As folhas caem.

Ao ver a menininha chorando, perguntou: “O que você tem, lindinha?” Ela, que olhava folhas caídas ao chão, respondeu com seu ar de pureza e inocência: “Estou com pena da árvore!” Quis saber o porquê e ela disse: “Suas folhas estão caindo! Deve doer…!”

Saiu daquele encontro pensando sobre a doçura da menina e a verdade daquele encontro inesperado. De fato, pra árvore será que dói? Mesmo que seja doloroso, em sua sabedoria, a árvore entende que, naquela estação, deixar cair as folhas secas é importante em seu processo de renovação. Ela sabe que o outono chega todo ano e com ele, o tempo de deixar ir o que secou para renascer no ciclo da vida. Em sua serenidade, a árvore sabe, pela experiência e o passar dos anos em que viu suas folhas secarem e se despedirem, que esse é o começo. Ainda haverá de passar por um rigoroso inverno sem folhagem para, só então, florescer e sentir a vida revigorada, começar a brotar novamente com cores e beleza.

Talvez, em seu primeiro outono, ela tenha tomado um susto e se desesperado. É assim quando se é jovem. Só o tempo e a passagem de muitos outonos nos dá maturidade para compreender que as folhas cairão no outono; o inverno chegará, depois floresce e começa tudo de novo.

Só o tempo ensina que é necessário deixar cair as folhas secas pra renovar o ciclo. Só o tempo nos ensina a lidar com os outonos. Só o tempo nos dá paciência para suportar os outonos.  Mas a gente aprende: deixar as folhas secas caírem pode até doer, mas é parte do inevitável processo da vida. Que as árvores nos ensinem a lição: Serenidade para viver a essência de cada estação.  

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A Utopia da Idade Perfeita

A voz rouca de Nana Caymmi um dia cantou um verso que até hoje encontra um lugar na minha cabeça : “A vida acaba, um pouco, todo dia. Eu sei, você finge não saber e pode ser, que quando chegue a hora, já seja um pouco tarde pra viver!”. Além da beleza dos versos e da música (tudo que Nana coloca a voz fica lindo, é impressionante, mas não é da Nana que eu quero falar hoje) num primeiro momento esses versos me incomodaram um pouco.

A vida acaba um pouco todo dia…Que estranha noção de finitude essa que se abateu sobre mim ao ouvir essa canção! (A canção se chama “Olhe o tempo passando” se você quiser ouvir!) Mas de fato, até a Bíblia comenta sobre esse incômodo: no livro de Eclesiastes, no capítulo 3, o verso 11 afirma “Deus colocou a eternidade no coração do homem”. O próprio Deus, segundo “O pregador” ou seja, o autor desse belo livro, se preocupou em que no nosso coração habitasse um desejo pela eternidade. A questão é como a gente lida com esse desejo ao longo da vida.

Desde sempre temos medo da morte. Durante milênios o homem vem lutando com a ciência como aliada pra conseguir chegar à pílula da vida eterna em laboratório. Imagina o preço disso pros laboratórios, no dia que for inventada? Antes mesmo do surgimento da ciência, se é que alguém pode afirmar isso, mas pelo menos, antes de tanta evolução, lá pela Idade Média, reis patrocinavam expedições marítimas para o que se acreditava ser “O Novo Mundo” unicamente com o propósito de encontrar “A Fonte da Eterna Juventude”. Acredite! Isso está pintado nos quadros da época! É possível que a própria expedição de Colombo que resultou não num novo caminho para as índias, mas na descoberta das Américas, em 1400 e muita coisa, tenha tido, em parte essa encomenda pela fonte da eterna juventude.

O nosso mal só fez crescer juntamente com a evolução da ciência. No século XX, a humanidade inventou um negócio que até hoje não se descobriu se foi bom ou não: a adolescência! Até então, uma pessoa deixava de ser criança e assumia responsabilidades adultas imediatamente, se comprometendo em casamento e trabalho e com o sustento de sua família. Com a geração dos baby boomers, no pós guerra (Baby boomer é alguém nascido entre 1945 e 1964, num súbito aumento de natalidade, especialmente na Europa nesse período pós guerra), ficamos sem saber o que fazer com tanto bebê chorando e tanta criança crescendo sem trabalho! Afinal, a Europa foi devastada pelas guerras mundiais e aquele velho costume de assumir a maioridade e a responsabilidade logo após a primeira infância ficou comprometida com a crise financeira.

Nasciam aí os adolescentes! Essas pessoas das quais invejamos a juventude, a beleza e nas quais, pra nos vingarmos desse vigor que muitas vezes já nos abandonou, criticamos o comportamento e ressaltamos a imaturidade e inexperiência diante da vida! Quem não queria a saúde e o corpinho dos 17, 18, com a sabedoria dos 40, 50, 60 ? Atire a primeira pedra, quem nunca…

Dia desses, conversava com uma amiga e ela se queixava: “Estou em crise! Não posso mais cantar aquela música do Fábio Jr que fala sobre ‘meus vinte e poucos anos’…” Meu consolo pra ela foi dizer: “Não fique assim! Ele (Fábio Jr) também não pode e há muito mais tempo que você!”. Mas admito que, poucos segundos depois, entendi perfeitamente a crise da minha “balzaquiana” amiga ao perguntar a outro amigo que fazia aniversário, quantos anos ele fazia, quando ouvi a resposta: “Tô fazendo 19, tio!”. O “tio” na frase nunca existiu, mas foi como se existisse e entrasse como uma faca em meu coração!

Será que nesse mundo de botox e rios de dinheiro gastos com plásticas e academia para se manter e resgatar a beleza perdida, ainda há esperança pra discussões um pouco mais profundas sobre a vida ? Acho que a eternidade colocada por Deus em nosso coração começa, gradativamente a dar lugar ao desejo de sermos “Forever Young”. Se Fred Mercury cantasse hoje : “Who wants to live forever?” nós gritaríamos eufóricos e de mãos pra cima: eu! eu ! eu!

A situação está tão grave que a ciência, aquela nossa velha conhecida, já fala hoje num negócio chamado “Adolescência tardia” que seria um bando de marmanjo de 25, 30, 40 anos, se comportando e se vestindo como adolescentes! Essa fase de medos e espinhas, detestada por quem nela está, que supostamente terminava aos 18, 19, hoje é esticada propositalmente até os quase 40! As pessoas estendem sua dependência paterna/materna econômica e emocionalmente falando, ao máximo que podem e mantém a atitude de quem ainda tem 17, 18 anos. Com as plásticas e os cosméticos, em muitos casos, a aparência acaba ajudando!

Me arrisco demais afirmando isso, mas “na minha época”, a gente queria crescer rápido, virar gente e ter uma carreira, um carro, etc. Eu acreditava aos 9 anos que aos 18 estaria casado, cheio de filhos e quase no fim da vida. Hoje eu nem sei em que hospício eu estaria se dissesse algo assim, aos 9 anos!

Se lidamos assim com a idade, o que não esperar da morte ? Sendo a nossa única certeza desde que nos entendemos por gente, nunca nos acostumamos com a ideia de que um dia encontraremos esse destino! Quanto mais nos incomoda ao vê-la derrubar pessoas jovens! Como é incômodo imaginar que tudo que somos, sabemos, podemos ou que nosso dinheiro pode comprar, no fim, não nos garante coisa nenhuma! Nem sequer retardar esse fim! Que desagradável, acordar amanhã com o risco de não ter certeza nenhuma de que, no fim do mesmo dia, estaremos aqui ainda! Fato é que esse risco existe e vivemos como se dele não soubéssemos, exatamente como cantou a Nana!

O jeito é ir vivendo, de preferência, com gratidão (alguém já disse isso ontem por aqui) pelo fato de estarmos vivos e buscando aprender, adquirir sabedoria, não conhecimento de livros apenas, mas sabedoria pra vida: um negócio que a gente vai ganhando com o tempo, sem gastar dinheiro, mas que nos faz encarar a idade com serenidade e gozar plenamente a fase em que estamos, com saúde e alegria! Apesar do espelho, nosso ex-amor!