Pertença

Um dia, num passado remoto, você teve a sensação de ser pela metade. Você sabia que havia perdido uma parte de você; uma parte que, sendo sua, habitava fora. E você sentia falta. Morria de saudades dessa metade, essa parte que não estava ali. Essa parte ausente.

No reencontro, tudo que você sempre esperou encontrar em você estava ali: diante dos seus olhos e brilhava. E tinha o perfume perfeito, o formato, o encaixe, o ideal. Mas alguma coisa estava fora da órbita e o reencontro ficou faltando. Faltou o toque. Faltou o olhar, faltou a palavra. Uma única: o sim. Faltou o beijo.

E você desacreditou. Fingiu tocar em frente, escondendo o que sofria e dizendo não acreditar mais ser possível o encontro. Mas procurava. Sabia onde estava aquela parte. Sabia que ela estava perdida em outro espaço, outras coisas. Mas era ela que você procurava em todas as outras. Em tudo que procurou, era ela que você tentava encontrar.

Era no deserto interior, seco, ríspido, amargurado que se escondia o sorriso aberto e franco, o prazer, as delícias que você prometeu entregar só pra ela. Só pra ele você conseguiu e só com ela esse sorriso se abriria de novo.

Talvez, aquele pedaço de você já não exista mais. Talvez tenha se perdido pra sempre entre as amarguras, os sofrimentos e as lágrimas da lida, no longo e doloroso caminho de volta. É possível que ele tenha ficado enterrado no passado. Nos sonhos, nas quimeras do que poderia ter sido; na ilusão, no beijo imaginado, na mão que não segurou, na carta que não escreveu, no olhar que se desviou. Mesmo que você encontre esse pedaço, pode ser que já não seja ele. Mas sempre será você.

 

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O sol está brilhando lá fora

O despertador toca
07 horas da manhã
Lava o rosto, coloca uma roupa, prepara um café
Olha a janela
O sol está brilhando lá fora
Corre para o serviço, risca o calendário, acende um cigarro
Faz as compras no mercado
Encontra um velho conhecido
Troca um sorriso sem graça
Entra no carro
Deita na cama, pega um livro, olha o relógio
Dorme, acorda, dorme de novo
Uma semana se passa
Entra no escritório
O sol está brilhando lá fora
Compra um sapato novo
Olha as vitrines no shopping
Entra no dentista, faz um canal
Esvazia um copo
Dois ou três
Visita sua mãe, abraça sua irmã
Cumprimenta seu vizinho
Entra no elevador
Abre as cortinas
Vê o sol brilhando lá fora
Alimenta seu cachorrinho
Alimenta uma esperança
Alimenta um pastor desconhecido
Começa uma dieta, corre no calçadão
Sente raiva, sente dor, sente medo
Depois alegria, nostalgia, depois medo
Deita no chão do quarto
Olha para o céu, encara o espelho
O reflexo mudou junto com o seu cabelo
O sol está brilhando lá fora
Vai ao culto no domingo
Faz uma oração decorada
Volta da Igreja, liga a TV
Passa a tarde inteira na poltrona
Abre a geladeira
Come besteira, assiste um jogo de futebol
Chora escondido no banheiro
Chora de novo no travesseiro
Guarda um diploma na gaveta
Guarda vários sonhos também
Chega a segunda-feira
O despertador toca
E o sol está brilhando lá fora

Clair de Lune

 

Diz uma antiga lenda, não sei de que povo ou cultura que: o Sol e a Lua sempre foram apaixonados um pelo outro, mas nunca podiam viver seu amor porque a Lua só surgia no céu depois que o Sol havia se posto. Porém, como prova de que nenhum amor é impossível, Deus criou o eclipse. Eu sempre fiquei intrigado com essa lenda. Porque, de fato, alguns eclipses nunca chegam ou talvez, nunca chegarão a acontecer e eu ficava imaginando o que o Sol sentiria sobre isso.

Durante algum tempo, o Sol, em seu desejo ardente pelo encontro, em suas brasas de paixão, sempre procurando consumar seu amor, não se conformaria com a falta desse eclipse. Por tão grande amor, o Sol jamais percebera que seu amor, sua paixão ardia, queimava qualquer um que dele se aproximasse e sua luz era tão intensa que nem mesmo olhar pra ele era fácil.

Não entendia o dano que sua paixão, seu amor poderia causar em sua querida, porém tão frágil Lua. A Lua por sua vez, sempre foi mais sensata. Desde o começo, embora, a princípio também encantada com toda aquela luz radiante e alegre que o Sol raiava dos olhos, tenha desejado que aquele amor fosse possível; mas sempre foi serena, tranquila, sábia e sensata. A Lua tinha os pés no chão. Se esse amor de alguma forma pudesse se concretizar, algum dia, o Sol era a paixão irracional, a Lua, a razão.

O Sol se deixava levar pelo devaneio e o sonho.Era todo coração e cólera. A Lua sofria. Porque o brilho, a luz e o calor do Sol lhe tocava a alma profundamente, mas sem que ela pudesse sequer olhar pra ele. Sofria porque sabia que o amor, por maior que fosse, não bastava. Nunca basta. Por isso, a Lua se mantinha distante, imponente e cheia de pose. A Lua tinha esse ar meio distante que lhe dava quase um gesto de superioridade. Esse ultraje para o Sol que se sabia “rei dos astros” o deixava ainda mais em brasas e envolvido.

E assim segue a história. O Sol consumindo a si mesmo em fogo por amor. A Lua, a cada noite, de volta ao seu lugar. O eclipse ? Talvez não venha nunca. O amor ? Talvez não baste.

Quando o amor “vacila” !

E aqueles dias que a poesia nos falta e como diria Adélia Prado: “Dias em que uma pedra é só uma pedra!”. Às vezes ficamos assim. Mencionando outro poema de Drumond, “as mãos tecem apenas o rude trabalho” ou ainda, dentro desse mesmo poema: “Tempo em que não se diz mais ‘meu amor’, porque o amor resultou inútil’. Ainda acredito no amor, só estou em pleno estado de “stand by”. É bom que seja assim. Vez ou outra, nós, que amamos demais e intensamente e especialmente, NÓS que amamos SÓS, precisamos dar descanso pra alma. Deixar o coração apenas bater; descansar de tanto apanhar!

Nesses dias, não precisamos ficar anestesiados e nem nos tornamos frios ou insensíveis. Nunca! Apenas deixamos de olhar exclusivamente pra dentro de nós mesmos na busca incansável de correspondência amorosa, nesses nossos amores egoístas ( onde já se viu, chamar isso de amor?) e abrimos os olhos pra certas belezas que a paixão por uma única pessoa não nos permitia ver: a beleza que há numa rosa do jardim; a beleza no sorriso de uma criança ou no cantar de um sabiá na sua janela! E olha que eu, no lugar dele, com asas, iria cantar na praia!

De fato, quando não estamos ocupados, nos debatendo de paixão por uma pessoa,que em geral, não faz por merecer tanta “devoção carnal”, é que nos voltamos à coisas que, merecem muito mais de nossa atenção. É nesses momentos que voltamos o rosto em favor de tudo que a vida oferece de belo. E sabe o que mais surpreende ? Quando não estamos “apaixonados”, aprendemos sobre o amor!

Nesses momentos, reaprendemos a nossa poesia, reestruturamos nosso eu lírico. Motivamos nossa poesia de volta para a pedra e aí, a pedra abre um caminho. Felizes os poetas que amam a vida! Conhecem um amor sensível; conhecem um amor não-estranho; amor perfeito!

Meu estranho amor.

Não estava nos meus planos postar esse texto, mas descobri hoje cedo que hoje é o dia da Poesia ou do poema, sei lá. Não que eu me atreva a me considerar poeta, mas de vez em quando, arrisco colocar no papel algumas coisas que sinto ou que senti em algum momento da vida. É o caso desse texto que segue. Foi escrito recentemente, apontando pra coisas de um passado, não muito distante, mas algo bem recente. Graças a Deus, o tempo passa. Como é possível que você tenha percebido, esse texto é também uma homenagem, não só a quem serviu de inspiração pra essas palavras, mas a uma música conhecida de Caetano Veloso, chamada “Nosso estranho amor”. Espero que vocês gostem e que me perdoem a ousadia.
Que me perdoem Drumond, Vinicius, Pessoa e tantos outros os quais evoco como verdadeiros poetas, dos quais me atrevo a usar o título, sendo tão medíocre no que escrevo. Mas pelo menos, ofereço a você que lê, esse encontro com aquilo que eu sou: todo coração e cólera!

Meu estranho amor
Já quis demais, sem saber se, de fato, merecia;
Já sugou, buscou, perseguiu, inqueriu com os olhos, olhos que dele fugiam.
Brigou, quis desistir, fingiu desprezo, chorou, virou a cara.
Depois, sentiu saudade, se odiou por ceder e de novo, se entregar.
Meu estranho amor interpretou tudo errado, leu a mensagem dos olhos
Que os lábios negavam. Estendeu a mão sem nada entender.
Demorou, mas fez sentido: entendeu que por ser estranho, seu futuro era incerto.
Por ser amor, não pôde desistir.
Por ser amor, não vai embora, mas por ser estranho, sorri e dorme feliz a cada retorno, cada menor gesto.
Por ser amor, faz da amizade seu maior brinde.
Por ser estranho, ama à distância, como diz a lenda, o sol ama a lua, a cada noite.
Por ser amor, já é estranho.
Por ser estranho, continua amor.

E Deus criou a poesia e viu que era muito bom!

E Deus criou a beleza, a pureza e o perfume!
E o homem, que não sabia nada de poesia até então, teve medo.
Por isso, sem saber como se comportar, o que falar e onde colocar as mãos,
Pediu desculpas por se coçar o tempo todo, mas de nervoso, fez o que sempre faz
Quando precisa se defender: usou a força!
Obrigou, escravizou, oprimiu e reprimiu a que era melhor, mais cheirosa e bela do que ele e
Assim foi vivendo por muitos anos: fingindo uma força que não tem pra se manter no poder.
Inseguro porque, como o pequeno príncipe do livro, precisaria aprender a lidar com aquela rosa, mas era mais fácil, se impor de qualquer jeito mesmo.
Deus viu e não gostou! Foi quando, do alto de Seu Poder, inspirou sua linda criação e a encorajou pra ser o que foi criada pra ser: forte!
Então, com toda a sua graça e suavidade, ela resolveu mostrar quem mandava! Com uma sabedoria divina, brigando e até fazendo biquinho, sem abrir mão de sua identidade, ela tomou o controle da situação definitivamente!
E o homem? Como sempre bobo, se rendeu sorrindo…

Minha homenagem singela a essas que nos fazem ser o melhor que podemos! Feliz Dia Internacional da Mulher!