“Eu quero é botar meu bloco na rua…”

Na última quinta-feira 27/03 finalmente deixei o discurso ideológico utópico de lado e participei de uma desses protestos que tem tomando as ruas de nosso País desde junho do ano passado. Mas talvez existam horas na nossa vida que temos mesmo que deixar as coisas mais no plano utópico, eles são bem mais bonitas e significativas lá. rs.

Mas enfim, acabei passando as quatro horas da manifestação caminhando e refletindo sobre o que estava acontecendo, muito mais com um olhar de quem estava fora de todo o movimento, principalmente porque eu queria ver além do que os olhos podiam ver. E a primeira coisa que observei foi que a manifestação começou a andar exatamente na hora em que o SPTV 2º edição, jornal da local da Rede Globo de TV entrava no ar, com um link ao vivo da manifestação, seria uma espécie de coincidência ao acaso? Observei também os diversos personagens do protesto, e alguns deles portavam seus trajes de batalha: policias com seus escudos, que por sinal pude notar possuem um espaço onde o lanchinho com pão e suquinho de caixinha podem ser guardados. Os jornalistas com colete com a inscrição imprensa além de inseparáveis capacetes de ciclista, ou seja proteção anti-bomba de borracha, e pude ainda ver a “face” dos tão famosos Black Blocs, que nada mais são do que gente como a gente.

Caminhamos da Praça do Ciclista situada na Avenida Paulista, descemos a Brigadeiro Luiz Antônio,passamos por outras ruas do centro de São Paulo e terminamos o trajeto na Praça da República, o que deve ter representando um circuito de 5km. Em meio aos mais diversos gritos de guerra, gritos de um povo que clama por um Brasil mais justo, mais igualitário, eu me encontrava perdida em meus pensamentos só imaginando porque não descíamos o lado contrário da Paulista e chegávamos ao Pacaembu para fazer um protesto rico em simbologia em meio ao jogo de futebol que estava rolando lá nas oitavas de final do Campeonato Paulista Palmeiras e Bragantino, afinal, ao meu ver, protestar contra a Copa do Mundo tinha que minimamente atrapalhar o futebol naquele momento. Mas para minha frustração ideológica a organização não tinha a mesma visão que a minha. Do mesmo modo eu queria muito cantar um monte de rock brasileiro dos anos 80 que tinha palavras de ordem, de rebeldia juvenil contra a sociedade, ou ainda cantar alguma música de protesto da época da ditadura, pois eu julgava que isso teria sido um trilha sonora bem mais interessante a manifestação, mas talvez essas músicas fossem pouco conhecidas por ali, vai ver que meu repertório músico ideológico está meio fora de moda. rs.

Assim, saí do protesto com dois sentimentos distintos; o primeiro era de felicidade por ter finalmente podido botar “meu bloco” na rua e apoiar esses atos, contudo, frustrada porque eu queria mais, queria uma liderança que sentasse para o diálogo com algum governante e de alguma forma negociasse alguns dos inúmeros pedidos de melhoras estruturais ali reivindicados. Ou ainda porque não fazer algo mais simbólico e tomar o prédio da Prefeitura Municipal para sinalizar que a democracia é o poder do povo, afinal esse conceito tem sido bem esquecido por todos. Mas talvez eu tenha lido Histórias demais sobre protestos no transcorrer da história e me empolgados demais sobre as estratégias que um protesto pode ter. Mas certamente o que sei é que minhas impressões sobre tudo estarão em muitas Mesas de café que eu participar, assim como eu convido que seja a reflexão no seu Café também, pois, se eu quero mudar alguma coisa, ainda que mínima no Brasil tenho que começar no espaço onde estou inserida, seja ela a rua, em casa, na fazenda, onde houver gente precisando de um gesto carinhoso de amor.

Ah a História…

Sempre que digo a alguém que fiz faculdade de história a pessoa arregala os olhos e exclama: “História?? Mas isso é tão chato!!”
Na verdade o que ninguém consegue perceber é que o que mais fazemos na vida é contar histórias. Estamos em todo o tempo em nossas coversas contando como foi alguma coisa que nos aconteceu. Isso também é História.

A História surgiu enquanto área do conhecimento com Tusídides lá na Grécia Antiga, narrando os poderosos feitos dessa nação. Mas foi só a partir da Revolução Francesa que ela ganha o status de História como uma ciência.

Nos últimos dias com a onda de protestos que invadiram os quatro cantos de nosso País, certamente o que mais faltou para o povo foi um pouco de conhecimento histórico, tanto para saber como melhor conduzir os protestos, quanto para não se falar tanta bobagem sem o devido conhecimento. E isso aconteceu de ambos os lados, tanto dos que eram favoráveis aos protestos quanto de quem era contrários.

Pela primeira vez na História do Brasil, as pessoas perceberam o quão importante era conhecer a História. Parafraseando o dito popular eu poderia dizer que: “ Conhecimento histórico e canja de galinha não faz mal a ninguém” rs

Peter Burke, um dos maiores historiadores contemporâneo, disse que: “ A função do historiador é lembrar a sociedade daquilo que ela quer esquecer.” Eu sempre pensei essa frase através de duas possibilidades, a primeira como a de um povo que quer esquecer o que aconteceu, ter um prazer em não tem uma memória e a segunda pensando que alguns fatos da história, que de tão sujos e dolorosos que foram merecem ser esquecidos. Conhecer a História é entender melhor o mundo, a política, a sociedade, os processos culturais, a formação dos povos, tanto no tempo quanto no espaço. É conhecer um pouco mais sobre si mesmo.

Assim, o que quero com esses apontamentos do meu Café de hoje, é convidar você que está nessa mesa comigo, a ampliar seus horizontes de conhecimentos históricos, compartilhar disso em outras mesas de Café também, trazendo na memória que História não é algo chato e sem sentido e sim um conhecimento libertador e transformador para o futuro, pois o grande benefício social que a História traz é o de conhecer o passado, para construir um futuro melhor. Minha esperança como historiadora é que as pessoas valorizem a História, procurem mais esse conhecimento, para que melhores Histórias possam ser contadas para as próximas gerações.

A Ressurreição da Esperança

A esperança é paradoxal. Não é nem uma espera passiva nem um forçar irreal de circunstâncias que não podem ocorrer. É como um tigre agachado que só saltará quando chegar o momento de saltar.

Erich Fromm, A revolução da Esperança

Existe uma coisa mais poderosa que todos os exércitos: uma ideia cujo tempo é chegado.

Victor Hugo

Os protestos ocorridos nos últimos dias, iniciados em São Paulo e agora espalhados pelo Brasil, mostram que a depressão política que pairava pelo coração de um sem-número de cidadãos parece estar se retirando. Dá lugar agora à esperança. Essa que muitos dizem ser a última que morre e que, talvez exatamente nesse momento, possamos dizer que também sempre torna a ressurgir.

Não apenas estávamos dormindo, estávamos adoecidos de tanto abatimento. Exaustos pela sensação de remar sem poder chegar a lugar algum. Assim, tomados de profunda desconfiança a respeito da política partidária, esse abatimento não apenas enterrou muitos sonhos e anseios populares como fez com que a maioria de nós rejeitasse qualquer ligação com a palavra “política” e suas variantes.

Contudo, no fundo de nossas almas, sabíamos que não há como se ausentar da política. Até porque “os ausentes nunca têm razão”. Precisávamos apenas de uma centelha de vida, uma pequena fagulha que viesse a reacender as chamas da esperança em nossos corações. A luta do Movimento Passe Livre contra o aumento das tarifas do transporte público, objetivando, além disso, a reavaliação desse serviço em nosso país, fez soprar um vento forte que espalhou fogo por toda parte, acendendo verdadeiras chamas vivas.

De agora em diante, a comoção geral – apresentada até mesmo pela mídia interesseira –, e notada pela aprovação dos atos dos manifestantes por um grande número de pessoas em redes sociais e nas ruas, faz-nos acreditar que podemos muito mais. Tanto assim que não apenas a melhoria do transporte tem sido cobrada, mas também os gastos com a Copa do Mundo e a falta de investimento na educação, por exemplo, são importantes bandeiras levantadas neste momento.

Há quem diga que isso pode desintegrar a militância, favorecendo a dispersão do movimento e consequente enfraquecimento da causa. Não penso assim, o símbolo primordial continua sendo o transporte, mas o ânimo provocado é o de que não devemos sonhar pequeno. E, de fato, não podemos!

Não sabemos bem onde tudo isso pode terminar, porém temos uma leve noção de que os resultados iniciais, como a repercussão internacional, fazendo que o mundo saiba que não estamos tão felizes por sediar uma Copa e as Olimpíadas porque preferíamos serviços públicos de qualidade ao invés destes, podem gerar frutos inesperados. De modo especial, passa a ser viável um novo entusiasmo com as futuras eleições.

Não tão distantes e em ano de Copa, com os protestos que assistimos agora podemos esperar que as eleições não sejam ofuscadas pelo brilho do futebol. E creio profundamente que não o serão, até porque a grande massa do povo brasileiro não teria possibilidade alguma de comprar um dos caros ingressos a fim de poder participar do menos importante dentre os concorridíssimos jogos da Copa. Em outras palavras, o evento será para gente de grana.

Assim, podemos esperar que o povão, a massa insatisfeita e muitas vezes esquecida, entre um jogo e outro da seleção brasileira, possa reinvindicar os mesmos investimentos feitos em torno do futebol para nossas comunidades em cada canto desse país.

Passo a passo, devagar mas constante, caminhando, cantando e gritando em voz alta para que o mundo ouça, tomados pelo vírus da esperança que ressurgiu mais uma vez em nosso coração, prossigamos nas ruas, becos e vielas requerendo o que é nosso por direito, desde os R$ 0,20 centavos às outras melhorias que nos são devidas desde há muito tempo.

Feitores de História dessa Nação.

“Numa tarde de um dia qualquer, por volta de 2033, Flávia, seus filhos gêmeos Sofia e Calebe e seu esposo, estavam na sala, as crianças fazendo sua lição de casa de História, aí surgiu a pergunta:

-Mamãe, como foram os protestos dos vinte centavos? Você participou?
– Então crianças, os protestos foram a coisa mais linda de ver e viver da minha geração, tudo de fato começou para protestar o aumento de 20 centavos que as passagens de ônibus da cidade de São Paulo tinham passado, mas em pouco tempo, os jovens se organizaram pelas mídias sociais e foram tomando as ruas de várias cidades, em vários Estados, até outros países, a luta já não era apenas pelos aumento da passagem, a luta era também pelo fim da corrupção, pela melhoria da saúde, da educação, contra as mídias que reproduziam discursos alienantes,era a sinalização que a cidade é do povo, por isso todo mundo resolveu ir para a rua. Nessa época o País estava sediando a Copa das Confederações de Futebol, e pela primeira vez eu vi o povo mais interessado em questões sociais do que em futebol.Umas das reivindicações nos protestos era justamente que queríamos não apenas estádios de primeiro mundo, e sim educação e saúde nesses moldes também. No ano seguinte o Brasil ia sediar a Copa do Mundo de Futebol, mas isso não aconteceu, a Fifa preferiu cancelar e só voltar a fazer um evento aqui, quando as necessidades básicas do povo brasileiro fossem saciadas.

Foram momentos únicos na História do Brasil, a partir desses protestos, algumas igrejas se levantaram para orar e protestar também, entenderam que uma das formas de sinalizar o Reino de Deus no mundo era lutar pelos direitos do povo, era isso que Jesus fazia, ele se importava com os problemas das pessoas.

E o país mudou, mais mudou muito, e pra muito melhor, o povo sentiu a força que tinha, e os governos pressionados pelo clamor popular se viram obrigados a investir de fato na saúde, muitos hospitais foram construídos, remédios foram distribuídos em longa escala, em todas as cidades, tratamento preventivo foi uma das grandes bandeiras. E a educação então, passou por uma reformulação de estrutura, matérias como direitos civis e saúde entraram na grade curricular. Milhares de escolas foram construídas, o número de alunos por sala caiu absurdamente, o salários dos professores aumentaram e se tornaram justos, e o investimento na formação continuada do professor foi alto, agora eles trabalhavam apenas um período, e no outro se dedicavam a pesquisa.

As condições econômicas melhoram muito, a desigualdade social, quase desapareceu, as favelas foram riscadas do nosso mapa, todos agora tinham moradia digna.

E isso tudo só foi possível, porque a juventude que era bem informada, resolveu acordar ,se articular e transformar nosso País. As Igrejas oravam e trabalhavam efetivamente nessas mudanças também.
Doze anos depois a Copa pode ser sediada aqui, pois o país tinha condições sociais bem melhores, o futebol agora podia ser de fato uma diversão e não uma alienação.

A Mamãe não pode ir na passeatas, os afazeres do mestrado a impossibilitaram de fazer isso, contudo ela aproveitou dos meios que podia se posicionar nas mídias sociais, no Blog e nas conversas na rua. Mas o Papai foi e está do outro lado da sala chorando ao lembrar que foi um feitor de História dessa Nação…”

Que meus sonhos, desse Café de hoje, possam ser seus sonhos também, e que essa possa ser de fato a História que vamos contar para os nossos filhos.