Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais ?

Eu não consigo me lembrar muito bem a primeira vez que ouvir falar sobre a ditadura do Brasil, o que lembro é que quando comecei de fato a ler e aprender sobre isso na escola e em tantas outras fontes eu fiquei chocada com as atrocidades do governo militar. Eu me perguntava como um ser humano podia ser capaz de torturar outro de forma tão terrível em nome de uma “ordem” nacional. E pior, como não foi todo mundo para a rua para brigar em defesa dessas pessoas? Foi aí que comecei a encher meus pais de perguntas e eles apenas respondiam que nada sabiam sobre as torturas. Nesse momento minha ficha caiu: eu tive acesso a muito mais informações sobre o período do que quem viveu durante o próprio período.

Isso me levou a duas importantes reflexões: a primeira é que um povo sem informação, ou que recebe as informações distorcidas jamais vai lutar para que a realidade mude, logo, a escola e a mídia tem um importante papel social na divulgação da informação e do conhecimento. E a segunda reflexão era que eu tinha de parar de considerar que as pessoas que viveram no período foram todas coniventes com o Regime Militar, afinal a imagem que tais pessoas tinham era que a violência era condita, pois a polícia estava na rua e controlava a segurança, e economia do “Brasil grande” parecia de vento em popa. Além do que havia um inimigo vermelho a ser contido, o comunismo, que segundo a visão dos defensores da segurança eram pessoas que caçavam a religião e comiam criancinhas.

Desde muito tempo eu tenho dificuldade em acreditar no mundo dividido entre vencedores e inimigos, a necessidade que temos de perceber que existe um outro alguém que é meu inimigo e que precisa ser torturado, exterminado, banido de alguma forma do planeta terra. E isso era uma das principais bandeiras dos militares para justificar suas práticas, haviam inimigos do Brasil que precisavam ser paralisados, seja sendo presos, torturados, mortos ou exilados. E é claro que muita gente inocente embarcou nessa ideia e acabou apoiando tanto o golpe (que recentemente alguns historiadores tem chamado de golpe militar-empreserial-civil, pois não foram apenas os militares que comandaram a derrubada de Jango em 1964, empresários e vários setores da sociedade civil também estavam junto nessa) quanto os 21 anos de poder militar que se seguiram, pois estas pessoas mal informadas acreditaram na ideia de segurança, paz, crescimento e estabilidade nacional. Será que você e eu que estamos na faixa etária abaixo dos 30 anos não compraríamos esse ideia também? Afinal quantas e quantas vezes nos dias de hoje não compramos ideias, discursos e ideologias que promovem algum tipo de tortura, injustiça social, e deixamos de promover o amor e a justiça.

Enquanto houverem crianças espancadas por seus pais, mulheres violentadas por seus maridos, estrangeiros vivendo como escravos, pobres indo para cadeia por sua condição social, negros sendo discriminados pela cor de sua pele, índios queimados em praça pública, manifestante apanhando da polícia, estaremos ainda anos luz de viver de fato numa democracia de direito. E mais longe ainda de dizer que a as torturas e a violência ficaram para trás. Infelizmente esse requinte de crueldade de outrora dos poderes militares ainda está no meio de nós, e hoje é realizada também por diversos setores. Mas enquanto existirem pessoas em Mesas do Café, ou em qualquer outro espaço refletindo e trabalhando por mudanças, ainda há de haver esperança!

Os bons morrem jovens?

Na madrugada do último domingo, dia 01 de dezembro, o mundo foi surpreendido com a notícia da morte brutal num acidente automobilístico do ator Paul Walker. Ele que era um cara lindo, maravilhoso, bem sucedido, que tinha um prazer todo especial de ajudar pessoas, se envolvia em causas sociais, se preocupava com o próximo. Certamente todo mundo se perguntou, como um cara assim pode morrer ainda tão jovem. Na canção “Os bons morrem jovens” da banda Legião Urbana nos primeiros versos ela diz assim: “É tão estranho / Os bons morrem jovens /Assim parece ser, quando me lembro de você /Que acabou indo embora, cedo demais…”
E quantas vezes nós tivemos mesmo essa sensação que os bons morrem jovens, que a vida é injusta com quem busca justiça. Quantas vezes culpamos Deus por essas mortes. Eu já fiz muitas dessas perguntas, mas dessa vez com a morte de Paul Walker procurei um outro caminho, uma outra reflexão. Talvez o problema não esteja apenas na morte prematura dos bons e sim em nossa incapacidade de perceber o quanto as pessoas são boas enquanto elas estão vivas.
Quantas e quantas vezes é muito mais fácil para nós criticar o que os outros fazem, julgar o que deixam de fazer. Ás vezes elogiar a outrem parece que vai arrancar um pedaço de nós. Quantas pessoas você elogiou essa semana?? Esse último mês?? Durante todo esse ano?? Que zilhões de iniciativas de pessoas próximas a você contribuíram para o bem comum que você apoiou, que você incentivou e compartilhou. Por quantas vidas você agradeceu o celebrou a existência?? Quantas pessoas você aplaudiu esse ano?? Será que é preciso alguém bom morrer jovem para que nós possamos celebrar a importância de sua vida, de lamentar sua morte??
Creio que já passou da hora de revermos nossos conceitos. É preciso reconhecer mais as obras boas das pessoas enquanto elas estão no meio nós, isso além de um incentivo para a própria pessoa continuar no seu caminho, é também um exemplo para que outros possam seguir o mesmo caminho de paz, justiça, amor e esperança.
Assim, encerro meu Café de hoje sugerindo que você convide alguém que teve uma boa iniciativa esse ano, que buscou fazer do mundo um lugar melhor de se viver para um café, como forma de gratidão, agradecimento e incentivo para a pessoa. Bora celebrar vida enquanto ela tem fôlego!

#RIP Paul Walker

A culpa é de Deus…

Uma mulher brasileira, que morava na China, sofre um acidente de trânsito. Ela passeava desatenta numa rua que não era sinalizada, quando, de repente, um carro veio em sua direção e a atropelou. As pessoas que estavam na rua diziam que a mulher, antes de ser atropelada, parecia muito nervosa e distraída. Sua família dizia que a moça saiu de casa chateada com a mãe, pois a mãe havia acabado de brigar com a filha. Além disso, outras testemunhas disseram que o motorista do carro estava embriagado e dirigia em alta velocidade. Por essa razão, ele não conseguiu ver a moça atravessar a rua. No hospital, houve um erro hospitalar que desencadeou na morte da moça.

Diante dessa tragédia, a família da moça passa a culpar o médico que aplicou a injeção errada e tenta processar o hospital. Não obstante, a família também acusa o motorista e pede para que a justiça o prenda. Alguns vizinhos pensam que o fato de a mãe da moça ter brigado com ela fez com que a garota ficasse profundamente magoada, nervosa e distraída. Isso teria feito com que ela não prestasse atenção aos carros que passavam pela rua. Ademais, testemunhas afirmam que a moça quase fora atropelada num outro momento, pouco antes do acidente, ao passar distraída numa rua movimentada. O motorista, ao prestar seu depoimento à polícia, disse que seu carro estava com o freio ruim e culpou a concessionária, já que o carro havia acabado de sair de lá. Por fim, alguns programas de televisão comentaram o assunto e disseram que a responsabilidade é da prefeitura da cidade, uma vez que a rua estava mal sinalizada. Outros programas sugerem que a dificuldade de se definir a preferência do pedestre ou do motorista, no contexto da China, faz com que o índice de acidentes seja alto naquele país.

Perguntas:

De quem é a culpa? Quem merece ser condenado?

Quem não está culpado, as testemunhas que observaram o fato e nada fizeram?

Quem é capaz de julgar esse fato? O juiz, a família, as testemunhas?

O juiz observa o fato do lado de fora. Ele precisa juntar os relatos, reconstruir a história, observar as leis e julgar os fatos. O juiz não pode julgar as intenções, as observações e os problemas pessoais, pois ele não tem critérios para ponderar sobre tais coisas. Ele pode apenas aplicar uma condenação às infrações das leis do país e do município. Portanto, o juiz julga segundo relatos e leis, adequando as ações às leis. Contudo, ele não conhece a ação pelo lado de “dentro” e não é capaz de julgar toda a ação, julgando apenas a situação aparente.

A família observa o fato pelo lado de dentro. Eles sabem que a mãe tem culpa na briga com a filha; que o pai tem culpa por não reagir e não saber conciliar a situação; que a irmã tem culpa por ter ciúmes da outra e ter provocado a briga entre a mãe a irmã falecida. Na família, portanto, não há quem consiga – ou sequer intente – fugir da situação. Qualquer tentativa de fuga da situação traz à tona o risco de sérias patologias psicológicas. Do mesmo modo, a atitude de tomar sobre si toda a culpa pode igualmente causar neuroses, depressões e transtornos psiquiátricos.

A vítima observa o fato de acordo com o seu conhecimento. Ela seria capaz de dizer se foi um suicídio ou se foi completamente surpreendida pelo acidente, mas também não seria capaz de mostrar, mesmo se estivesse viva, os verdadeiros responsáveis pelo fato, a não ser aqueles que estiveram diretamente envolvidos. Dificilmente, porém, seria capaz de falar sobre o dolo do motorista.

O motorista é capaz de dizer somente se teve ou não intenção de matar, se viu ou não a pessoa, se tentou ou não frear o carro.

Como fazer justiça diante dessa situação? Quem é sábio e justo o suficiente para julgar toda a história e aplicar a devida punição aos culpados?

Todo aquele que, de alguma forma, faz parte da história, torna-se culpado inevitavelmente. Uns são culpados por omissão; outros, por infração às leis; outros ainda se sentem culpados por problemas de relacionamento em casa. Enfim, quando pensamos sobre Deus, nessa situação, não hesitamos em coloca-lo como o primeiro culpado da tragédia, pois, uma vez que Ele é o único que tem condições de mudar situações trágicas e se omite em fazê-lo, acaba se tornando o grande responsável pela tragédia por não ter tomado medidas preventivas. Mas será que Deus não tem tomado medidas preventivas a esses problemas? Será que Deus é o responsável por toda tragédia ocorrida e que está por acontecer?

Quando Jesus Cristo veio ao mundo, assumindo a forma de homem e de servo, tornou-se obediente à morte de Cruz (Fl 2). Em outras palavras, isso significa que Jesus, diante de todo o mundo, assumiu a culpa pelas nossas transgressões, mesmo não sendo o responsável. Era como se ele dissesse: “Eu sou o culpado! A culpa é minha pelas calamidades do homem! Venham até mim que eu tirarei de vocês a culpa por meio do perdão. Eu dou a minha vida para isentá-los de tamanha responsabilidade diante do Pai e de suas próprias vidas”. Ainda que Jesus não tenha pecado, sabemos que ele assumiu os nossos pecados. Não teria sido essa uma medida preventiva de Deus para o sofrimento e as calamidades da vida? Se cremos em Jesus, obviamente sim.

Mas o que nos intriga, na verdade, é por que Deus não age no momento da tragédia, evitando-a. Ora, há muitas tragédias que são evitadas; outras, porém, acabam ocorrendo. O que uma tragédia poderia trazer de bom para a humanidade? Por que Deus, sendo bom, permite um mal físico e uma calamidade? Essas questões são comumente levantadas por ateus. Inclusive, um dos principais argumentos ateístas é o silêncio de Deus diante das calamidades.

Certamente a questão do sofrimento nos conduz a outras questões que a antecedem, a saber: de onde vem o mal? Como Deus, sendo onipotente e benevolente, permite a existência da maldade? Tentarei abordar essas problemáticas questões nos próximos tópicos. Agora, pois, resta-nos refletir inicialmente nas perguntas: Deus é o responsável pelas tragédias e pelo sofrimento da humanidade? Se não há Deus, quem mais estaria apto a assumir tamanha responsabilidade? Há uma “causa deficiente” primeira para os acidentes, erros e ambiguidades da vida e da História? É satisfatório para nós lançar a culpa sobre alguém que, em nosso entender, tem o poder para prevenir qualquer situação ruim ou precisamos lançá-la ao acaso, ao não-saber, ao solipsismo humano?

Está posto o convite para esse café teológico. Todos estão convidados!
Abraços. Até a próxima segunda!

Guilherme Emilio – Pastor da Igreja Metodista em Sumaré.