Um expresso no expresso do oriente – a volta ao mundo em 80 cliques.

Instantâneo.
Podemos definir a sociedade tecnológica como a sociedade da rapidez e da pressa.
A vida que não suporta os meios, aquela que não consegue esperar pela hora do final.
Seja em metas grandes ou apenas pequenas coisas do dia a dia.
Temos um relógio gigante em nossas costas, e um velocímetro sensível em nossas cabeças.
Somos do tempo em que tudo se tem na hora que se quer.
Não?

O flúor pro dente demora só um minuto. A lasanha fica pronta em 8 minutos. A minha caminhada até o centro se transforma, quando uso próteses: carro ou ônibus, transformo 25 minutos em 5.
Até o macarrão é instantâneo: 3 minutos.
O bolo de caneca: instantâneo.
A comunicação: instantânea e desplugada.

E como não ser assim em sua vida? Rápido, dinâmico… instantâneo.
Vivemos na sociedade da hiperatividade diagnosticada aos bandos.
Dos remédios que curam na hora (ou parece que).
Uma sociedade que é estimulada pela celular, pela internet, pelos computadores, pelas televisões, e ainda por todos os estímulos do mundo (conversar, falar, ouvir, sentir, ver).
Como seríamos calmos e acomodados? Nunca!

Se para Julio Verne, em uma de suas obras, a ideia de cruzar o mundo em 80 dias nos traz uma aventura surreal, teríamos tal evento hoje, como algo extremamente chato e sem necessidade. Se na obra os 80 dias são vistos como o mais rápido que se poderia fazer tal façanha, hoje em dia diríamos “que coisa mais chata e demorada!”.
A ideia de cruzar o mundo em 80 dias seria intolerável. Ninguém teria o saco para tal feito. Ou ainda mais, não haveria nenhuma relevância.
Podemos testemunhar outros lugares através das pontas dos dedos, e só!
Seremos no futuro seres com dedos gigantes, e com mãos projetadas para o melhor uso dos cliques e das tecnologias.

O que me intriga é pensar nessa instantaneidade toda, e questionar: será que chegaremos em uma época que não mais iremos esperar?
Uma sociedade chata e corrida.
Uma sociedade em que o homem é precoce (em todos os âmbitos), e as mulheres não tem paciência para esperar (em todos os âmbitos).

Pagaremos muito para simplesmente termos o prazer de quase parar.
Nem que pra um café e só. Nossas férias já são momentos mais “parados”, mas iremos idolatrar o fazer nada como um grande Deus. Um grande ícone.
“Hoje é dia de São Nada” – dirão os tolos (nós mesmos). Os que estão sempre em atividade pagam para não ter atividade em certo momento. No entanto, os que nem sempre fazem sãos os “doentes” e “atrasados” nessa corrida sem linha de chegada.

Hoje o deitar, o ser parado, ser mais recluso é sinônimo de depressivo. Como ficar parado se o mundo dita que é importante estar sempre ativo, ligado, conectado?
Vivemos sob um arranjo de possibilidades de conexão. Vivemos em rede, e a toda hora sendo provedores ou consumidores de informações.

Usando a ideia de Bauman, e indo um pouco além, diria que a nossa forma atual é fluida, mas pior ainda, é quente, e suas partículas se agitam tanto, que além de não termos uma forma definida, constantemente nos chocamos uns com os outros.

Prezamos tanto por uma individualidade, e pela busca do que é nosso, que frequentemente somos partícula batendo em partícula (outra que também busca seu espaço). Toda essa concepção de um gás sob calor ou pressão intensos, nos traz uma imagem de uma sociedade confusa, caótica.
Uma sociedade rápida, agitada, com partículas que se movimentam sem parar. Uma sociedade pressionada pelas paredes do tempo.

Somos guepardos correndo e com um apetite sem igual. devoramos. não temos tempo para gostar ou usufruir. Somos o início e o final. Não o meio, não temos tempo para ele.
Talvez Maquiavel em nossa sociedade tivesse que elaborar outra ideia, talvez a de que “os meios justificam os fins, se e somente se, forem tão eficazes a ponto dos primeiros estarem quase que imperceptíveis”.

Lembrei das promoções das pizzas, que se não chegam em sua casa em 30 minutos são gratuitas. Ou seja, a eficácia está totalmente ao lado da rapidez.
Ser rápido hoje, significa ser eficaz. E vice-versa.
Talvez esse seja um grande motivo da nossa sociedade depressiva ou hiperativa. Extremos. Extremos que se mostram plausíveis numa sociedade da velocidade, do movimento. Se paro não sou eficaz, e se não paro me torno um insaciado por novidades.

Amigos… somos movidos por uma “cocaína digital”.

Ah, e o tempo… o tempo não pára. E seguimos com os tic tacs do que sobra de tempo, nesse relógio que corre ao contrário. E vamos com pé no talo, acelerando e botando nossa velocidade pra lá dos 400 por hora.

Ihh… esse expresso já virou trem bala. Derramei meu café.

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Sou uma criança e não entendo nada!

Nunca pensei que pudesse começar uma frase assim, mas: “naquele tempo…” Ok. Não farei isso por princípio! Ficar velho só tem mesmo uma vantagem: esnobar os mais novos, se vangloriando do quanto as pessoas eram mais felizes e o mundo era melhor, no nosso tempo! Acho que nem faz tanto tempo assim…

Lembro que tínhamos clareza sobre o que era direita e esquerda na política: esta querendo a revolução; aquela, manter tudo mais ou menos como estava;  sabíamos citar os nomes dos jogadores dos nossos times de futebol, por pelo menos, uma temporada e assistíamos a programas mais engraçados, menos politicamente corretos e comprometidos.

Talvez pela crise econômica ou sei lá por que cargas d’água, não vivíamos num mundo tão marcado pelo consumismo.  Pra gente entender  melhor, o consumismo de hoje é mais ou menos, como o vício em drogas: quanto mais se tem, mais se quer e quanto mais se tem, mais se entra num abismo sem fundo!

Tínhamos uma educação que a gente sabia que funcionava, mais ou menos, porque os alunos podiam ser reprovados. Educar num mundo de valores consumistas é mais difícil. Até os professores precisam de resultados expressos em números. A educação ocidental tem 3 pilares básicos de ética: a cristã (amor), a judaica (lei, Moisés) e a grega (o saber). Quanto à lei, a gente sabe bem; não tem muito o que negociar: “Só mais 5 minutos pra levantar!” ou “Se chegar depois de meia noite, vai ter!” . Isso ainda funciona, razoavelmente bem.

O amor, bem ou mal, manifestamos.  A grande dificuldade, creio estar no conhecimento! Posso estar sendo pessimista, mas com o advento cibernético, toda a facilidade de tablets, ipods, notebooks, redes sociais, etc, não se lê mais os clássicos! Não se educa mais as crianças pra lerem aquelas historinhas que a moral ficava sempre clara: os maus são punidos pelo mal que praticam, os bons recebem recompensas por ser bons!

Falei em clássicos de literatura e contos ? Vamos baixar o nível: nem revistas em quadrinhos se vê mais com tanta freqüência! Até a Mônica e outros personagens, cresceram pra acompanhar a realidade de seus leitores, porque as crianças não têm interesse em algo que precisem virar a página com mais de um dedo!

Enfim, desabafos à parte, ao contrário do que muitos pedagogos podem pensar, não há tanto mal em educar crianças com essas historinhas que eu mencionei. Até mesmo as crianças sabem julgar e ponderar o óbvio: elas acham justa a punição dos maus e o final feliz dos bons lhes parece até bastante aceitável. O problema não são elas, crianças, somos nós, adultos que somos mal orientados e ensinamos tudo errado!

Inquietações sobre o tempo….

Ah o tempo. Certamente um dos assuntos mais abordados em poesias, canções, conversas cotidianas, etc e etc. Quem de nós em algum momento de sua vida não teve alguma crise e inquietação em relação ao tempo?? Eu tenho tantas inquietações em relação a isso que resolvi fazer faculdade de História, pensei que lidando com tempos maiores eu poderia melhor aproveitar e viver o meu tempo, ledo engano o meu…

Mas quando eu penso em tempo ao menos duas canções do rock nacional me vem a mente, uma da Banda Pato Fu, “ Sobre o tempo” que diz em um dos seus versos: “Tempo, tempo, tempo mano velho.Vai, vai, vai, vai, vai, vai. Tempo amigo seja legal. Conto contigo pela madrugada. Só me derrube no final.” Numa perspectiva que o tempo ainda que passando, que seja legal, que seja amigo. Coisas essas que o tempo não faz muito conosco, pois está longe de ser nosso amigo e tão pouco é legal. E ainda outra canção, da Banda Titãs, “Caras como eu”, que em determinado trecho diz: “Não vou mais medir o tempo. Não vou mais contar as horas. Vou me entregar ao momento.Não vou mais tentar matar o tempo.” Numa tentativa de viver a intensidade das coisas e não o tempo que elas duram.

Podemos encontrar até mesmo na Bíblia, inquietações sobre o tempo, e talvez uma das mais famosas seja a que encontramos no livro de Eclesiastes no capítulo três, onde o autor vai discorrendo sobre os tempos da vida, tempo de chorar, tempo de rir, tempo de abraçar, tempo de afastar de abraçar, e assim ele segue o texto, até que no final ele diz que “há tempo para todo o propósito debaixo do céu”. Esse texto sempre me deu esperança, me ajuda muito em minhas crises sobre o tempo.

O Capitalismo, por sua vez, nos faz acreditar que “tempo é dinheiro”, só que você investe muito tempo trabalhando para conseguir muito dinheiro, para gastar com o que se te falta tempo para curtir a diversão… Que perca de tempo.

Contudo algumas coisas nós podemos fazer para tentar sofrer menos em relação as inquietações que o tempo nos propõem, a primeira é ter a plena consciência que não somos senhoras e senhores absolutos do tempo, se vivemos em sociedade nosso tempo pessoal depende também das relações que eu tenho com os tempos dos outros, pois tem coisas que ultrapassam minha vontade de viver o meu tempo, como por exemplo o que podemos fazer para vencer o tempo perdido no trânsito?

Ou ainda, por mais que eu pense no tempo, isso não vai fazer ele parar, logo é importante enquanto eu penso sobre ele também ir vivendo. Uma tarde de segunda-feira num parque como o Ibirapuera, sem olhar para o relógio também pode me ajudar a quebrar o tempo, entrar num tempo atemporal, entrar no tempo da contemplação. Assim como entrar na Igreja para o culto, sem se preocupar com a hora, e assim entrar no tempo do sagrado, que também é atemporal.

Uma outra forma de viver a preciosidade do tempo é quando podemos viver investindo tempo no outro, certamente não existe nada melhor e mais recompensador do que investir meu tempo em vidas, e ajudar o outro a viver melhor o seu próprio tempo.

Espero assim, que a leitura do meu Café de hoje não tenha sido uma perca de tempo na sua vida, e sim um tempo de reflexão sobre como você tem vivido o seu tempo. Que minhas inquietações sobre o tempo possam embalar muitas conversas à mesa de Café, entre amigos e família, seja ele às cinquepoca, às seietal, às oitoetrinta, mas que seja sempre um tempo marcante.

Eu vi o menino correndo, eu vi o tempo…

Dia desses, voltei a São Paulo. Morei em São Bernardo do Campo de 2009 a 2012, por conta da faculdade e me mudei pra Volta Redonda – RJ, no início desse ano. Outro dia mesmo, estava deitado no sofá de casa, relaxando, numa das raras noites que tenho livres e olhava pro teto procurando por lembranças como quem conta as estrelas do céu.

Em algum momento, peguei um cometa no céu que estava recheado de estrelas no teto da minha sala que me levou direto a Petrópolis, num dos meus primeiros anos de infância, cujo ano não vou dizer por desaforo! Lá estava eu, descendo a ladeira do morro em que eu nasci e cresci do bairro simples que me deu origem lá da cidade imperial; correndo ao encontro do que era felicidade naquele tempo: provavelmente um carrinho de sorvete, uma bolinha de gude, uma pipa…Nunca, nem em minhas memórias ou na mais exuberante das minhas imaginações, minha vida tomara o rumo que hoje tem.

De Petrópolis, uma cidade com status de imperial, cheia de politicagens, problemas de saúde e econômicos, mas pacata cidade do interior serrano do Rio de Janeiro, Papai do Céu me mandou direto pra mega metrópole, capital econômica do país. Cheia de politicagens, problemas de saúde e econômicos, porém, em estatura macro.  São Bernardo, São Paulo, tudo tão perto, tão junto, tão grande! Ali fiquei por 4 intensos anos. Vivi emoções contraditórias, amores avassaladores, encontros inesquecíveis com o outro, comigo mesmo, com a vida. Me apaixonei por aquele lugar, mesmo que carente de belezas naturais, ainda assim, consegui encontrar, no meio do cinza, o verdinho do Ibirapuera, numa luta de sobrevivência.

Entendi o que Caetano disse quando cantou: alguma coisa acontece no meu coração. Ainda hoje acontece. São Paulo tem esse poder de conquistar e cativar os sentimentos mais contraditórios na gente: amamos e odiamos São Paulo. Amamos a febre cultural, multiforme de gente por todos os lados, de todos os tipos e lugares fervilhando naquela cidade. Odiamos o trânsito, o metrô, o rush, o Alckmin, o Maluf e outros.

Voltar a São Paulo por um fim de semana fez brotar em meu coração alguma coisa entre o amor e o ódio, o medo e a fé. Emergiu e urgiu a necessidade de não voltar! Pelo menos, por enquanto. Tive uma sensação estranha de voltar pra casa, misturada ao sentimento de não ter um lugar ali, como se, chegando, nunca chegasse. Sentimento de eterno retorno. Se é esse o sentimento de Sampa ? Acontece no meu coração e só quando cruzo a Ipiranga e a Avenida São João. Mas deve ser porque Narciso acha feio mesmo o que não é espelho!

A Utopia da Idade Perfeita

A voz rouca de Nana Caymmi um dia cantou um verso que até hoje encontra um lugar na minha cabeça : “A vida acaba, um pouco, todo dia. Eu sei, você finge não saber e pode ser, que quando chegue a hora, já seja um pouco tarde pra viver!”. Além da beleza dos versos e da música (tudo que Nana coloca a voz fica lindo, é impressionante, mas não é da Nana que eu quero falar hoje) num primeiro momento esses versos me incomodaram um pouco.

A vida acaba um pouco todo dia…Que estranha noção de finitude essa que se abateu sobre mim ao ouvir essa canção! (A canção se chama “Olhe o tempo passando” se você quiser ouvir!) Mas de fato, até a Bíblia comenta sobre esse incômodo: no livro de Eclesiastes, no capítulo 3, o verso 11 afirma “Deus colocou a eternidade no coração do homem”. O próprio Deus, segundo “O pregador” ou seja, o autor desse belo livro, se preocupou em que no nosso coração habitasse um desejo pela eternidade. A questão é como a gente lida com esse desejo ao longo da vida.

Desde sempre temos medo da morte. Durante milênios o homem vem lutando com a ciência como aliada pra conseguir chegar à pílula da vida eterna em laboratório. Imagina o preço disso pros laboratórios, no dia que for inventada? Antes mesmo do surgimento da ciência, se é que alguém pode afirmar isso, mas pelo menos, antes de tanta evolução, lá pela Idade Média, reis patrocinavam expedições marítimas para o que se acreditava ser “O Novo Mundo” unicamente com o propósito de encontrar “A Fonte da Eterna Juventude”. Acredite! Isso está pintado nos quadros da época! É possível que a própria expedição de Colombo que resultou não num novo caminho para as índias, mas na descoberta das Américas, em 1400 e muita coisa, tenha tido, em parte essa encomenda pela fonte da eterna juventude.

O nosso mal só fez crescer juntamente com a evolução da ciência. No século XX, a humanidade inventou um negócio que até hoje não se descobriu se foi bom ou não: a adolescência! Até então, uma pessoa deixava de ser criança e assumia responsabilidades adultas imediatamente, se comprometendo em casamento e trabalho e com o sustento de sua família. Com a geração dos baby boomers, no pós guerra (Baby boomer é alguém nascido entre 1945 e 1964, num súbito aumento de natalidade, especialmente na Europa nesse período pós guerra), ficamos sem saber o que fazer com tanto bebê chorando e tanta criança crescendo sem trabalho! Afinal, a Europa foi devastada pelas guerras mundiais e aquele velho costume de assumir a maioridade e a responsabilidade logo após a primeira infância ficou comprometida com a crise financeira.

Nasciam aí os adolescentes! Essas pessoas das quais invejamos a juventude, a beleza e nas quais, pra nos vingarmos desse vigor que muitas vezes já nos abandonou, criticamos o comportamento e ressaltamos a imaturidade e inexperiência diante da vida! Quem não queria a saúde e o corpinho dos 17, 18, com a sabedoria dos 40, 50, 60 ? Atire a primeira pedra, quem nunca…

Dia desses, conversava com uma amiga e ela se queixava: “Estou em crise! Não posso mais cantar aquela música do Fábio Jr que fala sobre ‘meus vinte e poucos anos’…” Meu consolo pra ela foi dizer: “Não fique assim! Ele (Fábio Jr) também não pode e há muito mais tempo que você!”. Mas admito que, poucos segundos depois, entendi perfeitamente a crise da minha “balzaquiana” amiga ao perguntar a outro amigo que fazia aniversário, quantos anos ele fazia, quando ouvi a resposta: “Tô fazendo 19, tio!”. O “tio” na frase nunca existiu, mas foi como se existisse e entrasse como uma faca em meu coração!

Será que nesse mundo de botox e rios de dinheiro gastos com plásticas e academia para se manter e resgatar a beleza perdida, ainda há esperança pra discussões um pouco mais profundas sobre a vida ? Acho que a eternidade colocada por Deus em nosso coração começa, gradativamente a dar lugar ao desejo de sermos “Forever Young”. Se Fred Mercury cantasse hoje : “Who wants to live forever?” nós gritaríamos eufóricos e de mãos pra cima: eu! eu ! eu!

A situação está tão grave que a ciência, aquela nossa velha conhecida, já fala hoje num negócio chamado “Adolescência tardia” que seria um bando de marmanjo de 25, 30, 40 anos, se comportando e se vestindo como adolescentes! Essa fase de medos e espinhas, detestada por quem nela está, que supostamente terminava aos 18, 19, hoje é esticada propositalmente até os quase 40! As pessoas estendem sua dependência paterna/materna econômica e emocionalmente falando, ao máximo que podem e mantém a atitude de quem ainda tem 17, 18 anos. Com as plásticas e os cosméticos, em muitos casos, a aparência acaba ajudando!

Me arrisco demais afirmando isso, mas “na minha época”, a gente queria crescer rápido, virar gente e ter uma carreira, um carro, etc. Eu acreditava aos 9 anos que aos 18 estaria casado, cheio de filhos e quase no fim da vida. Hoje eu nem sei em que hospício eu estaria se dissesse algo assim, aos 9 anos!

Se lidamos assim com a idade, o que não esperar da morte ? Sendo a nossa única certeza desde que nos entendemos por gente, nunca nos acostumamos com a ideia de que um dia encontraremos esse destino! Quanto mais nos incomoda ao vê-la derrubar pessoas jovens! Como é incômodo imaginar que tudo que somos, sabemos, podemos ou que nosso dinheiro pode comprar, no fim, não nos garante coisa nenhuma! Nem sequer retardar esse fim! Que desagradável, acordar amanhã com o risco de não ter certeza nenhuma de que, no fim do mesmo dia, estaremos aqui ainda! Fato é que esse risco existe e vivemos como se dele não soubéssemos, exatamente como cantou a Nana!

O jeito é ir vivendo, de preferência, com gratidão (alguém já disse isso ontem por aqui) pelo fato de estarmos vivos e buscando aprender, adquirir sabedoria, não conhecimento de livros apenas, mas sabedoria pra vida: um negócio que a gente vai ganhando com o tempo, sem gastar dinheiro, mas que nos faz encarar a idade com serenidade e gozar plenamente a fase em que estamos, com saúde e alegria! Apesar do espelho, nosso ex-amor!

Contando copos de café…

Hoje a letra da música “Capitão de Indústria” dos Paralamas do Sucesso me incomodou muito, principalmente o trecho: “Eu não tenho tempo de ter. O tempo livre de ser. De nada ter que fazer.É quando eu me encontro perdido. Nas coisas que eu criei. E eu não sei…”

Quantas vezes nesses dias tão corridos, marcados pelo trabalho e cem milhões de compromissos não temos nos permitido ter o “tempo livre de ser.”, fazemos as coisas de uma forma muito mecanizada, tudo sempre muito igual, sem o menor espaço pra reflexão. Pior ainda, estamos perdendo o precioso tempo de estarmos com as pessoas.Quantas vezes em encontros casuais na rua encontramos algum amigo querido que não vemos há anos e apenas dizemos a célebre frase, que já soa até como clichê: “Vamos marcar qualquer coisa… qualquer dia…” E esse dia nunca chega, passam-se os anos e anos e vamos perdendo de ter momentos preciosos com as pessoas por pura falta de tempo, ou indo mais além ainda, porque não considerarmos o tempo investido em pessoas como sendo vital para nossa existência. A música “ Seasons of Love” do Musical “Rent” fala sobre como estamos contando o nosso tempo, como usamos os quinhentos e vinte e cinco mil e seiscentos minutos que temos todos os anos, e em determinado trecho da canção, ela diz: “How do you measure. Measure a year? In daylights – in sunsets.. In midnights – in cups of coffee. In inches – in miles. In laughter – in strife” ( Como você mede. Mede um ano? Em dias – em pores-do-sol. Em noites – em copos de café. Em centímetros – em quilômetros . Em sorrisos – em discussões.)

A forma que hoje cotamos nosso tempo é uma construção histórica social que vem da necessidade do sistema capitalista. É na sua necessidade de produção que nossa vida é planejada. O tempo “ideal” de horas de sono, horas de trabalho, horas de lazer distribuídos em nossas 24 horas são baseadas muito mais nas questões do lucro do que no nosso real bem estar físico.

Assim eu creio que precisamos nesses tempos pós –modernos contarmos mais nosso tempo em copos de café com os amigos, quer apenas jogando conversa fora, que contando nossas histórias, quer refletindo sobre a questões da vida. Vivendo a intensidade do tempo livre de ser, de nada ter que fazer, contemplando mais o amanhecer, mais o por-do-sol, viajando mais, sorrindo mais e principalmente realizando mais café das cincoepoucas com nossos queridos!