Pertença

Um dia, num passado remoto, você teve a sensação de ser pela metade. Você sabia que havia perdido uma parte de você; uma parte que, sendo sua, habitava fora. E você sentia falta. Morria de saudades dessa metade, essa parte que não estava ali. Essa parte ausente.

No reencontro, tudo que você sempre esperou encontrar em você estava ali: diante dos seus olhos e brilhava. E tinha o perfume perfeito, o formato, o encaixe, o ideal. Mas alguma coisa estava fora da órbita e o reencontro ficou faltando. Faltou o toque. Faltou o olhar, faltou a palavra. Uma única: o sim. Faltou o beijo.

E você desacreditou. Fingiu tocar em frente, escondendo o que sofria e dizendo não acreditar mais ser possível o encontro. Mas procurava. Sabia onde estava aquela parte. Sabia que ela estava perdida em outro espaço, outras coisas. Mas era ela que você procurava em todas as outras. Em tudo que procurou, era ela que você tentava encontrar.

Era no deserto interior, seco, ríspido, amargurado que se escondia o sorriso aberto e franco, o prazer, as delícias que você prometeu entregar só pra ela. Só pra ele você conseguiu e só com ela esse sorriso se abriria de novo.

Talvez, aquele pedaço de você já não exista mais. Talvez tenha se perdido pra sempre entre as amarguras, os sofrimentos e as lágrimas da lida, no longo e doloroso caminho de volta. É possível que ele tenha ficado enterrado no passado. Nos sonhos, nas quimeras do que poderia ter sido; na ilusão, no beijo imaginado, na mão que não segurou, na carta que não escreveu, no olhar que se desviou. Mesmo que você encontre esse pedaço, pode ser que já não seja ele. Mas sempre será você.

 

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