Aquecendo o coração.

Maio é um mês marcante! Mês das noivas (e gostaria muito de saber o porquê disso; se existe mesmo alguma tradição ou combinação entre as noivas para escolher esse mês, etc. Fica minha pergunta aos historiadores e/ou desocupados de plantão). Mas, em especial para outro grupo, o mês de maio, sobretudo a semana do dia 24 de maio, tem um significado todo especial: os metodistas em todo o mundo comemoram este dia como a lembrança de um 24 de maio que entrou para a história como “O Dia da Experiência do Coração Aquecido”.

A despeito de minha tradição metodista, não sou expert em História do Movimento Metodista. Estudei a história do movimento iniciado, e que, acidentalmente ou não, deu origem à Igreja Metodista, por John e Charles Wesley no século 18 na Inglaterra que recebeu o apelido de metodista por seus críticos por se tratar de um grupo de “engomadinhos sistemáticos”[1] preocupado com horários e regras e,  mesmo assim, meu caminho teológico seguiu outros trilhos.

De toda forma, tradição é tradição e como metodista, não poderia deixar de ressaltar esta semana e seu significado histórico para os seguidores do homem do coração aquecido. Pois bem. John Wesley foi um pastor anglicano que, inconformado com a situação da Inglaterra no século 18, com as consequências da revolução industrial, influenciado por movimentos puritanos, inicia um processo de santificação e transformação social no país. Ele pretendia reformar a Igreja da Inglaterra, no sentido de fazer os seus líderes perceberem que algo precisava ser feito em relação aos vícios e violência que alastravam o país e especialmente, as consequências sociais de toda esta situação, aumentando a miséria nas classes mais baixas da sociedade inglesa.

Tudo isso acabou fazendo com que este professor da Universidade de Oxford junto com um grupo que ficou mal falado como “clube santo” e mais tarde, “metodistas” começarem, por si mesmos o movimento que desejavam ver: saíam pregando contra os vícios e reunindo recursos para auxiliar órfãos e viúvas, etc.

E você se pergunta: o que isso tem a ver com o dia 24 de maio? Bem, depois de uma boa caminhada do movimento, o reverendo John Wesley percebeu que, apesar de ver muitas vidas transformadas através das coisas que ele dizia, ele mesmo estava inseguro em sua relação com Deus e numa noite do dia 24 de maio de 1738, ele foi a um estudo bíblico e enquanto era lido um comentário sobre a epístola de Paulo aos Romanos, ele afirma em seu diário que sentiu seu coração estranhamente aquecido e sentia que estava salvo da lei do pecado e da morte.

A partir desse momento, sua vida, sua atuação como ministro anglicano e tudo que fez, foi tocado por um amor diferenciado e os resultados disso foi uma verdadeira transformação social e religiosa em todo país, influenciando a vida de milhares de pessoas e possibilitando a expansão do movimento metodista por todo o mundo. Os relatos em seu diário dão conta de mudanças em sua vida.

Aqui me parece estar a relevância para os metodistas, de se lembrarem este longínquo dia 24 de maio: a vida de um homem foi transformada e com a dele, de milhares de outras pessoas em todo o mundo a partir de uma experiência muito mais profunda do que um calor ou um tremor: a percepção do amor divino que o fez olhar para outros que também carecem desse amor. O coração aquecido pelo Espírito de Deus fez de Wesley um homem que influenciou uma nação a se transformar socialmente. Fez com que, especialmente através da educação e da ação social, aquele homem sonhasse em, um dia, mudar o mundo.

Talvez você e eu nunca chegaremos a sentir também os nossos corações estranhamente aquecidos. Mas, metodista ou não, guardando ou não a memória de um dia 24 de maio, vivemos numa nação que precisa de homens e mulheres que se comprometam com a mudança e sonhem que um novo mundo é possível. Homes e mulheres que, entendendo o poder do amor de Deus pelo mundo desejem levar esse amor até o mundo. Homens e mulheres que tenham seus corações aquecidos pelo sofrimento dos outros, não estejam prontos a julgar ou condenar os que pensam ou agem diferente, mas amem e com esse amor, ofereçam a mão, ofereçam o coração, ofereçam uma possibilidade de sonhar. Afinal, um novo mundo é possível.

[1] Engomadinhos sistemáticos, com todo o respeito, é grifo meu.

Você não gosta de mim, mas sua filha gosta!

Vê se pode ? Custei a acreditar que viúvas de militares (por que será?) e simpatizantes foram para as ruas de São Paulo e Rio numa chamada marcha com Deus pelas famílias, no que seria um “revival” saudosista em comemoração aos 50 anos de golpe militar. Jurava que se tratava de uma piada de internet, quando um amigo jornalista veio me contar que fez a cobertura da marcha antiditadura que acontecia simultaneamente.

Ter familiares que se envolveram nas lutas de resistência ao regime, conhecer pessoas que sobreviveram às torturas e contam, com lágrimas nos olhos ao lembrar da dor, do que passaram nas mãos de seus carrascos e ainda nos seus exílios; ver notícias de desaparecimentos e depoimentos atuais e documentos sérios como “Brasil Nunca Mais” e mais: tendo um pouco de juízo, só o que resta é perguntar: o que essa gente que vai pra rua pedir intervenção militar tem na cabeça ?

Ainda bem que as Forças Armadas não parecem demonstrar interesse em repetir o feito de 50 anos. Espero mesmo que eu esteja só vendo algo semelhante a uma piada de muito mau gosto.  A única coisa que se aproveita do período de ditadura militar nesse país (se é que isso pode ser dito) foram algumas composições de gênios como Chico Buarque, e é importante que se diga, continua um excelente compositor sem intervenção militar alguma e teria sido sem sofrer tortura. Um exemplo é a canção “Jorge Maravilha” da qual tiramos o título de hoje, em que Chico “homenageia” um dos generais presidentes que o perseguia e cuja filha era fã de suas canções.

Mas uma coisa é fato: estamos vivendo momentos épicos de ignorância e reconhecimento de burrice assinada em atestados públicos presenciando aberrações como essas marchas. O mais triste é a pretensão de dizer que é uma marcha “com Deus”. Estou convencido de que as formas de Deus abençoar e cuidar das famílias humanas estão muito distantes de intervenções de forças militares.

Como cristão, metodista e, pela primeira vez usando esse blog pra dizer, como pastor metodista não posso admitir a menção da presença do Deus  comprometido com a vida, que conheci dentro da igreja Metodista, igreja que luta por justiça, respeita as diferenças, que não aceita e se posiciona contrária a qualquer tipo de opressão, repressão e violência,nisso tudo. Preciso dizer e tenho certeza disso: Se existe um lugar em que Deus NÃO estava era nessa marcha fajuta de um bando de retrógrados e viúvas com saudades.