carinho: Alma Sobrevivente, que possui como subtítulo na publicação em português da Editora Mundo Cristão a frase “Sou cristão apesar da igreja”, mas que no original  em inglês   ostenta, a meu ver, maior ousadia e provocação, afirmando “Como minha fé sobreviveu à igreja”. Espero que gostem da leitura, que seja edificante. Entretanto, mais do que sugerir um livro exato, recomendo a prática da leitura como um caminho estreito que conduz a infinitas descobertas, a busca pela convivência pessoal com mentores e conselheiros reconhecidamente sábios, a comunhão com companheiros de fé, a atenção e o investimento disciplinado na jornada de crescimento espiritual.

Experimentar…

Temos vivido cada dia mais num mundo onde tudo é muito rápido, muito superficial, parece que vivemos se sentir muito a experiência que as coisas podem nos proporcionar.

Na última semana, eu participei da 62º Wesleyana da Faculdade de Teologia da Igreja Metodista, que teve como tema: “Experimentar Deus Hoje – A propósito dos 275 anos da experiência religiosa de John Wesley.”

Pra você que está tomando Café comigo e que não tem a menor ideia do que estou falando cabe uma breve história. A Igreja Metodista surgiu como movimento de avivamento durante a segunda metade de 1700, na Inglaterra. John Wesley é considerado o fundador desse movimento e o marco Histórico que celebramos enquanto Metodistas é a experiência que ele teve no dia 24 de maio de 1738, durante um culto, com a leitura de um prefácio sobre o Livro de Romanos. No instante em que alguém lia esse texto, John Wesley, segundo suas próprias palavras, sentiu seu coração estranhamente aquecido, experimentou Deus de uma maneira que ele não tinha experimentado antes, e com isso pode entender melhor sobre Sua graça e amor ao mundo.

Como boa cristã metodista leiga que sou, sempre penso como essa experiência de Wesley foi profunda, inspiradora, transformadora da realidade ao seu redor e que transcendeu seu tempo. Isso desde sempre me motivou muito a buscar minhas experiências também.

E durante a Semana Wesleyana passei por tantas outras experiências com Deus através de tudo o que foi dito ali pelos palestrantes, tive boas experiências também através dos relacionamentos com os outros que estavam ali comigo. Contudo a que mais marcou minha vida foi o que vi na atitude de uma criança, que me marcou tanto ao ponto que resolvi compartilha-la aqui.

O João é um menininho de 4 anos, que estava ali conosco nesse ambiente acadêmico porque sua Mãe, a Pastora Telma participava do evento. João encantou a todos que se permitiram brincar com ele. Dentre algumas das amizades que ele fez, certamente uma das mais significantes foi a que ele fez com um dos estudantes de Teologia chamado Jhonatan. E é dessa amizade que veio a cena que me marcou, impactou, e que certamente vou levar para o reto da minha vida. João estava sentado ao meu lado com um chocolate, que logo que se acomodou melhor na cadeira resolveu abrir e começou a fazer sua partilha de pedaços, um para sua Mãe, um para mim que estava ali pronta ajudá-lo caso ele não conseguisse abrir a embalagem sozinho, e o terceiro ele disse assim: “ Esse eu vou levar para o meu amigo Jhonatan.” O levei então até onde o Jhonatan estava e ao oferecimento do pedaço de chocolate, o Jhonatan respondeu: “ Não João, não quero, o chocolate é seu você é que tem que comer.”
Ao que o João respondeu: “Esse pedaço é pra você.”

Mas o Jhonatan ainda insistiu com sua resistência em receber o chocolate e disse: “ Mas porque você quer me dar esse pedaço de chocolate, que é seu?

Ao que o João prontamente respondeu: “ Porque você é meu amigo!”

Bom,nem precisaria dizer que a fala e atitude o João fizeram com que meus olhos e também os olhos do Jhonatan ficassem meio lacrimejando.

Naquele momento, com aquele menino de 4 anos, e seu simples gesto eu tive uma experiência profunda com Deus, pois o João melhor do que todas as palestras que ali tivemos me mostrou de fato e de verdade o que é ter uma experiência com Deus, pois creio que a nossa experiência com Deus nos leva de encontro ao outro, em amor, e foi isso o que ele fez.

Assim o que queria refletir com vocês com esse papo todo com meu Café de hoje é que possamos nos permitir termos experiências de sentir mesmo, de vivermos coisas novas, transformadoras dentro do cotidiano, nas pequenas coisas possamos experimentar a grandeza da vida, que possamos ser mais sensíveis aos pequenos detalhes diários que nos ensinam tanto, que possamos cada dia mais experimentar através do exemplo de amor das crianças que uma vida melhor é possível, mesmo em meio a tanta tristeza no mundo sempre existirão atos como os do João que vão resignificar nossa vida, que nos vão permitir experimentar Deus hoje.

Sobre consumismo e gratidão…

Reclamações, é isso que todos nós fazemos desde a hora em que acordamos até a hora em que vamos dormir. Reclamamos no café da manhã, no almoço e no jantar. Reclamamos do governo, do clima, da pobreza, do cabelo, da cor da casa do vizinho… Nunca estamos contentes com nada.

O sistema capitalista nos faz acreditar através do consumismo, que somos inferiores em todo o tempo e em todos os sentidos. Com suas propagandas, sempre muito bem produzidas, somos sempre convencidos a acreditar que não somos nada, e que só seremos alguém quando tivermos um determinado produto. Eles produzem necessidade e desejos que na maioria da vezes não existem.
Mas não adianta querer demonstrar resistência ao consumismo, só o fato de que eu e você estamos agora nesse exato momento em frente a um computador, ou a qualquer outra dessas tecnologias, que nos colocam em contato com a internet demonstram que somos consumidores. Para fugir e resistir ao máximo ao sistema só sendo um eremita, e olha lá ainda. Durante um tempo na minha vida tentei ideologicamente resistir a algumas coisas, foi em vão, no final não consegui! rs

Mas o que eu queria chamar atenção nesse texto não é sobre o consumismo exacerbado e sim a falta de gratidão que temos em nossos corações. Almejamos o que não temos e perdemos ótimas oportunidades de sermos gratas e gratos pelo o que temos. O convite que quero fazer nesse mesa de café de hoje é que sejamos sempre pessoas agradecidas pelo que temos, pela vida, pelas belezas que nos rodeiam, por uma árvore em nosso caminho, pelo colchão duro que embalou nosso sono, pela xícara de café fraco servida na casa de um parente, pelo tênis com um buraco na sola, pelo por do sol que podemos contemplar na praia, pela água fria da cachoeira, pela discussão em família, enfim por tudo, absolutamente tudo o que temos.

Eu como cristã metodista agradeço à Deus pelas coisas que Ele me deu, na certeza de que tudo vem dEle, contudo se você que está lendo o meu texto faz parte de outra religião, ou ainda é um sem religião, faço-lhe este convite: seja sempre grato pelo que tem, seja grato a quem for. O importante, e certamente o que vamos levar dessa vida, é a satisfação que podemos ter com o que temos.
Assim não há outra maneira de terminar esse texto que não seja com a frase:

Obrigada, obrigada Senhor!!