Eu, a greve e a ideologia

A greve é um direito adquirido e constitucional garantido a todos os trabalhadores. É assim desde muito tempo na História, podemos até dizer que as rebeliões camponeses do finalzinho da Idade Média já poderiam ser consideradas um tipo de greve. Mas elas tomam corpo mesmo depois da Revolução Industrial, com as revindicações de melhorias de trabalho nas industrias. É assim em várias partes do mundo até os dias de hoje. Muitos dos direitos e melhorias de trabalho que temos hoje foram conseguidos á partir da vida de pessoas comuns como eu e você que viveram antes de nós.

A essa altura do texto você deve estar se perguntando mas por que a Flávia está falando de greve no Café de hoje? Talvez poucos de vocês saibam, principalmente porque a imprensa não tem falado quase nada sobre isso mas nós Professoras e Professores da Rede Estadual do Estado de São Paulo estamos de greve desde o último dia 16 de março, hoje somos quase 60% do quadro total de docentes parados.
Para uma historiadora que vira e mexe fala aqui, fala para seus alunos e fala pelas mesas de Café por onde passa que é preciso transformar o mundo, mesmo que seja o pequeno mundo que estamos inseridos é claro que eu não poderia ser hipócrita e teria que aderir ao movimento. Já nos tempos que trabalhei como professora de educação infantil da cidade de São Paulo toda vez que ocorreram paralisações eu aderi ao movimento. Contudo, este ano resolvi ir um pouco além, e saí em algumas escolas da região onde trabalho junto com o Comando de Greve chamar outros companheiros para a luta, além de fazer panfletagem entre os alunos e claro participar da assembleia que caminhou da Avenida Paulista até a Praça da República na última sexta-feira. O interessante de quando você sai para ações assim é que você pode ouvir histórias, as pessoas deixam de ser números e passam a ser pessoas com suas histórias particulares.
Ouvi pessoas com os mais diferentes casos que não poderiam aderir ao movimento, desde aquelas marcadas por formas negativas por movimentos anteriores, até outras que contavam nos dedos os dias para pedir sua aposentadoria. Me vi pensando também em minha própria situação de querer lutar para uma educação de qualidade, de levar ao extremo minha ideologia revolucionária transformadora mas esbarrei em meu bolso, nas dívidas que tenho e que me fazem poder aderir ao movimento apenas por duas semanas. Esbarrei também em alunos mal informados indignados com a greve porque consideram desnecessário a briga de seus professores por salário, aí me venho a pergunta: Por que lutar por alguém que não está nem aí para sua própria formação? Que não entendeu que a luta dos docentes ultrapassa e muito a questão salarial? Como querer que outros com situações tão pontuais e justas se juntem ao movimento? É preciso preponderam a situação.
Todavia, levantando prós e contras, eu particularmente encontrei apenas mais motivos para lutar pois o que o Governo, representado pela figura da Entidade Santa Imaculada do nosso Governador, que há anos comanda esse Estado e sequer cito seu nome para não correr o risco de ser apedrejada pelos seus fiéis seguidores, quer mesmo, ele quer que a opinião pública se volte contra nós, quer ter alunos cada vez mais emburrecidos, para poder dominar a população, que ver gente pouco esclarecida de seus direitos para poder manipular tudo de uma forma que lhe traga ainda mais benefícios.

Por pensar que a luta é muito maior que meu bolso, que as vozes contrárias, que aqueles que não podem mais lutar eu continuo a lutar, na certeza de que se pouco for transformado eu possa continuar a dizer sem o menor sentimento hipócrita que eu sou uma feitora de história dessa nação.
Assim meu convite com meu Café de hoje é, parafraseando a letra de uma antiga canção: vem entra na roda com a gente também , seja você pertencente ao grupo que for, ao Estado que for lute com a gente também, você é muito importante na luta por uma educação de qualidade para tod@s.

Polícia para quem precisa…

“Dizem que ela existe /Prá ajudar!/ Dizem que ela existe/ Prá proteger!/ Eu sei que ela pode/ Te parar!/ Eu sei que ela pode/ Te prender!…/ Polícia!/ Para quem precisa/ Polícia!/ Para quem precisa/ De polícia/ Dizem prá você/ Obedecer!/ Dizem prá você/ Responder!/ Dizem prá você/ Cooperar!/ Dizem prá você/ Respeitar!…”. Em 1986 a banda Titãs já cantava aos berros essa música. E quase 30 anos depois ao ver a ação da polícia no caso da Cláudia da Silva Ferreira, a mulher que tomou um tiro da polícia e foi arrastada por mais de 250 metros pelo carro policial, eu me perguntei várias vezes, polícia pra que? Quem precisa desse tipo de polícia??

Os recentes atos policiais tem trazido à tona algo que já acontece desde muito tempo, mas que por vivermos na chamada “Era da Informação” ficam mais expostos a opinião pública; a falta de preparo da polícia brasileira, seja ela civil ou militar. Crescemos no mundo fantástico de bem x mal (maniqueísmo) onde o mocinho vence o malvado, onde o super-herói caça o bandido e acabamos criando um imaginário que a polícia é do bem, mas infelizmente não é isso que tem acontecido. Hoje em qualquer blitz policial você e eu já somos culpados até mesmo sem saber o porquê, e muitos tem provado sua inocência apenas depois de mortos.

Não quero com o meu Café de hoje fazer nenhum tipo de apologia contra os policiais, contudo quero trazer a mesa uma discussão que deve fazer parte de nossos cafés diários, precisamos investir melhor na formação de nossos policiais, e essa formação tem que passar principalmente por questões de humanidade, de amor ao próximo. Pois, ainda que Claudia Ferreira fosse uma bandida nenhum ser humano por pior que seja pode ser tratado a bala como ela foi, tão pouco ser arrastado por um carro. Ninguém pode ser acusado de um possível crime ou envolvimento com coisas ilícitas simplesmente pela cor da sua pele, pela sua condição social, grau de instrução ou lugar onde mora. Nosso Estado precisa capacitar nossos policias a lidar com pessoas, a policia deve promover a vida humana, o crime não se combate com mais crime e sim com educação de qualidade, acesso á saúde e melhor distribuição de renda.

Nossos policiais são tão vítimas desse sistema perverso quanto nós cidadãs e cidadãos civis. Afinal, eles são mal capacitados, mal remunerados, mal assistidos em suas necessidades básicas, e por consequência disso agem sem o menor valor humano como temos visto. Enquanto a vida humana, e suas necessidades básicas não forem preservadas e supridas infelizmente ainda teremos que assistir perplexas e perplexos cenas como as que vimos nesta última semana. Assim me resta perguntar no fim desse meu indignado Café o que eu e você podemos fazer tornar a polícia melhor? Bora lá construir uma história diferente pautada sobretudo em amor!

Sou uma criança e não entendo nada!

Nunca pensei que pudesse começar uma frase assim, mas: “naquele tempo…” Ok. Não farei isso por princípio! Ficar velho só tem mesmo uma vantagem: esnobar os mais novos, se vangloriando do quanto as pessoas eram mais felizes e o mundo era melhor, no nosso tempo! Acho que nem faz tanto tempo assim…

Lembro que tínhamos clareza sobre o que era direita e esquerda na política: esta querendo a revolução; aquela, manter tudo mais ou menos como estava;  sabíamos citar os nomes dos jogadores dos nossos times de futebol, por pelo menos, uma temporada e assistíamos a programas mais engraçados, menos politicamente corretos e comprometidos.

Talvez pela crise econômica ou sei lá por que cargas d’água, não vivíamos num mundo tão marcado pelo consumismo.  Pra gente entender  melhor, o consumismo de hoje é mais ou menos, como o vício em drogas: quanto mais se tem, mais se quer e quanto mais se tem, mais se entra num abismo sem fundo!

Tínhamos uma educação que a gente sabia que funcionava, mais ou menos, porque os alunos podiam ser reprovados. Educar num mundo de valores consumistas é mais difícil. Até os professores precisam de resultados expressos em números. A educação ocidental tem 3 pilares básicos de ética: a cristã (amor), a judaica (lei, Moisés) e a grega (o saber). Quanto à lei, a gente sabe bem; não tem muito o que negociar: “Só mais 5 minutos pra levantar!” ou “Se chegar depois de meia noite, vai ter!” . Isso ainda funciona, razoavelmente bem.

O amor, bem ou mal, manifestamos.  A grande dificuldade, creio estar no conhecimento! Posso estar sendo pessimista, mas com o advento cibernético, toda a facilidade de tablets, ipods, notebooks, redes sociais, etc, não se lê mais os clássicos! Não se educa mais as crianças pra lerem aquelas historinhas que a moral ficava sempre clara: os maus são punidos pelo mal que praticam, os bons recebem recompensas por ser bons!

Falei em clássicos de literatura e contos ? Vamos baixar o nível: nem revistas em quadrinhos se vê mais com tanta freqüência! Até a Mônica e outros personagens, cresceram pra acompanhar a realidade de seus leitores, porque as crianças não têm interesse em algo que precisem virar a página com mais de um dedo!

Enfim, desabafos à parte, ao contrário do que muitos pedagogos podem pensar, não há tanto mal em educar crianças com essas historinhas que eu mencionei. Até mesmo as crianças sabem julgar e ponderar o óbvio: elas acham justa a punição dos maus e o final feliz dos bons lhes parece até bastante aceitável. O problema não são elas, crianças, somos nós, adultos que somos mal orientados e ensinamos tudo errado!

De Byron pra Naldo: o mal do século

Pra quem vivia de amores por sua donzela, o mundo atual é um tanto quanto caótico: a virgem bela e singela, tá de sainha, e olha, acho que não é mais virgem!
Por quê se criticar o funk?
E por pior que possa parecer, não é pelo som!
As batidas eletrônicas da bateria do “tum ta tum tum ta” presentes em todas as músicas do gênero, ou até mesmo os “vocais” sem melodia ou até mesmo no tom da música, não são os alvos mais sérios.
O que é um problema é o conteúdo dos funks, assim como, em geral, o conteúdo da maioria das músicas populares que hoje dominam as vendas e aparições.
Há muito sentido sexual presente nas canções, além do aspecto da ostentação, ou alguns valores não duráveis, como por exemplo os aspectos da conquista em uma noitada.
Falta elementos ricos ali, e estou longe de acreditar que isso seja um mal vindo de lá.
Devemos pensar nos problemas sociais implicados, no descaso educacional, e tantos outros fenômenos sociais que fazem, não só os que fazem o funk, mas como uma grande população brasileira carecer de educação e outros valores relacionados ao respeito, a convivência, e tantos outros aspectos.
Há um pensamento muito correto que se estrutura em um sentido de duas mãos: se escutam o funk (todas as classes), significa que há uma aceitação por uma música sem muito valor, ou seja, quem faz a música faz porque vende, tem público.
Estou longe de acreditar que em uma balada, as pessoas estejam muito interessadas no que está escrito nas músicas, no entanto as pessoas escutam essas músicas em casa, no carro e em muitos lugares. Usam as letras como argumentos existenciais. A música está implicada na construção do EU (SELF), que cria uma maneira de compreender o mundo, de representá-lo. Além dos aspectos presentes nos modelos de identificação. Celebridades influem o comportamento de adolescentes, adultos.
Sendo assim, a música deve ser o mais transparente possível, ou pelo menos buscar tramas construtivas.
Seja uma história romântica, seja alvos políticos, seja por aspectos reflexivos, a música precisa passar algo além da conquista, do coito e do sentimento de status superior.
Dando meu ponto de vista, como compositor, busco elementos para que a música não fique marcada por uma época (usar elementos de uma certa época como celular, telefone, computador, que podem ser obsoletos em algum tempo), assim como não retirar seu valor que transcende a compreensão humana, ou seja, não colocando aspectos sexuais, ou linguagem baixa em sua letra.
A música eleva a alma e te coloca em um lugar tão fora do físico, que não merece ser inflada com sexo ou uma conquista de uma noite.
Sentir o que a música pode te proporcionar é divino, é algo que deve estar em algum lugar por esse universo, ou fora, ou até mesmo dentro de nosso pensamento, algo tão longe de nós mesmos que fica difícil de saber se é abstrato por ser um sentimento forte, ou por ser algo que está lá perto de plutão.
Ahh o Byron hoje em dia fazendo funk!

Politicamente (in)correto!

A gente era tão feliz e não sabia! Mas agora, não se pode nem dizer isso, sem correr o risco de uma ONG a favor das pessoas que não são saudosistas virem nos processando, ameaçando, etc. Não sei se é porque eu cresci numa época que eu podia rir dos Trapalhões fazendo piadas com tudo, mas essa noção metida à besta do que se tornou politicamente correto, imposta pela mídia me dá nojo. Será que “nojo” eu posso escrever ou seria melhor,” náusea”?

O mais triste disso é perceber que temos hoje hipócritas e falsos moralistas de todos os tipos, nos ensinando as boas maneiras. Não posso chamar mordomo (até porque nem conheço nenhum) de mordomo. Mordomo agora virou copeiro! Mas em compensação, a censura tá na tv, mais viva do que nunca, no que politicamente correto, aprendemos a chamar de “classificação etária”. O nome mudou, a repressão é mais ou menos, a mesma.

A vantagem é que, como a tv é muito honesta e politicamente correta, se ela diz que o seu filho de 10 anos não pode ver determinado filme, você pode ficar tranquilo: tire o guri da sala e descanse nos sábios ensinamentos da mídia. Aquela moça quase sem roupa dançando de manhã e intercalando os desenhos animados de guerras inter galácticas entre mutantes e Ets que querem dominar a Terra e exterminar todo mundo cuida da educação que faltar! O que o moleque vê na internet ? Bom, isso já é outro papo! Ninguém vigia 24 horas por dia. É ou não é ?

Ninguém fuma e ninguém bebe na tv. Em compensação, o que se faz de sexo! A qualquer horário, canal, programação, temos no mínimo, insinuações sexuais de todos os tipos e nem um pouco discretas. Mas também, vivemos no Brasil! Isso está fervendo nas nossas veias! Mesmo sem perceber, aflora por todos os buracos do nosso corpo! E só falar em “buracos” eu sei o que já não posso ter provocado nos leitores mais animados!

O que precisamos? Tentar criar uma nova geração, como disse “seu” Lulu: de gente fina, elegante, sincera e até um pouquinho mais centrada. Gente que goste de trabalhar, que seja honesta nos negócios, mas que tenha na honestidade um princípio, um valor inegociável mesmo.Tentar formar uma mentalidade que não seja meramente sexual (pra não dizer pornográfica mesmo porque deve ser politicamente incorreto!), que só pensa naquilo e em fazer piada. Formar gente que goste de chegar no horário e não goste tanto de tirar vantagem em tudo, o tempo todo. O que de verdade revolucionaria o Brasil? Educar nossa gente! E quem sabe, um pouquinho de terapia.

Ele me ensinou a gostar de português

“Estou velho, já estudei tudo o que seria possível estudar na língua portuguesa, já lecionei em faculdades, e ainda estou aqui dando aulas! Sabem por quê? Porque acredito que tenho algo a passar… sinto que posso colaborar de algumas formas com vocês, jovens!” Foram as palavras do Rosa, professor do cursinho pré-vestibular em que estive antes de ingressar no curso de Direito.

Eu nunca havia me sentido muito à vontade nas aulas escolares, menos ainda nas aulas de português. Elas sempre foram, para mim, uma tortura; a análises sintática, a pontuação, e as redações sempre foram motivo para eu desejar conversar ao invés de prestar atenção, colar à estudar, sair da sala sempre antes da aula acabar, ainda que em pensamento!

Com o Rosa foi diferente, ele era contagiante. Já idoso, mas com um comportamento vívido, palavras cômicas e, o mais marcante, um linguajar culto porém sem pedantismo, e notório grau de humor, cativava até mesmo os alunos interessados apenas nas exatas ou biológicas. Foi ouvindo este professor simples, ex-seminarista, piadista irreversível que comecei a tomar gosto pelo português.

Quando ele referiu as palavras que transcrevi acima, entendi o porquê do sucesso que tinha ao lecionar. Inda que velho, certamente mantinha em seu coração a compreensão de um chamado para servir ensinando. Uma vocação que, talvez, tenha transitado entre a vontade inicial de ser sacerdote ao desejo de lecionar, com jeito primoroso de um excelente educador.

Poucos professores marcaram tanto minha vida escolar e acadêmica quanto este. Na faculdade pude perceber que o status de professor de nível superior é um poderoso chamariz que suplanta a real vocação e o senso do ridículo, no caso de alguns professores. Nitidamente, pode-se notar que alguns indivíduos não possuem a menor vocação para a coisa. E quando digo vocação, refiro-me ao significado mais remoto e essencial que esta palavra pode ter.

Vocação vem do latim vox, refere-se à voz que chama. Então, vocação aqui deve ser entendida como um chamado que convoca uma pessoa! Este chamado é quase que irresistível!

Se um professor não possui tal chama queimando em seu interior, este, sem dúvida, não irá desempenhar o seu papel com excelência. Será deficitário, ou seja, ficará sempre em dívida com seus alunos, sempre faltará algo; o seu ensino poderá chegar a ser frio e “des-atraente”! De maneira que os alunos preferirão estar fora de sala a continuar em suplício dentro desta.

Passei a compreender o que o Rosa quis dizer naquela noite, quando li “Conversas com quem gosta de ensinar” do Rubem Alves. Neste livreto, Alves fala que o educador é um alguém apaixonado, e como um apaixonado não se cansa da paixão, ela se mantém acesa em seu interior não importando o tempo; assim, o educador também não se cansa de ensinar, não sente necessidade de se aposentar, ainda que oficialmente aposentado, como o Rosa o era.

Como o professor mesmo disse, ela não precisava mais estar ali lecionando. Ele poderia estar curtindo a velhice numa boa, esperando o tempo passar; mas não, ele tinha um fogo queimando em seu interior, um fogo que o impulsionava à sala, para que ali apresentasse mais uma vez o seu bom, velho e não cansativo “show-aula”.

Assim, fico a lembrar com saudade deste bom homem que me ensinou a gostar de português. Que ele esteja bem, e que outros como ele possam surgir no caminho dos estudantes desse nosso Brasilzão sofrido, onde falar de educação ainda é coisa quase que restrita às épocas de campanhas eleitorais!

Ciência é o que mesmo?

As pessoas não só acreditam mas se sentem seguras com sua visão de ciência em que os cientistas são homens, brancos, membros de uma elite, individualistas em suas ações e produções. Não raro elas vêem o ponto de vista religioso como um empecilho moral para o progresso científico. É o que fica bastante evidente em duas grandes pesquisas sobre a percepção pública acerca da ciência e da tecnologia

Empresas com alcance global, gigantes do setor de tecnologia da informação abusam na construção desse mito. E as ações dessas empresas variam conforme o comportamento dessa imagem. E não por acaso. Embora o mercado financeiro seja quase sempre especulação, é importante destacar que as pessoas tem nas tecnologias da informação e depois na medicina a sua maior aproximação com a noção de ciência. Que no caso seria uma “versão aplicada” de uma pretensa ciência pura. 

É pequena ligação que as pessoas fazem entre progresso científico e progresso social. Acredita-se muito na capacidade da ciência descobrir a cura de uma grande doença, mas a relação entre essa cura e o progresso econômico e social como eliminação da fome e da pobreza é pequena na cabeça das pessoas. É como se fome e pobreza fossem questões políticas e a cura de uma doença apenas uma questão técnica.

Ao mesmo tempo em que as pessoas desconfiam profundamente dos políticos elas acham que falta mais investimentos públicos por parte de um Estado, que no caso do brasileiro, tem se destacado por uma presença cada vez mais sufocante em esferas como ciência, família, economia, religião, política, direito, sexualidade etc.

A ciência começa quando temos dúvidas e passa longe de pensamentos maniqueístas que se realizam em mitos de que ela encontra limites na “moralidade” e nos “dogmas” religiosos. Como se a história da ciência tivesse começado no século XVII, como se a Revolução científica fosse uma revolução de ateus, como se a ciência fosse amoral e sem dogmas. Como se a ciência fosse uma construção apolítica. Me pergunto se as críticas à teologia, que também é ciência, é história, é política óbvio, não surgem por seus questionamentos acerca de uma ciência ignorante que busca ser hegemônica e que tem a ridícula presunção de ter a palavra final.

Ministério da Ciência e Tecnologia. Percepção Pública da Ciência e Tecnologia. Departamento de Popularização e Difusão da C&T. Secretaria de Ciência e Tecnologia para Inclusão Social. www.mct.gov.br/index.php/content/view/50875.html, obtido em 07/09/2007.

VOGT, C. e POLINO, C. Percepção pública da ciência: resultados da pesquisa na Argentina, Brasil, Espanha e Uruguai. Campinas. São Paulo: FAPESP, 2003.